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:          Literatura Brasileira em Goiás

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Síntese da autora
no dia do lançamento – 20 de junho de 2000.

Maíra, de Darcy Ribeiro (1976)

            É uma narrativa-missa com o nome de um deus da tribo, Aldeia Mairum, fictícia, circular, nas últimas terras da Amazônia.
            Darcy Ribeiro dividiu o romance Maíra em quatro partes: Antífona, Homilia, Cânon e Corpus. Partiu do modelo litúrgico da missa (e dos cultos evangélicos) e fez deslocamento e inversões do sentido original, exigindo nova interpretação para o sacrifício. O autor subverteu textos bíblicos e latinos do ritual antigo, dessacralizou e ridicularizou o “mistério” – para evidenciá-lo na pessoa do índio, eucaristiado pela catequese e pela ganância dos poderosos.
            Também eu dividi este estudo em quatro partes, com os mesmos títulos, a fim de mostrar a barbárie do branco ou civilizado contra os mairuns eucaristiados – isto feito em discurso intertextual, parodístico, costurando textos de Maíra com os da Bíblia, ou com boletins dominicais distribuídos pela Igreja Católica ou pelas igrejas evangélicas. As quatro partes mencionadas são as seguintes:
            1ª) Antífona – onde abordei o canto dos mortos: A mal-aventurada-sururuqueira Alma, cuja voz Antimagnificat foi respondida pelo canto do bem-aventurado-chefe Anacã. Posteriormente seguido pelo canto dos profetas, como Isaías, dos pajés-sacacas da Missão Católica e de Xisto da Missão Protestante. Finalizei a Antífona com o canto do poder de Juca e do Senador Andorinha.
            2ª) Homilia – Aqui temos a liturgia da palavra, a partir do texto sagrado Mairahu, o Gênesis da tribo mairum, tudo criado pelo Sem-Nome que sabia ser o mundo muito ruim, mas dava risadas e maltratava suas criaturas com um aguaceiro medonho. Há também o salmo do “messias sofredor” (Isaías) e o Apocalipse na segunda leitura, onde João de Deus, na boca de Xisto, prega sobre o Armagedom, com anjos-sargentos, urubus-rei, juízo final, besta-fera, Cristo-cordeiro, enxofre e trono branco. E os índios atrás da terra sem males, isto é, terra sem brancos.
            3ª) Rito sacramental, o Cânon – os mairuns são possuídos por Maíra; o Cânon tem o sentido de regra de fé da Igreja, regra da verdade cristã, como: Cânone das Escrituras, dos santos e da missa – as cerimônias a serem seguidas no sacrifício. O Cânon aqui emerge das entranhas de Avá.
Em Maíra, temos: a) Os ritos de retorno ou de chegada: Isaías/Alma, a Mosaingar que pariria gêmeos e que frustrou a tribo, pois nasceram mortos. b) O rito do lava-mão de Pilatos, a purificação da Igreja: A soda do convento lavando tudo; Xisto cortando a língua de Perpetinha para salvar sua alma.
            4ª) Ritos finais, o Corpus – o que restou do impacto da civilização sobre a Aldeia Mairum; a população indígena restante, sobrevivente ao avanço predatório dos que se dizem civilizados; o corpo mítico, as sementes do espírito, o indez. Penso que o ovo de Deus vai gerar, porque o romance Maíra termina em língua supostamente mairum.
            Antes, porém os padres Vecchio (=Velho) e Aquino (= São Tomaz de Aquino) cantam um quírie e um réquiem, como pedido de desculpas ou de perdão e entoam um oficio os mortos pelos quarenta anos de catequese e pelos escândalos da Missão, tendo apenas êxito material e muitas terras.


Ite, missa est.
Ercilia Macedo-Eckel


 


 

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