| Uma
avó...
uma
história:
digressões históricas e autobiográficas.
Ercília
Macedo-Eckel
Quase ninguém me conhece por Domethildes
de Matos Macedo. Chamam-me popularmente de Doninha.
Nasci dois anos antes da abolição da escravatura
na Fazenda Juazeiro, a trinta léguas da Lapa do
Bom Jesus, se não me falha a memória. Venho de família
numerosa e vida loooonga. Imagine que a minha bisa
morreu com 110 anos. Tenho origem no clã de Gregório
de Matos, o boca
do inferno do Brasil Colonial, por parte de
meu pai, José Evangelista de Matos, tio (?) de Horácio
de Matos e Victor de Matos, temidos em muitas comarcas
do sertão baiano, e dos Oliveira Ledos por parte
de minha mãe. Só carrego um defeito: o de conversar
alto, porque não sei falar na cumbuca. Ah! Também
não me calo diante de um desaforo. Quando dizem
truque,
respondo: Vale
seis, papudos, pois onde
mata o boi aí tira o couro, ô chente.
O coronelismo, a seca e a fome do agreste
fizeram meus pais sonharem e migrarem para o interior
de São Paulo, Fazenda Córrego da Égua, perto de
Bebedouro, que passou a ser nosso comércio. Levaram-me
a mim e mais meus treze irmãos. Logo depois, aos
17/18 anos, aprendi a canção que homenageava Santos
Dumont por seu grande feito em Paris (1903).
Não tive pressa para me casar, entretanto
no casamento de Dina, minha irmã mais nova, que
me fizera de pinguela, conheci meu falecido marido,
também baiano, empreiteiro de cafezais em Jaborandi
que, na época, era distrito de Barretos. Aqui registrei
a minha única filha, minha dor de cabeça. Como era
bonita a danadinha! Dela restaram-me seis netos
(três casais) dos quais cinco acabei de criar.
O
percurso do grupo que veio dos cafezais de São Paulo
para Goiás foi sofrido e com alpargatas de couro
cru, que a gente mesma fazia. Parávamos, de vez
em quando, a fim de
desincharmos os pés, banhando-os no caldo
de feijão. As crianças das famílias João Belle e
Juvêncio (Aurélio) Correia da Silva (Esta
última parente de meu marido) vinham em bruacas
sobre cavalgaduras. Era 1922, Centenário da Independência,
governo de Epitácio Pessoa, Revolta dos 18 do Forte
de Copacabana, para impedir a candidatura café-com-leite
de Artur Bernardes. Era festa de Trindade em Barro
Preto. Aqui comprei minha máquina de costura, de
mão e inseparável companheira. Ouvimos dizer que
em março desse mesmo ano foi fundada a Escola
de Farmácia de Goiás _ por iniciativa do Dr.
Brasil Ramos Caiado.
Quando aqueles bichos esquisitos chegamos
na então Capital, penso que os vilaboenses se confundiram
e gritavam fechando portas e janelas: Olha
os revoltosos do tenentismo. Olha os revoltosos
da salvação nacional! E nossos passos nas ruas
de pedra eram respondidos pelo eco das casas e janelas
despovoadas e pelos becos sombrios.
A situação no Brasil era crítica: inflação,
desemprego, voto de cabresto, fraude eleitoral e
corrupção no governo. Nossa dívida externa no final
de 31 estava em torno de 20 milhões de contos de
réis. Ouvi dizer também que ela começou em 1883,
três anos antes de eu nascer, e que precisava ser
paga em libras, dólares e francos. Porém os credores
sempre estudamos uma renegociação, um novo empréstimo
para pagar o que já devemos. E isso aconteceu em
março de 32 e o país pôde respirar por mais algum
tempo. De minha parte, espero que meus netos, bisnetos,
trinetos e tetranetos não sofram, no futuro, esse
mesmo constrangimento.
Chegamos em Goiás no auge da oligarquia Caiado,
depois dos Bulhões e antes dos Ludovicos. Alojamo-nos
em terras do Dr. Arnulfo (com ph) Ramos Caiado e
por ele fomos medicados. Mais tarde, com muito sacrifício,
chegamos a ter a nossa própria fazenda (na fachada
1932-1934), animais sem conta e a satisfação de
receber Dr. Brasil, nas suas caçadas, verdadeiras
andanças de diversão e cachorros mil, e servi-lhe
um arroz com suã, do qual ele dizia, lambendo as
longas barbas: Bem
temperado, bem temperado!
Era um atraso medonho, um sertão bruto esse
Goiás. Certa ocasião, levantei-me com o lusco-fusco
ainda. Jacá com espigas de milho e raízes de mandioca
até a boca, ali, de lado, na calçada alta da varanda.
Abóbora madura picada, também. Cuia na mão, as sementes
abriam leques amarelos pelos ares. Ti-ri-ri, ti-ti!
Galinhas de todos os matizes pintavam o terreiro.
E alguns porcos intrusos surgiam, destoando o toc-toc
dos bicos na terra seca e dura. Ô bicho excomungado
é porco! Estava sempre a cortar-lhes o focinho a
fim de deixarem as plantações sossegadas. Como eu
ia dizendo, tratava das criações... foi então que
vi Nazi perturbando a ração dos animais, fazendo-os
correr. Nazi,
Nazi, gritei-lhe, intrigada. O cachorro nem
se moveu e, com o rabo entre as pernas, me olhava
insistentemente. Cheguei mais perto. Criatura de
Deus, era uma onça! Arrepiei-me toda. Abílio não
estava em casa. Tinha viajado no seu cavalo Mussolini
para a cidade de Goiás. Eu não sabia atirar. Bradei
feio, mas feio mesmo e ela ganhou o caminho da mata,
a passos de lesma.
Outra feita, os cães latiram no meio da noite,
nós acompanhamos seus latidos e, num piscar de olhos,
um bando de queixadas nos cercou. Olha daqui, olha
dali, e nada para subir... finalmente um tronco
velho de árvore no capim jaraguá. Alçamos com o
candeeiro apaga-não-apaga e ali ficamos com o coração
na garganta, temendo uma escorregadela, até que
o sol deu uma chifrada definitiva na escuridão e
pudemos voltar para casa sem perigo.
Também vi muita gente correr horrorizada
do primeiro automóvel da cidade de Goiás, de propriedade
do Sr. Antônio Xavier Guimarães ... Não me admira,
porque até hoje não acredito que alguém pisou na
lua. É filme de televisão, homessa!
Já vivi muita coisa. Trabalhei de enxada
e ordenha à feitura de rendas e coletes para festas.
Já tive fornos de barro e grandes fornalhas para
telhas, potes e petas ou para tachadas de farinha
e rapadura. Para a alegria desenfreada dos bilros
entre meus dedos havia uma grande almofada redonda,
papelão em tiras com as marcas e centenas de alfinetes,
na confecção das referidas rendas. Fogão, só caipira.
Máquina de costura, só de mão, aquela, de Barro
Preto. Empregada? Nunca tive. Não tenho paciência
p´ra lidar com gente, essa menina.
E os anos correram no moinho do tempo. Escola
para os netos, casa grande na cidade de Goiás. Branquinho
peludo e anilado na veneziana de moldura colonial,
rede de franjas numa das varandas, móveis antigos,
panelas de ferro gastas, testemunhas
dos bons e maus momentos: chegada das netas
mais velhas de Goiânia, com os bisnetos, nos feriados
e dias santos; doenças, desgostos, viuvez (1961).
E os anos correndo no moinho do tempo, as forças
minguando, os ânimos diminuindo, a fé em Deus aumentando
sempre, na meditação de Sua palavra.
Peripécias e mais peripécias na família.
A casa-relíquia ao lado da residência pastoral da
Igreja Cristã Evangélica, em Goiás, foi vendida
e modificada. Retalhos de mim foram distribuídos
entre os filhos de minha filha. Passei a morar,
ora com uma, ora com outra de minhas netas mais
velhas, havendo, de permeio, um estágio na Casa
dos Velhos, devido a meu espírito forte e própria
iniciativa. Passei a receber em vez de dar, a obedecer
em vez de ordenar, à mercê dos outros, sem sabor.
Porém, esse mundo dá muitas voltas e tudo passa.
E, quando meus males forem velhos, esquecidos, os
seus serão novos. É a vida que continua.
Hoje, tomo as refeições no quarto, o silêncio
cachimba ao meu lado e meus desejos dissolvem-se
no espaço, nas espirais da fumaça de agosto. Cheirosos
e bonitos saem todos para o trabalho, escola, festas,
passeios de fim de semana. Da vidraça eu os vejo
entrarem no carro e meus olhos os acompanham até
dobrarem a esquina. Antes, queria ir também e me
aborrecia por ficar só. Depois, vi que incomodava,
alterava os programas, pela falta de ar, pelas pernas
trôpegas de juntas reumáticas.
E tudo se repete: leio horas e horas (Voltei
a enxergar bem sem óculos), assisto à televisão,
faço crochê, reparo algumas roupas e volto a ler...
até o dia em que Deus se lembrar de me chamar.
*
*
*
E
Ele a chamou em 10/12
de dezembro de 1981, oito anos depois desse
depoimento, aos 95 anos.
|