| Transcendência
Saio
do meio das plantas, abro e fecho as páginas
dos livros. Ouço O coro dos cavaleiros,
de Wagner. Estou à procura de mim. Do eu-menestrel
e peregrino, rumo à brilhante morada.
Quem
fui? Quem ainda sou? Até quando serei? Tenho
consciência de que estou aqui para a morte.
Agora bem mais próxima de minhas retinas.
Sinto medo dessa situação, do risco
que corro no mundo cheio de lobos. Ou sinto angústia
pelo que vem de dentro de mim mesma?
Os
lobos de que tento me defender são meus próprios
medos, minha agressividade, meus fantasmas a cravar
dentes de posse dentro de meu ser, para estraçalhar
meu brilho, engolir minha hipocrisia e
dissimulação. E, nesse momento, uma
enorme angústia (Não acho sinônimo
para angústia) me domina, ao buscar o sentido
oculto dessa minha existência e ao descrever
minha realidade, minha dura vivência no mundo.
Qual seria a dimensão do tempo ou a garantia
de futuro para mim? Não sou animal nem anjo,
por isso conheço a angústia permanente
da morte. Dizem-me: - Você ainda vai viver
muito. Tem boa saúde. Se cuida. Por que essa
conversa desagradável? Pare com isso!
Minha
espiritualidade é fraquinha, fraquinha. Mas
desde quando resolvi encarar essa ameaça
imanente, dissecar por antecipação
meu fim, não negá-lo nem mascará-lo,
me senti mais conformada em ser para a morte.
Morte natural é claro. E mais preparada para
suportar (antecipadamente) esse trauma. Quando nasci,
quando você nasceu, nós nos inauguramos
no mundo chorando. Não foi? Percebemos logo
o perigo de estar aqui, e nossa situação
de impotência diante da primeira separação.
No
momento me encontro no mundo, nas pessoas, nas coisas,
na boa música, na natureza e moro dentro
de mim mesma, enquanto o tempo o permitir. Como
a rosa, não tenho porquê. Vou despetalando
o vermelho da vida, até que um querubim me
receba no último portal. Mas sou peregrina,
estou de passagem e prevejo o tempo no sentido do
sol. 360 graus. Pastoreio estrelas e palavras desgarradas
do rebanho, vítimas de sacrifício
imerecido. Resisto com cuidado e me guardo daqueles
lobos, sendo eu mesma, na ultrapassagem contínua
para um estágio superior: a compreensão
de meu próprio ser, através da verdade
que dele emana.
Então,
projeto-me no tempo e me sinto iluminada, dando
gargalhadas homéricas. Onde está meu
pensamento lógico? De vez em quando me vejo
entre círculos concêntricos: palavras
altas, molhadinha e redondas de mim aqui, seguidas
de silêncio seco de espera, no relógio-de-não-ser-eu
acolá. Não faço nenhuma força
para ser autêntica, depois que deixei de viver
de acordo com verdades impostas. E, se há
em mim pouca originalidade, não chega a despersonalizar-me.
Observe que uso em demasia a primeira pessoa, O
tempo que me resta é curto, entretanto mantenho-me
em constante e modesta renovação.
Apesar da consciência de estar aqui para a
morte. Para a minha morte. Você me
compreende? Ou me questiona?
* * *
Ouço
a Toccata e fuga em ré menor, de
Bach, num recital de órgão. E, a seguir,
Os céus declaram ..., de Beethoven.
Ultrapassaria eu o último portal para a glória
da 9ª sinfonia? Ali, não teria eu mais
necessidade de nada, sob diferentes aspectos, tais
como: necessidade material, física, espiritual,
de regras, disciplina, ou de obedecer ao relógio.
Também não teria mais necessidade
de liberdade, de ar para respirar, de remédio
(contra dor), de afeto, de felicidade, de ajuda,
de comunicação, de dominar a tecnologia...
Eu e a ausência total de necessidade.
O
tempo do relógio começaria e terminaria
coincidentemente com o de minha existência
no mundo. O espaço real ou imaginário
seguiria a curvatura ou a linha de minha geometria.
Observo que estou além do tempo e do espaço.
Daqui não vejo movimento, ação,
forma ou tamanho. Já não me submeto
às condições desse mundo conhecido
de todos. Ultrapasso a situação limite
desprovida de necessidade e de matéria. Vou
além da existência terrena, rumo à
impossibilidade de ser alcançada por habitantes
desse planeta. Percebo que ainda sou eu mesma. E
me basto. Não me repito.
Agora,
vou além de mim. Sinto-me infinita. Única.
Mas dizer que me tornei divina é folclore.
Ou seria delírio de um eu-menestrel, andante,
a cantar e cavalgar em todas as cortes de meu próprio
ser?
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