| Só
quero me formar
(Ghost-writer ou escritor fantasma
II)
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Ercília
Macedo- Eckel
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“Pagar para que alguém escreva
seu trabalho da faculdade é antiético,
mas não é crime” (Emiliano
Urbim. Alunos nota R$10,00, Superinteressante,
jun./09, p. 68).
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–
Lu, acabei de encomendar minha monografia no Portal
de trabalhos prontos. Na verdade, tenho que
estar entregando esse troço com urgência
na secretaria da faculdade. Caraca, o prazo logo
vence. Será que o cara que recebeu a grana
adiantada vai me dar o cano?
–
Sei desses serviços faz tempo, Pi. Na verdade,
amiga, ninguém fica mais estressado por conta
do monte de trabalho em final de curso. Sites meio
que anunciam e vendem monografias, dissertações
e teses – entregues em dia e hora marcados.
Dependendo do assunto, já estão prontas:
4 reais a página. Outras podem ser repaginadas,
modificadas, atualizadas: questão de 7 reais
a página. Agora, os trabalhos tipo mestrado
e doutorado são mais caros. Isso é
pontual. O preço é variado, conforme
conteúdo, extensão, complexidade,
originalidade e prazo de entrega ou pagamento. Nesses
os “digitadores” operam a nível
de depósitos em conta bancária, ou
através de boletos e cartão de crédito.
A questão das pesquisas originais, elaboradas
por especialistas e sem clone na praça, podem
vir acompanhadas do “certificado Google-free”.
A nível de garantia, tá entendendo?
Hoje, está ficando difícil dos avaliadores
identificarem encomendas sob medida. Uma uva!
–
Caraca, Lu, você está meio que me surpreendendo.
Como saca tudo isso?
–
Sei lá, cara. Faz tempo que eu me safo dessa
questão de redigir qualquer trabalho escolar.
Mas tem uma regrinha alfa, aleph: Cuidado com os
professores assim meio que espertos, Pi. Exija que
o “digitador” saia do script da internet,
que não entregue facilmente os mecanismos
de busca, que refaça os trabalhos antigos
e prontos. Tipo já apresentados nas universidades
da região. Tá entendendo?
–
Questão pontual. E ponto. Daqui a pouco vou
estar ligando pro cara responsável e estar
modificando o valor da página, tipo assim
para 7 reais, ok?
–
Pi, meu pai conta que, décadas atrás,
professores de Metodologia de pesquisa
deixavam as turmas meio que de cabelo em pé.
Era a mesma ladainha que a gente escuta desde o
Básico. Cheia de regrinhas da ABNT. Haja
saco!
Graças
a Deus, hoje, na verdade, não precisa mais
se ralar tanto, Pi. É só abrir o site
certo. Tá lá toda informação
na exigência das normas técnicas e
científicas. Cola da Web. Trabalhos prontos
e grátis. Revisados. Entre aqui. Faça
cursos on-line. Educar para crescer. Clique aqui.
Você sabe. Ou então é só
a gente pagar um bom portal de trabalhos prontos,
como já disse antes, e entregar o filezinho
a nível de avaliação. E preocupação
já era. Tem que ter discernimento. Tem que
ter atitude. Bora para balada hoje à noite,
colega.
–
Na verdade, isso é que é investir
em educação, Lu. Eu estou chegando
lá, se Deus quiser. Bizarro, não?
–
Mas não se esqueça de ler, estudar
meio que direitinho e sem preguiça o que
você comprou, para não ser pega na
farsa “pagueepasse net”. Vem com tudo,
amiga.
–
Não se preocupe, Lu. Quando o “digitador”,
me entregar a monografia, vou estar fazendo uma
cópia, antes de estar deixando a original
na secretaria. E vou estar lendo tudo com atenção.
Só quero me formar, Lu. Estar pegando o diploma
para estar assumindo o cargo de diretora executiva
de uma organização oficial. E estar
evitando comentários maldosos. Invejosos.
Tipo assim “Ela tem QI”. Tá entendendo?
* * *
–
Senhor Ni Mamatas, aqui é a Pi. Seu moto-boy
me entregou, nesse final de semana, a pesquisa encomendada
no mês passado. Dei uma olhada nela toda.
Nunca fui aluna brilhante. Gostaria que fosse feita
uma revisão completa, dando uma piorada no
“meu” trabalho, baixando um pouco o
nível do conteúdo, tipo assim tornando
ele menos complexo e com frases e períodos
mais curtos. Tá entendendo?
–
Se tô!
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