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Viés
feminino
Ercília Macedo-Eckel
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Esta é uma rapsódia,
em prosa e sem pudor, com fantasias sobre
gênero – retirada dos estilos
Amélia, funk e pagodinho. |
Ai,
que saudades do Américo! Ele sempre me prepara
um estrogonofe light ou cria um prato bem pequeno,
com carne magra grelhada, vegetais, tiquinho de
arroz e salada de folhas. Nada que ultrapasse 300
calorias – incluindo a maçã
de sobremesa. Também me presenteia com os
mais agradáveis perfumes, como se eu fosse
uma divindade que pudesse eclipsar todas as mulheres
com minha simples presença, ou até
mesmo depois de minha oblíqua retirada do
ambiente. Ai, que saudades do Américo! Maluquinho
para me abraçar e beijar, porque carinho
não dói, não dói, não
dói. Tô visando! Vou ajudar você,
Américo, um homem de verdade, que tira a
roupa do varal, quando vai chover. Digita sem reclamar,
textos complexos e enormes para mim, bem na hora
em que deveria assistir à classificação
de seu time no Campeonato Goiano. Esse é
um homem com muito sentimento e juízo sobre
gênero. Ele nunca vira para o lado, nem dá
espaço pra suplente. Ri muito! Eu exijo que
ele tenha todos os dentes brilhando só para
mim – enquanto cavalgo sobre seu ventre. Créu,
créu, créu; crau, crau, crau. E céu,
céu, céu... em movimentos sincronizados.
E olha que não sou leve, nem bonita. Nem
estou, assim, na moda funk ou pagodinho. Me vejo
mais como uma Vênus de Willendorf, a deusa
pré-histórica, que veio de encomenda
para ocupar espaço na vida de Américo.
Isto só aparentemente. Porque não
sou nenhuma estatueta de museu. Saio do esquema
estático e diminuto para dinamicamente galgar
as alturas resplandecentes do sétimo céu,
ouvindo uma lira de sete cordas. Créu, créu,
créu; céu, céu, céu.
Aqui na mira. Está chovendo na minha horta.
Tira a roupa do varal.
Vai
meu Apolo, apologando em fabuloso gato, sua preguiça,
seus dengos e manhas. Mas também exiba-me
seus bíceps, tríceps, grande peitoral,
grande dorsal, grande glúteo. Ai, maluquinha
pra apertar seus gêmeos, vastos e costureiros.
Frontalmente. Dorsalmente. Que meus olhos estão
neles costurados e arrematados, há bastante
tempo.
Meu
Deus! Braços abertos, cara de sol, maluquinho
pra me abraçar e beijar. Porque carinho não
dói, não dói, não dói.
Penteio seus cabelos suados com dedos pianíssimos.
Maluquinha pra apertar... Aqui na mira. Tô
visando. Apertando. E créu, créu,
créu – três vezes. Nele! 300
calorias. Maçã de sobremesa.
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