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:          Literatura Brasileira em Goiás

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Rosarita Fleury
Elos da mesma corrente – 50 anos.

 


 

 
Ercília Macedo- Eckel
 

Ercília Macedo-Eckel
Texto apresentado na AFLAG
em 25 de junho de 2009.

 

          Tenho aqui, em minhas mãos, a 2ª edição de Elos da mesma corrente, Prêmio “Júlia Lopes de Almeida”, 1959, da Academia Brasileira de Letras. Edição essa de 1965. A primeira é 1958, pela Oficina Gráfica da “Goiás” (Estrada de Ferro Goiás).
          Elos da mesma corrente é uma longa amarra narrativa, unindo (ou desunindo) famílias em Goiás. Há muitas falas ornadas com inteligentes adjetivos projetando nosso estado em seu bicentenário, e mais aproximadamente 20 anos de existência, para a literatura de todo o Brasil. Elos da mesma corrente. Essa obra está em nossa memória e em nosso coração, com cenários e acontecimentos alicerçados na vida real, com roupagem de ficção, cujas personagens são fortes, de carne e osso, inesquecíveis. É um verdadeiro documentário sociológico e geopolítico de Goiás, no final do século XIX (1886-1899). Retrata nossos usos, costumes, indumentária, culinária, religiosidade e linguajar, tanto na zona rural quanto na velha Capital. Há nesse romance sinais de predomínio da cultura francesa nas famílias mais abastadas, de elos mais fortes. Há também espectros de escravas mexeriqueiras, pretas-velhas carinhosas, carregadeiras d’água dos chafarizes. Ai que saudade das sais de godê duplo e cinturinha de tanajura. Roupas engomadas, festas no Palácio Conde dos Arcos e no velho Lyceu. Meu Deus! Casamentos até que a morte os separe, a ferro e fogo? Não! Disso não tenho saudade não.
          Rosarita, deveríamos mesmo prestar-lhe esta homenagem no decorrer dos eventos juninos, pois você poetou um 12 de junho para Santo Antônio e, depois, um São João, em 1940, esse lhe valera o Prêmio da Academia Goiana de Letras. Aliás deveríamos homenageá-la em qualquer data pelos poemas, romances e biografia publicados. Bem como por sua posição firme, irônica, mas sem alarde contra a mulher submissa e indefesa, numa época em que a mulher não deveria discordar nem em pensamento do pai, do irmão mais velho ou do marido. Aliás: Você já viu alguma mulher pensar, Teodora? Ou: Vá treinando a arte de ceder, Carolina. Depois de casadas, nós, mulheres, somos obrigadas a ceder, sempre, para nossos maridos e ter muito cuidado para não ver o nome da família enlameado. Muié tem qui guentá muito! Diz uma negra da casa. Até a faceirice das escravas protegidas dos doutores ou dos coronéis fazendeiros. Não dão teto e comida às esposas? Que bordem, costurem, cirzam, rezem e toquem piano de vez em quando. Quem sabe, talvez: Tão longe... de mim distante onde irá, onde irá teu pensamento ... Ou, quem sabe, façam sinhazinhas e senhoras, passeios, viagens ao Rio de Janeiro, à Corte do Império agonizante, e voltem melhoradas. Corrente não só aprisiona e escraviza. É também sinal de dignidade, de estarem engastadas no nome das tribos e das famílias para o peitoral do tempo. E nesse peitoral exibir status oficial e social de um Goiás provinciano que ainda desconhecia o automóvel, a luz elétrica, a água encanada, o telefone.
          As palavras da autora Rosarita nesse romance são elos de ouro, ligando o baixo (pobre, subalterno) e o alto (rico, poderoso), a terra e o céu, como aludira Platão à corrente luminosa que conserva firme o universo. A obra prende o leitor com a corrente de informações sociológicas cujos elos são consequência das famílias, dos casamentos, da integração com as comunidades rural e urbana de nosso estado. Ligadas ao preconceito e ao medo da má fama, muitas personagens lutam acorrentadas umas as outras.
          O calendário, a folhinha, o relógio, o tempo e o espelho. Meu Deus, quando deixarei de ser senhorita, filha de Fulano de tal, para ser senhora Fulano de tal, de situação definida? Ser uma Madame, conforme o francês da moda? Ah, se a gente pudesse mandar no tempo, não é, Rosarita?
          Porém as notícias do Rio ou da Corte vinham lentas, durante dias e até meses, nos lombos dos burros até esse Goiás de final do século XIX. Finalmente saíra a abolição da escravatura e os jornais e as cartas traziam essa novidade, há muito esperada: os negros agora são livres, donos de seus próprios narizes. Não serão de agora em diante humilhados, nem chicoteados. Será? Sinhás e sinhazinhas terão problemas, pois só podem sair acompanhadas de marido, pais, irmãos, filhos, ou de uma preta qualquer. Os homens dizem estar ocupados ou viajando e os negros estão indo embora. Que fazer, se precisamos ir às compras e gostamos de bailes e festas? Ah! Lancemos a moda de andar sozinha: missas, visitas, dentista... Mas como? Se a família é uma corrente? Quem será o elo fraco, de falsidade, conversinhas, desaforo, ofensas, traições, ingratidão? Quem será a vítima do olhar pelas frestas e do falatório por detrás? Morreu uma noiva, um marido? Vamos saber o número das lágrimas que o enlutado derramou. Se derramou. Salve Rainha Mãe de misericórdia. Morreu foi de tísica? Quem vai pegar a alça do caixão? Bendita sois vós, entre as mulheres. O caixão deve estar leve. Amém.
          Mais uma vez o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, demorou mas chegou volumoso. A manchete: dia 13 será o fim do mundo. 13 de novembro de 1899. Outros jornais chegaram e a mesma notícia, de mais de um mês! A folhinha marcava dia 10... lua cheia a 12... Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo à sombra do Onipotente descansará. Ventania, raios e tempestade no dia do eclipse. Os jornais só falavam na coisa que viria no final do século para acabar com o mundo. Elos da mesma corrente do Rio de Janeiro a Goiás se arrebentavam fragilizados, por volta das três horas da tarde, na data prevista. Muitos cardíacos morreram apavorados. Porém se refazem nesse relato, com novos elos para nova e continuada corrente de parentesco ou de amigos.
          Tramelão girando na porta. Tampo da janela se fechando. Aqui é meu lugar. E aqui hei de morrer. Mas não quero que a corrente chegue lá em cima despedaçada, hem?
          Rosarita, estamos cuidando, fazendo e refazendo as devidas conexões e nos lembrando de que cinquenta é numero de alegria, de colheita e comemoração dos elos dessa corrente.



Ercília Macedo-Eckel é membro da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, sócia da União Brasileira de Escritores – GO e da Academia Petropolitana de Letras – RJ. Mestra em Letras pela UFG.


 

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