| Tentativa
de apreensão do significado total de um conto
Corpus:
O cachorro
canibal,
de J.J Veiga
Percebia-se
que era um cachorro por causa do rabo metido rente
entre as pernas, quase colado na barriga, e também
um pouco por causa dos olhos, de uma tristeza tão
funda que só podiam ser olhos de cachorro
escorraçado. As patas não se firmavam
no chão como as de qualquer cachorro razoavelmente
seguro de si; pisavam a medo, apalpando experimentando.
(Depois se soube que ele tinha perdido os cascos
pelos caminhos, ficando as plantas em carne viva.)
De onde estaria vindo, ninguém se interessou
em saber; ele apenas parou ali, lamentável
e infeliz, muito cansado para continuar andando.
Apareceu de manhã, e quem o viu deitado numa
nesga de grama debaixo do jasmineiro pensou em um
cão errante, igual a tantos que cruzam o
mundo em todas as direções, parando
e farejando, mas sempre em marcha, como se incumbidos
de alguma missão urgente, cujo endereço
e propósito só eles sabem; nem valia
a pena providenciar comida, provavelmente ele não
estaria mais lá quando a comida chegasse.
Mas
aquele parecia não ter pressa ou intenção
de seguir, e lá ficou deitado de lado, não
propriamente descansando porque as moscas não
deixavam, mas fazendo o possível por conseguir
algum sossego.
Via-se
que estava faminto, mas o cansaço impressionava
mais, talvez devido a seu litígio incessante
com as moscas. Às vezes ele parecia pensar
que pudesse acomodar a cabeça entre as patas
e deixar ao resto do corpo o trabalho de repelir
os inimigos. O rabo não parava de açoitar
o ar, e todo o pêlo tremia repuxado pelas
contrações dos músculos; mas
essa estratégia era logo descoberta e as
moscas concentravam o ataque na cabeça e
nas orelhas. Eram tantas e tão insistentes
que ele não podia ignorá-las por muito
tempo: tocava o ar indignado e às vezes até
se levantava de um pulo para poder persegui-las
melhor — mas a dor causada pelos talos de
grama nas plantas desprotegidas advertia-o de que
ele não estava em condições
de ser muito enérgico.
Uma
criança da casa viu-o ainda no mesmo lugar
lá pelo meio da tarde e levou-lhe uns restos
de comida. Ele estudou o menino com olhos desconfiados
e concluiu que não havia perigo daquele lado.
Comeu, lambeu o prato, balançou o rabo para
mostrar que apreciara a gentileza. Deve ter passado
a noite no mesmo lugar, mas ninguém ouviu
latidos nem uivos. De manhãzinha chamaram-no
para dentro e o menino deu-lhe um banho na torneira
do pátio. Ele não resistiu nem criou
dificuldades, era o primeiro a reconhecer a necessidade
de limpeza, sabia que um cachorro limpo leva vantagem
por onde anda.
Com
o banho ele começou a levantar o rato, primeiro
por ter recuperado um pouco da dignidade, segundo
por suspeitar que dentro de pouco haveria mais comida.
Quando um cachorro er¬rante é levado
para dentro de uma casa e recebe o luxo de um banho,
a seqüência lógica é um
prato de comida.
Mas
aí começa também a fase difícil
das relações entre cão e gente.
Como esperava, ele recebeu o seu almoço;
e não tendo sido enxotado, interpretou a
situação como significando que seria
tolerado. Mas pode um cão contentar-se com
a simples tolerância? Quando se sente apenas
tolerado, um cão de respeito tem dois caminhos
a seguir: ou exige atenção, ou vai
embora para outro lugar onde possa se impor. A retirada
é sempre humilhante, ele sabe que no momento
em que vira as costas começou o esqueci¬mento
— isso se não acontece o pior: nem
percebem que ele se foi; muito tempo depois é
que alguém indaga distraidamente, "é
verdade, que fim levou aquele cachorro que andava
por aí?" Farejando o ambiente ele percebeu
que podia escolher o primeiro caminho com grande
probabilidade de êxito.
Para
começar, era preciso não exagerar
na gratidão. Se um cachorro mostra muita
gratidão as pessoas podem pensar que ele
não está habituado com tom trato e
acabam relaxando nas atenções; nesse
caso não há mais esperança
para ele naquela casa. A melhor maneira de impor-lhes
respeito é fazê-las pensar. Quando
alguém pensa, "o que é que esse
miserável julga que é? O Rei do Mundo?",
o cachorro pode ficar descansado que o seu lugar
está garantido. Em vez de se atirar aos pés
da primeira pessoa que lhe estala os dedos, o cachorro
ajuizado deve mostrar uma certa frieza. Só
depois que a pessoa insistir é que ele deve
atender, assim mesmo sem pressa. Se não houver
insistência o cachorro nada terá a
perder; pelo contrário, convém sempre
desconfiar das que não insistem.
Aplicando
todas as suas habilidades na fase difícil
dos pri¬meiros contatos ele conseguiu fazer-se
notado e respeitado. Em pouco tempo já estava
dormindo onde bem quisesse, sem receio de que o
pisassem ou enxotassem. Esta é a grande prova
de prestígio canino: não ser tocado
do lugar que escolheu para deitar-se.
E
gostaram tanto dele na casa que estragaram tudo
com a so¬licitude de amaciar-lhe a vida. Vendo-o
brincar sozinho no jar¬dim alguém lembrou-se
de arranjar-lhe um companheiro menor. Pensaram que
assim ele ficaria mais feliz, e de fato ficou —
por algum tempo. Passava horas rolando com o menorzinho
na grama, ensinando-o a viver e a ser respeitado,
e quem os via em¬bolados no chão pensava:
"Que graça! Até parecem irmãos!"
E como aprendia depressa aquele ladrãozinho
malhado!". Em pouco tempo já estava
passeando de colo, aliás uma lição
que o maior não ensinou. Aproveitando-se
da inocência do cãozinho as pessoas
da casa conquistaram-no completamente, numa inversão
ridícula de papéis. Dava engulhos
ver a sofreguidão dele atendendo os chamados
mais absurdos, a humildade na aceitação
de censuras e castigos. Aquele estado de coisas
não podia acabar bem. Mais dia menos dia...
A
situação agravou-se quando começaram
a tomar liberdades com o cão maior, decerto
inspirados pela intimidade excessiva que mantinham
com o outro. Já não o deixavam dormir
onde quisesse, e não escondiam o desgosto
de vê-lo dentro de casa. Ele ia suportando
tudo com paciência, esperando que a loucura
passasse.
Mas
não há paciência que resista
a abusos.
Ele
estava dormindo de patas pra cima no canto de uma
varanda ladrilhada, nem era no meio ou na passagem,
mas no canto, ninguém podia dizer que estivesse
obstruindo. Mesmo assim alguém achou de encher
a boca de água e vir de mansinho esguichá-la
nele. Ora, isso assusta e aborrece. Num rápido
movimento rolado ele ergueu-se e ficou parado sem
compreender; mas a água escorrendo pelas
pernas e a pessoa enxugando a boca e olhando com
olhos maldosos diziam tudo. Foi uma traição
mesquinha, mas mesmo assim ele achou melhor não
perder a compostura; não latiu nem fez escândalo.
Retirou-se com relativa dignidade para a sombra
do jasmineiro.
A
idéia veio de repente, já como decisão.
O ladrãozinho malhado tinha acabado de tomar
banho e espojava-se ao sol a poucos metros de distância.
O outro levantou-se da sombra, esticou as patas
dianteiras ao comprido do corpo, como se fosse deitar-se
noutra posição, mas era apenas para
se espreguiçar; abriu a boca num bocejo enorme
e caminhou para o pequenino. Quando esse, que estava
deitado de costas dando coices para o ar, sentiu
aquela pata pesada no peito, julgou tratar-se de
alguma brincadeira e ainda rosnou de brinquedo.
A primeira dentada feriu-o na carne mole do ventre.
Achando a brincadeira muito bruta ele decidiu retirar-se,
rosnando e mordendo o outro no pescoço, mas
o queixinho novo não tinha força para
fazer mal, e o outro prosseguiu com o seu projeto,
começando pelas partes tenras, com certeza
já de cálculo para não sair
perdendo caso se fartasse antes ou tivesse que fugir
por motivo de força maior. Mas ninguém
veio acudir, aqueles dois viviam brigando e fazendo
as pazes. Quando ele começou a enjoar só
restavam os ossos mais duros e uma mancha de sangue
na grama. Os ossos ele carregou para longe, escondeu,
enterrou; o sangue ficou como enigma para as pessoas
da casa.
Se
ele pensava que ia ser feliz daí por diante,
deve ter omitido em seus cálculos algum elemento
muito importante; porque desde esse dia ele mudou
completamente, a ponto de parecer outro cachorro.
É claro que as pessoas da casa interpretavam
a mudança como conseqüência da
perda do companheiro (o que não deixava de
ser) e combinaram ter paciência com ele.
Dava
pena vê-lo de cabeça baixa, num ir
e vir incessante, sem encontrar sossego em parte
alguma. Mesmo quando parecia descansar, deitado
de lado em um tapete, o bojo das costelas arfando
compassado, o brilho do pêlo ondulando com
a respiração, podia-se ver que o repouso
era aparente. Olhando bem, via-se que os músculos
nunca estavam em completo descanso, havia neles
uma constante trepidação, um zumbir
de alia voltagem. Bastava um ruído distante,
um leve toque, mesmo de uma penugem pousando, para
ele saltar nas quatro patas, as orelhas armadas,
os olhos furando o tempo — o que acontecia
também sem nenhuma razão aparente.
Por
uma misteriosa repulsão as pessoas passaram
a evitá-lo, não lhe afagavam mais
a cabeça, não lhe alisavam o pêlo,
ninguém lhe amarrotava as orelhas para ouvi-lo
ganir, o que é também uma forma de
mostrar a um cão que se gosta dele. Agora
era só respeito, um respeito apreensivo.
Às vezes ele se instalava numa passagem,
parece que desejando que o maltratassem, que o enxotas¬sem,
quê o humilhassem; mas o que se via era as
pessoas tomarem trabalho para não incomodálo,
se afastarem para lhe dar passagem. Não sabendo
chorar ele procurava gastar a angústia caminhando
sem parar, talvez na esperança de se cansar
e cair de vez. E quanto mais se movimentava, mais
dava a impressão de estar contido entre barras
de uma jaula.
Repetindo o título desse estudo:
Tentativa
de apreensão do significado total de um conto
Ercilia Macedo-Eckel
Com
este tema não implicitamos que significado
total de uma narrativa seja apenas a soma das partes
que a compõem, pois uma peça literária,
não importando o seu valor, “é
uma unidade complexa, que inclui em si várias
tensões — contrastes, oposições,
até contradições evidentes.”
(Marlies K. Danziger, Introdução
ao estudo crítico da literatura,
p. 31).
O
“corpus” para desenvolvimento deste
estudo é o conto “O cachorro canibal”
de José J. Veiga, em A máquina
extraviada, p.87-92. Isto em nada impede
que seja também qualquer uma outra peça
literária.
Classificação
por gênero: neogênero — transformação
do gênero tradicional; espécie: conto,
como já dissemos; tipo temático: fábula.
A
fábula não é um gênero
novo (Esopo, séc. VI a.C. — grego;
Fedro, I a.C. — latino; La Fontaine, século
XVIII — francês), tendo chegado até
nós aqui no Brasil com Anastácio Luis
de Bonsucesso, com Barão de Paranapiacaba
— tradutor de La Fontaine — com o Marquês
de Maricá, Catulo da Paixão Cearense,
Monteiro Lobato e Millor Fernandes, esse último
de moralidade às avessas.
A
fábula designa a narrativa alegórica,
cuja verdade moral se esconde sob o véu de
ficção e na qual se fazem intervir
as pessoas, os animais irracionais personificados
e até as coisas inanimadas — e é
renovada constantemente, desde La Fontaine —
que a fez popularizar em traduções
em diversas línguas, tendo passado às
artes plásticas e ao cinema, como nas películas
de Walt Disney, que são as fábulas
do século XX. E muitas das produções
literárias (ficção cientifica)
de hoje, com seus monstros e animais fabulosos de
outros planetas, são fabulas ou contos variados
e ampliados em diversas modalidades.
O
espírito geral das fábulas, é
realista e irônico e formalmente elas são
epigramáticas e, por extensão, também
— prosa.
O
título do conto (O cachorro canibal) e sua
transcendência decorre da estrutura da narrativa,
da própria fábula, cuja personagem
central, vinda de lugar desconhecido, aparece sem
nome (e sem nome fica) e cujas personagens secundárias
(que são pessoas mesmas) — surgem imprecisas
indefinidas, indeterminadas: “uma criança”,
“alguém”, “ninguém”,
“a(s) pessoa(s)”, “gostaram”,
“pensaram”, “ocupam uma casa”,
não se sabe onde.
A
estrutura do conto poderia ser representada no seguinte
gráfico:
a)
Introdução: (
)
Introdução
da personagem (cachorro canibal), percepção
e discrição psicológica do
cachorro: 1º, 2º e 3º §§.
Feita com sobrecarga de pormenores expressionistas
inconfundíveis e, em parte, sugestivos do
clímax e / ou do desfecho: o rabo (entre
as pernas — colado na barriga, “carne
mole do ventre”); os olhos (de tristeza funda,
de cachorro escorraçado); as pastas (medrosas,
inseguras, sem os cascos) num cachorro errante,
cansado, lamentável, infeliz, faminto, dolorido,
litigiando por sossego com uma quantidade enorme
de moscas, ali “deitado numa nesga de grama
debaixo do jasmineiro”.
b)
Desenvolvimento: (
)
Encontro
entre forças opostos: relações
entre cão e gente — habilidade de um
cachorro para impor-se no ambiente — do 4º
ao 12º §§.
c)
Clímax: (
)
Triunfo
de uma “polaridade” e derrota de outra:
§ 13.
O
cachorrinho que lhe trouxeram para companhia, com
o passar dos dias, veio ameaçar as regalias
do cachorro maior, conquistadas tão habilmente.
Assim: “A idéia veio de repente, já
como decisão. (...) abriu a boca num bocejo
enorme e caminhou para o pequenino (...). A primeira
dentada feriu-o na carne mole do ventre...”
Convém
observar que a derrota de uma “polaridade”
(força oposta) pode significar o triunfo
do antagonista (ou de seu símbolo). É
bom lembrar aqui — Romeu e Julieta morreram,
mas o amor triunfou. No caso em estudo, a morte
do mais fraco tirou o sossego e o carinho do mais
forte, trazendo enorme angústia ao canibal
vencedor.
d)
Desfecho: (
)
Omissão
de elemento importante para a felicidade. Daí:
o desassossego e angústia do canibal, seguindo
caminhada ininterrupta e sentindo-se “entre
barras de uma jaula” – §§
14, 15 e 16.
O
desfecho segue imediatamente ao clímax. A
partir daí o conto vai perdendo a sua dramaticidade
e aclarando o triunfo da força menor (cãozinho)
interiorizada no canibal, gerando a peregrinação
deste, na tentativa de dissolver a angústia
que o continha entre barras prisioneiras.
A
temática revela o gosto literário
dominante do autor: o gótico atual, transposto
da ornamentação na escultura gótica
para a literatura —— “onde entre
formas naturalistas convencionais — folhagens,
flores, pássaros — irrompem formas
grotescas de monstros quase inimagináveis...”
(Comentário de orelha de A máquina
extraviada).
O
enredo gótico tem suas raízes no séc.
XVIII em The Castle of Otranto,
1764, de Horace Walpole. Nessa obra “um jovem
é misteriosamente trucidado por um imenso
capacete pertencente a um gigante desconhecido;
um retrato de família suspira audivelmente;
e, por fim, todo o castelo de Otranto é destroçado,
quando o fantasmagórico gigante se ergue
para vingar-se do atual proprietário, que
usurpara o título e a propriedade pertencentes
à sua família” (Danzinger, op.
cit. p. 103). E muitos outros têm cultivado
esse gosto literário que “serve para
fazer sentir a força do Mal”, conforme
Oto Maria Carpeaux.
Essa
temática se baseia no clima de mistério,
inquietação, apavoramento, nas reflexões
sobre poder, na atmosfera “sobrenatural”
que envolve a(s) personagem(ens), — transcorrendo
o enredo em sequência fatalística de
acontecimentos, conduzindo-o ao desfecho mórbido
e sombrio. Aqui, em nível de fábula,
demonstra a derrota dos sabidos e dos mais fortes.
Esse tipo de narrativa é um recurso usado
pelos autores para denunciar a opressão em
regimes ditatoriais. As fábulas são
muito comuns em tempo de censura.
O
motivo é uma pequena unidade temática
de extração afetiva que aparece e
reaparece em diversas combinações
ou é situação típica,
que se pode repetir indefinidamente em diversas
obras e varias relações individuais.
Nesse conto o motivo é psicológico
e particular do cachorro: sua insegurança
e medo de perder a dignidade.
O
assunto é o que vive em tradição
própria, alheio à obra literária
e vai influenciar o conteúdo dela —
fixado no tempo e no espaço — é
o motivo externo em que se baseia o conto: o escorraçamento
e a busca de auto-afirmação e de felicidade.
As
personagens (animais) desacompanham os passos do
senso comum, vivendo situações estranhas
e causadoras de inquietação —
consequência da própria organicidade
do conto, cujo título coincide com o protagonista.
O
protagonista (cão maior) e o antagonista
(cão menor) — são substitutos
do elemento humano, são seres antropomorfizados.
O “ladrãozinho”, por exemplo,
é um diminutivo afetuoso que humaniza o bicho,
carregado até de ênfase especial, depreciativa
(pejorativa) — expressa desprezo, inimizade
ou ódio contido do cão maior. Como,
em sentido inverso, o fizera Kafka com a “baratinha”,
em Metamorfose —,o homem
se transforma em barata. As fábulas e os
desenhos animados se baseiam nessa humanização
(ou desumanização).
O
cachorro canibal é personagem de
vida interior, caracterizada pelo próprio
nome (faminto, deitado e sem pressa: conquistou)
cujos índices identificadores mais destacados
são o rabo, os olhos e
as patas em carne viva -- como prenúncio
do clímax: “... sentiu aquela pata
pesada no peito...” (p. 91) e do desfecho:
Não sabendo chorar ele procurava gastar a
angústia caminhando sem parar, talvez
na esperança de se cansar e cair de vez”
(p. 92, grifos nossos). Destacam-se ainda a boca,
o pelo, a cabeça e as orelhas.
As
moscas são as inimigas menores, muitas e
insistentes, traduzindo desassossego, tormento,
culpa, lembrando-nos dAs moscas,
de Sartre.
A
criança (menino) iniciou a caminhada para
a aceitação e prestígio do
canibal (comida, banho) e as pessoas da casa, sem
nome, sexo e idade compartilham a valorização
do animal. A traição veio, quando
o cão menor dormia “de patas para cima”.
O
cãozinho caracteriza-se pela passividade
(foi conquistado pelas pessoas da casa); por ser
bom aprendiz da filosofia de vida do maior, superando-o,
e pela subserviência.
Como
a ação do conto é mais em profundidade
que linear ou expositiva, o tempo é interior
(das personagens) e o cenário destaca-se
na medida em que afeta a ação e o
caráter das personagens, para consubstanciar
um significado mais amplo, o tema ou a ideia implícitos
na estrutura do conto: a) De manhã à
tarde — cachorro canibal debaixo do jasmineiro,
numa nesga de grama, deitado e cansado
litigiando com as moscas; os talos
de grama nas plantas das patas —
advertência: falta de condições
para reagir; b) Depois de algum tempo de prestígio
— cachorro canibal dormindo no canto da
varanda ladrilhada, as patas para
cima, sendo surpreendido por alguém que lhe
esguichara a boca cheia d’água,
com olhos maldosos — compostura: não
latiu nem fez escândalo; c) Mais dia menos
dia, depois do banho do menor — “ladrãozinho”
no sol (alegria, felicidade) de costas,
dando coices para o ar e à pequena distância
e “canibal” na sombra (perseguição),
gestos calmos e frios estirou as patas,
espreguiçou e deu a primeira dentada
nas partes mais tenras — cálculo: não
sair perdendo.
No
enfoque da narrativa temos um narrador (não
protagonista) onisciente e onipresente, observador
da vida interior e exterior das personagens, do
enredo, da situação ambiente, do tempo,
dos lugares onde se passam as cenas — em discurso
indireto, cujo processo sintático é
o de orações dependentes por conjunção
integrante e de orações independentes,
com menor freqüência, constando de verbos
no pretérito imperfeito e pronomes na 3ª
pessoa — colocando dúvida entre o real
e o irreal (“percebia-se”, “parecia”,
“via-se”, “podia-se ver”,
etc).
Quanto
aos símbolos poderíamos defini-los
como imagens que valem por um sinal. São
palavras usadas referencialmente e que se repetem
com persistência, ou que suscitam reações
nas personagens, quer como apresentação,
quer como representação, podendo até
passar a fazer parte de um sistema simbólico
ou mítico de valorização universal,
como os de fonte mitológica, histórica,
filosófica, religiosa ou literária.
É
um campo bastante perigoso o do símbolo.
E uma ousada busca exige várias leituras
do texto para que ele seja, talvez, exaurido. E
não devemos (ter a pretensão de) imaginar
que descobrimos “o” significado único
que um símbolo literário sugere —
no seu limitado âmbito de significados.
Atrevemo-nos
a destacar em “O cachorro canibal” alguns
símbolos arbitrários, por sua reiteração
e “em alguns casos, mencionados uma só
vez” (José Luís Martin, Crítica
estilística, p. 267).
Observe-se
a valoração quanto às motivações
psicológicas: cachorro canibal= peregrino,
errante, homem homicida; rabo= dignidade, ânimo;
olhos = espelho do interior; patas = instabilidade,
inconstância; jasmineiro = bálsamo,
lenitivo, retiro; comida = deleite, satisfação
interior; boca = ataque, traição;
moscas = inquietações; pelo designativo
de tensão ou repouso interior; ar = liberdade,
isenção; talos da grama=ossatura,
esqueleto / prenúncio do desfecho na grama;
banho = aceitação, acolhimento, “vantagem”;
ladrãozinho malhado= usurpador; sol = alegria,
felicidade; sombra = mistério e perseguição:
“O crime procura a sombra”
— (Caldas Aulete); barriga, ventre = vulnerabilidade;
mancha de sangue = enigma do crime.
Interpretação
da fábula: “O homem homicida”
Apareceu
de manhã, cansado, triste e inseguro, como
tantos outros errantes e forasteiros — e,
sem pressa de seguir viagem, procurou lugar de refrigério.
Embora
fizesse o possível para descansar, não
conseguia, devido aos pensamentos inquietantes que
inutilmente tentava afastar.
Um
menino da casa, vendo-o ali ainda pelo meio da tarde,
levou-lhe comida e, no outro dia, de manhãzinha,
chamou-o para um banho ao qual ele não fez
resistência, reconhecendo mesmo as vantagens
da limpeza aonde quer que se vá.
Com
o banho, sentiu-se mais gente, levantou os ânimos,
pensando que, dias melhores poderiam vir para ele
naquela casa.
Entretanto
teria que instituir um “catecismo” de
habilidades em relações humanas para
conseguir prestígio e não ser apenas
tolerado. Assim, “conseguiu fazer-se notado
e respeitado”.
Para
que não ficasse só, alguém
teve a disparatada ideia de lhe trazer um companheiro
menor, a quem ele resolveu ensinar as normas do
viver digno naquela residência. Foi feliz
por algum tempo.
Mas
o astuto companheiro superou as lições
recebidas e foi conquistado (Imagine!) pelas pessoas,
devido à sua ingenuidade e maneirismos no
relacionamento. A intimidade permitida na casa chegou
ao ponto de atingir a segurança e conforto
do que chegou primeiro. Paciência nenhuma
resistiria aos abusos e brincadeiras de mau gosto
que o povo fazia ao homem maior. Isso tinha que
acabar. E a ideia veio de chofre, decisiva... ali
na sombra do jasmineiro.
O
homenzinho havia terminado o banho e tomava sol
próximo do outro, que, vendo-o, espreguiçou-se
disfarçadamente e caminhou em sua direção.
Atirou-se contra ele (menor) que pensou tratar-se
de uma brincadeira bruta e tentou esquivar-se. Ninguém
acudiu. Estavam acostumados com a algazarra que
faziam, rolando na grama. Os restos mortais, com
os ossos mais duros, o homem maior enterrou longe.
O sangue na grama ficou inexplicável para
as pessoas da casa que “interpretaram a mudança
do homicida como consequência da perda do
companheiro”.
Então
o homicida parecia outro — de cabeça
baixa, inquieto, mesmo quando aparentava descansar.
Seus cálculos de felicidade falharam: vivia
em constante sobressalto. As pessoas começaram
a evitá-lo por “misteriosa repulsão”
ou “respeito apreensivo”. Sentia-se
entre barras de prisão, embora em plena liberdade
(andando, andando...).
Não
há crime sem castigo, mesmo os mais perfeitos:
o companheiro mais fraco “vivia” enterrado
nele.
Quanto
às figuras e tropos, poderíamos observar
a prosopopéia, algumas metáforas,
parênteses, além dos símbolos,
já estudados, e das figuras de economia expressiva
que veremos adiante. As imagens sensoriais comuns
são na maioria visuais e táteis desagradáveis
e dolorosas. As de sensibilidade interna destacam-se
através da fome, náusea (enjoar),
cansaço, angústia, etc. E as imagens
ultrassensoriais: musculares (trepidação
muscular — no repouso aparente), de inércia
(deitado, dormindo), de peso (pata pesada no peito
— com o reforço da aliteração
em “p”), de desequilíbrio (sobressalto,
andando sem parar), dentre outras, merecem destaque.
A materialização (concreto) do imaterial
(abstrato) em; “os olhos furando o tempo”
e “olhos de tristeza funda” constitui
um toque impressionista de rara beleza.
Nessa
altura estamos chegando à avaliação
do conto “O cachorro canibal”. E agora?
A valoração da literatura é
tarefa difícil: Que critério ou princípio
se deve adotar? Em função de que dar
valor à literatura? Afinal, que é
literatura? Problemas que afligem críticos
do passado e do presente! Tais critérios
dependem da concepção básica
que cada um tem de literatura e dos preconceitos,
limitações e gosto pessoais que, inconscientemente,
podem aflorar no julgamento.
O
fato de — na leitura do conto — esquecer-se
a leitora de que fazia uma leitura obrigatória
para estudo, e, posteriormente o trato que se deu
a esse mesmo estudo de complexa unidade ou integridade,
já implicou uma espécie de julgamento
(julgamento implícito).
Assim,
o critério de complexidade de “O cachorro
canibal” pertenceria ao tom sutil, impessoal
e temperado — em que as ações
e personagens não são moralmente apresentadas
como totalmente boas e invariavelmente más.
A vida humana é complicada, cheia de contrastes
e contradições, como dissemos, no
início, a respeito, também, da peça
literária. Observem-se as adversativas “mas”
que aparecem no conto.
As
verdades são restritas, parciais, e os valores,
imperfeitos. Daí o tom da ironia, atraente
para muitos leitores, “estar sutilmente presente
em quase toda a grande literatura” (Danziger,
op. cit. p, 243).
Observe-se,
ainda, a atitude objetiva e desinteressada da narrativa
pela tendência genérica ou indefinida
dos termos (pessoa, alguém, ninguém,
o outro, chamaram-no, etc.) demonstrando certa ausência
de participação no narrador (imparcialidade).
O
critério da coerência interna está
preso ao conceito de verossimilhança, necessidade,
unidade e totalidade da ação. A obra
de arte é estrutura apresentada e uma forma
de conhecer um mundo coerente onde as partes se
interligam harmônica e equilibradamente: o
material desse conto vai sendo organizado de modo
a tornar possível (verossímil, natural)
a conduta canibal do cachorro no final da trama.
O
critério da economia ou parcimônia
expressiva no uso das exclamações,
reticências, interrogações,
sugestões e insinuações irônicas
objetiva buscar maior forca estilística —
suprimindo, ocultando, subentendendo ou silenciando
elementos oracionais. Um paradoxo; a literatura,
arte de expressão, atendendo ao não
expresso, para enorme vigor, em três folhas
de narrativa curta.
"Os
valores existem potencialmente nas estruturas literárias;
são apreendidos e verdadeiramente apreciados
ao serem contemplados pelos leitores que preencham
as condições necessárias.”
(Wellek & Warren, Teoria da literatura,
p. 316). Tenho me esforçado para satisfazer
essas condições.
BIBLIOGRAFIA
ATAÍDE. Vicente. A narrativa de
ficção. Curitiba, Ed. dos
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