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Eu nasci há dez mil anos
Para Raul Seixas, por ocasião de
seu 12º aniversário de morte.
Ercília Macedo-Eckel
Eu vi o
homem polir a pedra na construção do mundo e do
Templo. E vi o homem acender o primeiro fogo sagrado
e o fogo da paixão. E vi o homem e outros seres
ganharem nome. E vi a confusão das línguas na Torre
de Babel e vi a restauração do entendimento e a
união da sociedade nas línguas de fogo do Pentecostes.
Vi Abraão com uma tocha acesa, quando ia oferecer
Isaque, seu único filho, em holocausto. Sei demais!
Eu vi Moisés receber as tábuas
de pedra no Monte Sinai e comandar o êxodo. Carpinteiro
do universo. Eu estava lá na fundação dos séculos.
Carreguei um candelabro de sete braços e um vaso
egípcio. E vi que importante é libertar o povo da
escravidão. Inclusive dos vícios. Sei demais!
Eu vi Nabucodonosor pastar junto
com meu cavalo e assisti à queda de Babilônia, no
flagelo da sétima taça pancreática, diabética —
e no veneno da indignação divina. Vi Salomão construir
o Templo de Jerusalém, cantando os salmos 72 e 127.
E vi Zaratustra nascer dando risadas no Irã e viver
no deserto alimentando-se de queijo. Silêncio mineiro.
Para dar aulas aos magos sobre a luta eterna entre
o bem e o mal.
Agora eu sei que nada sei,
ó Sócrates, ó filósofos gregos! Mas... vi Alexandre
Magno dizer, como em qualquer plano imperialista:
Nada mudou exceto o nome do rei. E a falange
continuou e continua dando Ibope, sustentando vantagem
no Vox Populi e no painel da vergonha e da corrupção
até de juízes...
Acho que sei de menos. Melhor dar
comida aos macacos e afastar os maus espíritos que
morcegam na bancada. Caverna do mundo animal. Quebrei
a perna. Rapunzel foi substituída pela Bruxa que
me soltou das alturas, porém as lágrimas da jovem
senhora, reencontrada no tribunal do deserto, haverão
de me fazer enxergar as falcatruas da Corte.
Eu vi os senadores romanos ficarem
mais ricos e dois Gracos serem mortos porque defendiam
a plebe que se tornava cada dia mais pobre. Mas
vi Júlio César dividir as terras entre os sem. Com
s. Entre aqueles que não ultrapassaram os limites
do alheio e do bom senso. E nem promoviam badernas.
Eu vi Hégira: Maomé fugindo para
Medina. E vi Nero partir sua própria mãe para saber
de onde ele, o artista, havia nascido. Vi-o
também matar sua segunda esposa com um chute na
barriga. Monstro de crueldade. Incendiador de Roma.
Inimigo político. Você conhece algum Nero moderno?
Faça o que quiser. É tudo da lei! E, se você der
uma gorjeta, o documento sai hoje mesmo. É Vapt
Vupt. Vê se te orienta. É tudo da lei, pode crer.
Eu vi Judas vender Jesus e Pedro
nega-lo três vezes, de costas para o espelho de
sua consciência. Vi Joana D’Arc ser presa por soldados
ingleses e ser queimada viva pela inquisição. Demolidor
solitário, eu estava lá.
Eu vi Zumbi, o rebelde, refugiar-se
em Palmares, no cerco de uma Tróia Negra.
Pássaro preto zumbizando pelos ares.
Eu ouvi Hitler dizendo: As massas
são como as mulheres que se submetem ao homem dominador.
E os judeus são a causa de todas as desgraças da
humanidade. Eu vi a desvalorização da moeda, a corrupção,
o desemprego e o povo traído e humilhado. Foi nesse
cenário que minha luta nazista (dele) tornou-se
líder (Führer) de toda a limpeza étnica e
olho totalitário sobre o mundo.
Apesar de tudo isso, ainda pude
sonhar. Eu sonhei com a Cidade das Estrelas, em
Belo Horizonte. Não com a guerra chifrando as estrelas
de Deus.
Já dancei ciranda. Cirandei com
vodca e uísque. Homem por dentro, mulher por fora.
Mais uma vez. Olhe a chuva! Olhe o tamanho da cobra!
Meia volta. Tente outra vez ... Metamorfose ambulante.
Minha sabedoria é mutável. Isolada dos outros mortais,
cirandando.
Demolidor solitário. Já sofri todas
as chagas, pragas e pestes que oprimem a humanidade
desde a fundação dos séculos:
As rãs subiram em mim e saltaram
nas cordas de meu rock, de minha lira. Os piolhos
tomaram conta de minha cabeça e engordam nas costas
de meu gado. As moscas caíram em minha sopa e zumbizaram
na tumba e no colar de faraó. As cinzas das árvores
transformaram-se em sarna nuclear, ulcerando o mundo.
Os leitos dos rios ergueram-se em dunas, jogando
para os ares areia em brasa. Chuvas de pedra e de
fogo ferem a terra e seus habitantes. Muitos ainda
correm na contramão em Corcel 73. Agora um terremoto
parte as rochas, fende os morros da cidade e esta
se afoga na lama. Eu ganho salário mínimo e não
posso ficar aqui parado esperando a morte chegar.
Eu sou o medo azul com óculos escuros. Em que esquina
a morte vai me pegar? Você tem colírio para ungir
meus olhos contra a incompreensão do mundo e contra
a escuridão interior? Gafanhotos chegam com o vento
e invadem minha casa. Comem os sobreviventes da
saraivada, das bombas de fogo, da violência. Devoram
o verde restante, os frutos do cerrado, os fora-da-lei.
Um eclipse total cobre a terra de trevas. Eu sou
a luz que se apaga, a seca, a fome, a impotência,
o nada. Eu sou a dona de casa, a mãe, que arranca
a última semente da boca do tubarão.
Cachorro-urubu. Qual será a forma
de minha morte? Ó morte, ponha uma roupa bem bonita,
quando vier me buscar, hein? O preço do horror vai
subir. Expresso dois-dois. Juros, dólar e tarifas
comem a paisagem em alta velocidade. Furo no imposto
de renda, no INSS/ Previdência. Bancada do pó, da
motosserra, do boi, da bola, da construção, dos
canais de tevê. Da miséria: www.gramposfraude.com.br.
Panela vazia? A panela do diabo começa a cozinhar
pequineses e dobermans do sistema. Mas no final
o bandido se casa com o mocinho e o best seller
vai para a milésima edição. Minha sabedoria é brevíssima:
A maioria é malvada.
Maluco beleza. Habito sozinho as
cavernas medievais e cavalgo com capa negra sobre
todas as dinastias. Amargo. Raso. Largo. Profundo.
Metamorfose ambulante. Também estava
lá. Vou demolindo a forma, sem aniquilar o fundamento
das idéias. Pois tudo se transforma em tudo e nada
é realmente nada na roda do sol.
Máscara. Eu me mascaro de outra
coisa para continuar sendo. Barba longa. Óculos
escuros. Nem mistério, nem vergonha. Apenas o caráter
mágico de um rosto que, se diferente, não convenceria
ninguém. Como em Caieiras, São Paulo, quando tive
que provar identidade para ser liberado. Agora,
eu nem sei quem sou: nada sei.
Porém vi muitos heróis morrerem
jovens no festival do sacrifício (ou no desejo próprio
de destruição): Cristo, Tristão, Tiradentes, Elvis
Presley, Hugo de Carvalho Ramos, Chico Mendes, Ayrton
Senna e muitos outros ... A cruz, a poção do amor,
a forca na praça, a droga, o suicídio na rede, a
emboscada, o acidente fatal... Olhe o assalto, olhe
a pane, olhe o carro, olhe o pânico, olhe a moto,
olhe a bala perdida, olhe o apagão... Dos outros,
das coisas e do sistema tenho duvidas. Raciocino
em várias direções. Tenho medo.
Ói o trem, já vem fumegando. Ih!
Lá vem Deus. Extra. Extra e brasileiro! Juízo Final.
E o mal de abraços com o bem. Bandido e mocinho
num romance astral. Porém o anjo do apocalipse toca
a sua trombeta e me desperta com a luz das sete
virtudes. Teria eu opinião formada sobre tudo?
Na minha peregrinação para o centro,
em 48 quilos de rock mosqueteiro, com ou sem motivo,
finalmente voltei à raiz. E vi o fim chamando o
princípio para um encontro no meio, no centro dos
centros. Vazio solidificado no repouso e no silêncio.
No eixo de Deus.
Se me chamarem, diga que morri.
No dia em que a Terra parou. Estrela que se apagou.
Amargo. Raso. Largo. Profundo.
Mas minhas mãos-70 e botas-de-cano-alto
emergem do pó, do chão e ganham espaço prontas para
agirem. Eu recomeço, sacudindo as trevas, o caos,
o nada. Porque a morte é fonte de vida, de ressurreição,
de tudo. O corpo é como uma semente, uma esperança
brotando da cova e atravessando sete esferas para
libertar-se e irradiar todas as criações e crescimentos
por sobre esta vasta árvore da terra, sempre orvalhada
com a imortalidade da árvore do céu.
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