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Saturday

Cronos revisitado

 

  Ercília Macedo-Eckel
Para Isabella Oliveira – SP
In memoriam

          Quem poderá imobilizar-me, acorrentar-me? Sou aquele deus bárbaro, canibalesco – confundido com o Tempo – que gera e devora criancinhas, desde a Antiguidade. E até hoje, em apenas treze minutos, posso metamorfosear-me em cavalo e nele atingir o cimo do Olimpo, praticar atos bestiais impensáveis e apontar as nuvens como culpadas: São elas, as nuvens negras cavalgadas por um Baal multifacetado.
          Muitos me chamam de Saturno. Meu dia é sábado. E minha hora preferida é por volta de quase meia-noite. Entre 23:36 h e 23:49 h para domingo. Porque a Noite é filha do Caos. Estado primevo, rudimentar do mundo e dos seres. Por vezes essa Noite se cobre com um manto azul, semeado de estrelinhas para ser surpreendida por monstros, como o Sono e a Morte, seus próprios filhos.
          Sou um Cronos moderno, controlado por satélite, porém mantenho as características das divindades primitivas. Tais como: a frieza – pois sou o formador do gelo universal não atingido pelo aquecimento da terra e nem pelo clamor das massas; canibalismo – pois sou um deus bárbaro, que devora criancinhas, inclusive minha Primogênita – única filha mulher eu comi, com a ajuda de Fílira; inércia e automatismo – pois sou propenso a cristalizar-me, a fixar-me automaticamente na mesmice, opondo-me a qualquer mudança. Minha luz é triste e fraca, porém minha cabeça continua erguida. Bem erguida e fincada no alto pescoço, como a de um deus triunfante, ou como a cabeça de um soberano que rege o Tempo com uma foicinha na mão.
          Poucos elegeriam o treze para número de sorte, como o fizera Zagalo, o PT – ou Ulisses (“Ninguém”), o 13º do grupo, que se salvou do apetite devorador de Ciclope Polífemo, gigante com um olho só no meio da testa. Porém desde a Antiguidade, o número treze pertence ao mundo subterrâneo, de mau agouro: Satã era a 13ª figura nos ritos da bruxas; no tarô a 13ª carta do arcano superior é a Morte ou o fim de um ciclo; na última ceia com Cristo, Judas seria a 13ª pessoa ali presente; em Apocalipse 13, temos o Anticristo e a Besta.
          E hoje, nas alturas do rochedo, em apenas treze minutos, todos os aspectos da devoração noturna, do embuste e da dissimulação foram encetados sob os gritos ensurdecedores de Fílira, mãe de Quíron – o Centauro bom e benfazejo. Entretanto, como todo Centauro, este também gosta de lugares altos, montanhosos. Alimenta-se de carne crua, mas não nutre costumes selvagens e bestiais, como seus congêneres – embora isto não o impeça de ter recaídas ancestrais e comece a morder a irmãzinha Primogênita, sem dó nem piedade, lambendo os beiços ao final. Esporadicamente.
          Deveria ter dito em parágrafo anterior que Cronos, devido ao ciúme de Réia, sua esposa-irmã, decidiu metamorfosear-se em cavalo, ao se apaixonar por Fílira. Em conseqüência disso nasceu Quíron, um ser híbrido: metade homem, metade cavalo.
          Convém lembrar ainda que nas divindades mais recentes os pais, os esposos, esposas e filhos costumam ter nomes idênticos. Assim um Cronos moderno poderia possuir mulheres e namoradas com nomes iguais e suas esposas e amantes poderiam ter pais, maridos ou sogros também com os mesmos nomes. Daí talvez a necessidade de uma metamorfose passageira, conforme os objetivos do metamorfoseado – nesse caso – à busca de uma intimidade, de uma real individualização: Porque meu nome sou eu, não uma sombra do outro ou da outra. Fílira, por exemplo, carrega em si o lado escuro e animalesco de Cronos, do qual não consegue se separar. Suas palavras, gestos, choro e atos incontrolados a traem. Porém ela nega esse lado obscuro, não reconhece que é apenas uma sombra, caso contrário teria que assumir sua primitividade.
          Cronos, esse deus do tempo, também chamado de Saturno, não é um ancião barbudo que ergue nos braços uma figura feminina de criança em movimento circulares como fazem os ponteiros do relógio. Horas, minutos, segundos. Não! É um Cronos novo, escatológico, frio e seco de sentimentos, que traz numa das mãos a foicinha cortante e mortífera e, juntamente com ela, toda sorte de violência e agressividade de nosso tempo. O Tempo tem fome de vida e de poder. Ele ostenta no peito um véu quadriculado aberto para a Morte e de segredos impenetráveis. No estômago percebe de repente uma indigestão incontida, causada talvez pelo bálsamo de nardo-do-monte com que seu filho caçula Zeus-Júpter o ungira ainda há pouco.
          Treze minutos: entre 23:36 h e 23:49 h, de sábado para domingo. Finalmente Primogênita alçou um vôo, partindo da boca de Cronos-Saturno, numa verticalidade tão absurda e descendente que o baque do vômito na relva assustou até o próprio Tempo. E, se o meio-dia é a hora sem sombra, que diremos da meia-noite sem lua?
          Então houve trevas nos quatro cantos da Terra. O véu da Noite se rasgou em dois, de alto a baixo, como no momento da morte de Cristo. Tremeram as cidades, fenderam-se os edifícios, até na China. Abriram-se os sepulcros e muitas crianças sacrificadas há milênios começaram a gritar por Justiça. Então foi se formando uma enorme multidão em torno do acontecido. Para uns consternação e revolta, para outros mais um espetáculo a ser contemplado de perto ou de longe – talvez até com sorriso ou abano de mão dos imbecis.
          Cronos-Saturno foi acorrentado no Tártaro juntamente com sua esposa e cúmplice Fílira, mas se declaram inocentes da acusação de canibalismo infantil. Percebemos que os corredores desse mundo subterrâneo procria vários outros monstros, porém nenhum deles aceita a presença do casal ali. Até o Senhor da meia-noite, o rei dos Infernos chamado Hades – um dos vários filhos engolidos e vomitados por Cronos – não aceita o par recém-chegado em seu reino de trevas interiores.
          Mas o deus do Tempo pressupõe: Acho que vou sair dessa. Quem poderá acorrentar-me a mim e a Fílira? Nossos defensores trarão de terras áridas, sábios e embusteiros empunhando o código de Hamurábi para melhor argumentar nossa inocência. Apesar da Pena de Talião: olho por olho... ali contida. Um perigo!
          Tal acontecimento marca para todos nós uma ruptura de conduta, um novo começo, a partir de longa reflexão sobre a família das divindades e sobre o Caos a que nos submetemos diariamente – e desde o vazio primordial.



Ercília Macedo-Eckel é membro da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, sócia da União Brasileira de Escritores – GO e da Academia Petropolitana de Letras – RJ. Mestra em Letras pela UFG.


 

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