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:          Literatura Brasileira em Goiás

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Carta de Pero Vaz

Olhando do mar, Excelência, nesta terra não há mais a exuberante Mata Atlântica. Os arvoredos encolheram. Os animais, pássaros e frutos silvestres minguaram. 

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Raul Seixas

Maluco beleza. Habito sozinho as cavernas medievais e cavalgo com capa negra sobre todas as dinastias. Amargo. Raso. Largo. Profundo. 

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Poema de natal

Não temais: notícias de alegria 
consolidar-se-ão em Jerusalém, no Iraque, Paquistão,
na Nigéria, Chechênia, no Sudão...
e perpetuar-se-ão até à Baixada Fluminense
e em todo Brasil.

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Prenunciação

Menina! minha filha
(filha de qualquer brasileiro)
aonde vais assim
rindo de amor
olhar tão brejeiro
blusa na cor da moda
vermelha – cochonilha
a calça jeans
e o celular na mão
fazendo trintrim?

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QUARTA
DIMENSÃO

O TEMPO DA PALAVRA E OUTROS
TEMPOS

 

 

 

Poemas

Cada livro é a marca ou o
signo de um outro.
  Danièle Chauvin

 


Ercília Macedo-Eckel

 

 

 

 

QUARTA
DIMENSÃO

O TEMPO DA PALAVRA E OUTROS
TEMPOS

 

 

1ª edição

 

 

 

Goiânia
Kelps, 2005


Copyright © 2005 by Ercília Macedo-Eckel

Concepção e esboço da capa

Ercília Macedo-Eckel

Quadrado.Figura humana e do quadrado, de uma taça:

Bergen, Noruega, século IX [O quadrado central].

Arte Final da Capa:

Bia Barros

Digitação

Susany Lourenço Silva

Diagramação:

Bia Barros

CIP. Brasil. Catalogação - na - fonte

BIBLIOTECA MUNICIPAL MARIETTA TELLES MACHADO

Todos os direitos reservados, sem permissão por escrito da Autora. Conforme Lei nº 9610/98, artigo 184 do Código Penal.

IMPRESSO NO BRASIL

Printed in Brazil

2005

M119q Macedo-Eckel, Ercília

Quarta dimensão: O tempo da palavra e outros tempos./ Ercília

Macedo-Eckel. - Goiânia: Kelps, 2005

136p.

1. Literatura Brasileira - Poesia. I. Título.

2005-17 CDU: 821.134.3 (81)-1


Para Dolcy Caiado de Castro __ minha ex-professora de Matemática (!) no velho Liceu da Cidade de Goiás __ que me iniciou na arte de declamar poemas em grandes festas naquele Salão Nobre.

In memoriam.

Para o Grupo Kadóz de Poesia, na pessoa de Miguel Jorge.


 
Sumário
 
Prefácio: Do tempo com poesia
Heloísa Helena de Campos Borges
11
 
1ª Parte
Gênesis revisitado
19
Poeta
23
Meditação sobre Pirapora
24
Intertextualidade
25
Tempestades de verão
26
Cantiga de temporada
29
A uróboro
31
 
2ª Parte
Bodas
35
Florálias
36
Devaneio
37
A dança das rosas
37
Haicai
38
Viagem
38
Poema cromático
39
Linhas lúdicas
40
A mulher e a estrela
42
Desobriga poética
45
Prenunciação
45
Ser filho
46
Cantiga de amigo
47
Ode à Ada
50
Um Tiago canto
52
 
3ª Parte
Sonho
61
Nel mezzo del cammim
62
Ritual do beijo quíntuplo
63
A rosa de Goiânia
64
Palma dos mártires
66
Reencontro casual
68
Do outro lado da náusea
69
Dança dos sentidos
73
Como é tua casa?
74
Desvendamento
75
Coisa nossa
78
Antropovisão
80
Cavalgada com desvio
81
Balada do barato
83
Poema de natal
85
 
4ª Parte
Labirinto improdutivo – MSP
91
Canto e reza dos agricultores
92
Reza profanada
98
Curral
99
Nonagenária
100
Maníaco por xadrez
102
Em busca da palavra
103
A mulher e o rato
104
Luz indireta
105
Imagem de fim
106
A chave do abismo
107
A mulher-aranha
110
A tetraktys
112
 
Apêndice
Estiagem
117
Gavião
118
Verde-limo
119
Círios e velas
120
Penitência
121
Argonautas
121
Luar de maio
124
Dunas
124
Cantos
125
A poeta e as górgonas
127
Estações
127
Contratempo
130
Aragem 130
Ufanismo 131
Olhos como entrada 132
Alfa 133
Ascensão e retorno 133
   
 

 
   
PREFÁCIO


Do tempo com poesia

Heloisa Helena de Campos Borges*

           Quarta dimensão — o tempo da palavra e outros tempos_ é o nome do livro de poemas de Ercília Macedo-Eckel. E diga-se, título esse, nada simples.
           Para bem compreendê-lo, desdobrei-o por partes. Primeiro, indagando das possibilidades da palavra dimensão. Em seguida, do sentido da classificação.
           A palavra dimensão origina-se do latim dimensio, de metiri: medir. Consta nos dicionários como grandeza real, que determina a porção de espaço ocupada por um corpo. Também, grandeza mensurável conforme uma direção ou em relação às outras dimensões. E ainda, eixo de significação de sentidos figurados, onde coincidem dimensões, aparentemente distanciadas e opostas, tais como as dimensões do concreto e do simbólico, da sensualidade e do mito.
           Segundo a Teoria da Relatividade, um ramo da Física Moderna, a quarta é a dimensão do tempo, ou melhor, do espaço-tempo. Nessa dimensão, conceitos antes admitidos

 
 

como absolutos tornam-se variáveis e os fenômenos, que nela têm lugar, são considerados o resultado de uma teia de relações, que inclui, além do tempo e do espaço, também o referencial observador, provando que a relatividade no tempo está associada a uma relatividade no espaço.

           Este suporte de explicações autoriza-me dizer que Quarta dimensão_ o tempo da palavra e outros tempos é um livro de relações. Relação da autora com outros autores, da autora com os leitores, da autora como leitora de ontem, de hoje.

           Sendo um lugar, onde há o cruzamento de escrituras poéticas, esse livro é também um momento de reciprocidade, quando versos de ontem ecoam nos versos de hoje para entoar o seu canto, que não é um canto solitário, pois acontecendo em quarta dimensão.

           No âmbito dos estudos literários, esta polifonia chama-se intertextualidade.

           Portanto, bastante acertado é o pensamento de Danièle Chauvin, que se encontra nas primeiras páginas:

           "Cada livro é a marca ou o signo de um outro".

           Quarta dimensão possui quatro partes. Cada qual com sua respectiva epígrafe, que aponta, um de cada vez, os elementos básicos responsáveis pela explosão da Vida: água; ar; fogo e terra. Esses elementos transparecem nos versos, por meio de um poético processo alquímico, que causa a transmutação. O resultado disso nas palavras: uma adequada e expressiva manifestação do que se deseja externar.


           Sem fugir do diálogo textual, característica maior do livro, acontece igualmente um interessante diálogo imagético entre epígrafes e poemas. Assim, quando a citação fala de líquidos, a palavra poética também se liquefaz:
  Eu sou ninguém
se sou mudo
mas se sou palavra
sou caudaloso
abro-me em fontes
(...)
não minto ao fingir no peito
a fluidez do rio
que realmente sinto.;

           quando é o fogo o elemento norteador, as palavras se vestem de sensualidade e paixão, como é o caso do soneto Sonho, do qual apresento apenas a primeira estrofe:
  No balanço da rede e quase nua
Senti teu vulto de mim se abeirando
Está calor, meu bem...foste deitando.
Nas mãos uma flor, nos olhos a lua.
(...) ;

           ao ressaltar o ar, o poema cria asas:
  Sigo a lei dos pássaros:
seu movimento e repouso
são danças de mim.;

 


           e quando se liga à terra, as palavras chegam a se apresentar com `textura' concreta, como é o caso do poema visual Labirinto improdutivo _ MSP (Movimento Sem Poema), cujo título nos provoca a ler MST, ao invés de MSP.

           Do título ilusionista e ambíguo aos labirínticos e irônicos versos que se repetem, e se repetem, emaranhados, tudo se expressa sem saída, como, sem saída, também parece a solução dos problemas dos homens, sejam lá eles questões relacionadas à terra ou ao fazer poético.

           Portanto, as epígrafes são bússola e âncora. Bússola para a poetisa quando agrupa e direciona os seus cantos e âncora para que o leitor possa se acomodar no universo da leitura.

           Ercília costura o seu canto a outros cantares, muitas das vezes em procedimento claramente anunciado, como, dentre vários, é o caso do poema Meditação sobre Pirapora, dedicado a Mário de Andrade, que um dia também escrevera a sua própria Meditação sobre o Tietê ou a Tiago de Melo Um Tiago canto de quem repete parte de um dos seus versos mais conhecidos: Faz escuro, mas eu canto.

           Mas, às vezes, é o formato que se torna instrumento da permuta estética, como acontece no poema Intertextualidade:

  Diria o poeta de Itabira:
Jorge de Lima
que bebeu Invenção de Orfeu (...)
que bebeu Eneida de Virgílio
que bebeu Odisséia de Homero(...)
que bebeu nos primeiros tempos
da história grega
que bebeu no espaço altamente criador
desta ciranda cósmica
que se fecha em si mesma
na viagem para o centro
que não bebe de ninguém.

 


           São, pois, esses, versos que o leitor espontaneamente encaixa em Quadrilha, poema de Carlos Drummond de Andrade, já considerado como um clássico e lúdico molde da poesia brasileira, por meio do qual são demonstradas voltas e meias-voltas desta imprevisível ciranda, que é viver.

           Mas, falta-me ainda ressaltar a dimensão dos versos de Quarta dimensão, como eixo de significação de sentidos figurados.

           Nessa grandeza, a convivência da linguagem e do sentimento é tão estreita, que as palavras se fantasiam sensivelmente de modo a incluir mais e mais possibilidades no contexto da sua leitura. Excelente exemplo é o poema Ritual do beijo quíntuplo.

           Uma observação: o número cinco, segundo explicação cabalística, é formado de quatro pela adição de UM, que é o princípio da vida, o espírito, biblicamente anunciado pela poetisa, nos três últimos versos do poema:
  Beijo-te os pés/ cansados/ que de tanta interjeição/caminharam e te trouxeram até/
estas portas que te amarão./
Beijo-te os joelhos/ calejados/
que de tão genoflectidos/
não encontrarão parelhos/(seja onde for)
nos holocaustos oferecidos/

 

  no grande altar do amor./
Beijo-te o cajado,/ destilação da vida,/
que de força e perpetuação/ tem o significado;/
também no teu regaço de pastor/ serei acolhida./
Beijo-te o peito/ que vigoroso e belo medra/
ao ergueres o troféu;/ ave, de coragem feito,/
de pêlos, plumas e pedra/ quente (travesseiro)
nas mansões do céu./
Beijo-te a boca,/ fogo ardente do verbo criador;
orelha louca,/ escorrendo sabedoria de mel/
e, no hálito quente desse fogo devorador,/
há uma língua lavrando formas,/
num trabalho de cinzel.

           Portanto, uma amostra da linguagem do livro Quarta dimensão. Na arte da confecção da palavra de Ercília Macedo-Eckel, o cruzamento alquímico do seu sentimento com a fala da alma de outros poetas, fazendo continuar a ciranda da Poesia que, sem fazer caso da qualificação, prossegue e faz outros e novos tempos, todavia sempre e sempre belamente.

Goiânia, 18 de março de 2005.

*Mestrado em Teoria da Literatura pela UFG.

Membro da Academia Feminina de Letras e

Artes de Goiás.


I

Só os poetas deveriam

ocupar-se dos líquidos.

Novalis


Gênesis revisitado

           No princípio havia o caos e o tempo era infinito. O espaço ilimitado estava deserto de revelação e vazio de pensamento. As trevas do nada cobriam o abismo desprovido de palavras e o sopro do Poeta ondulava sobre a grande massa das águas primordiais. E seu hálito formou o céu das divindades, dos heróis e da lira. Também formou a terra para nela fecundar a poesia com o sêmen do paradoxo e do tempo.

           E o espírito do Poeta pairava sobre o fundamento das palavras. E disse: Haja palavra. Palavra de hoje. Palavra de amanhã: saindo da boca, entrando no papel em branco, brotando da mídia, dançando na tela do computador... Haja muitas palavras. Mas haja palavras de baixo, subterrâneas, frias, infernais, de horror. Haja palavras de cima, de luz, dos deuses, de alegria, do céu. Haja palavras intermediárias, terrestres, dos homens que conhecem o caminho das sombras e das fendas rumo ao inferno, ao baixo, assim como conhecem a trilha estreita que leva aos deuses. Essas são palavras de balança, pois buscam o equilíbrio no caso de dúvida, entre as palavras de cima e as palavras de baixo. E, assim, o Poeta criou três níveis de palavras: as de baixo, as de cima e as intermediárias. E o Poeta teve dúvidas de que fosse boa essa classificação de palavras.


           E disse ainda: Haja olhos luminosos na constelação dessas palavras para abrilhantarem o dia da inauguração da poesia e olhos opacos para chorarem a noite de sua decadência. E que esses olhos marquem o ritmo dos versos e da vida que dêem sinais para as estações das formas poéticas e para os anos de continuidade e renovação periódica. E o Poeta teve dúvidas de que isso fosse bom.

           E criou o Poeta toda a poética existente, segundo seus gêneros (para divergências entre os estudiosos) o épico, o lírico, o dramático e o satírico com suas respectivas espécies. E o Poeta abençoou todas essas espécies, dizendo: Sede fecundas, multiplicai-vos e enchei as estantes das bibliotecas, os e-mails e sites da internet, os balcões das lojas, as mesas dos bares, os bancos das praças, os picuás do lavrador e do garimpeiro. Aquecei os cubículos dos fora-da-lei.

           E disse mais o Poeta: Não é bom que eu esteja só: far-me-ei uma companheira idônea. Minha alma gêmea. E estando bem acordado, afirmou: Minha cabeça é esférica como o universo e redonda de luz como o sol em seu compasso. Dessa perfeição arrancarei uma mecha longa e perfumada, convicto de que não renunciarei às minhas forças (pro)criadoras.

           Então disse: Haja Poetisa para companheira de criação, para contemplar o paraíso poético e exorcizar as serpentes do diálogo obsceno. Haja a Poeta para regenerar o imaginário em que as víboras serão revestidas de plumas e trarão aos poetas palavras de anjos, divinas. E o Poeta teve dúvidas de que a criação dessa companheira fosse coisa boa.

           Uma neblina subia da terra da poesia e regava o solo com versos verticais. Porém não havia homem-leitor e mulher-leitora para lavrarem a palavra sobre a terra. Disseram Poeta e Poetisa:


           façamos o leitor e a leitora à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenham eles domínio sobre o contexto, sobre os vários sentidos das palavras do texto e, principalmente, sobre os temas domésticos que apelam para o imaginário, para o momento fantástico de sua terra natal.

           Disseram ainda: Eis que vos tenho dado todos os mitos para que o mundo mágico e o mundo de emoção da poesia não se separem. E viu o casal de poetas tudo quanto fizera e não tivera muita certeza de que fosse realmente bom.

           Houve noite, houve tarde e houve manhã no exercício das palavras. Estrela da noite. Estrela da tarde. Estrela da manhã. Estrela da vida inteira. E os poetas nunca descansam, porque nunca terminam sua obra: Homero, (Cantares de) Salomão, Virgílio, Dante, Voltaire, Göethe, Poe, Baudelaire, Eliot, Ezra Pound, Rilke, Garcia Lorca, Neruda, Paz; Pessoa, Cecília, Cassiano, Quintana, João Cabral, Adélia Prado; Darcy França, Heloísa Helena, Mendonça Teles, Paulo Nunes, José Fernandes, Coelho Vaz, Heleno, Chein, Brasigóis... E tantas, tantas outras estrelas de ontem, de hoje, de amanhã e do mundo inteiro __ a pressagiarem incansavelmente a morte ou nascimento dos grandes homens e dos deuses.

           E abençoaram os poetas esse permanente recomeço, essa desconstrução e essa reconstrução que nascem da tirania e da catástrofe ou da explosão da vida e do amor através da palavra. Haja sempre palavra com nome e sobrenome para que os deuses que não trabalham se distingam dos humanos. Pois os homens comuns comem o pão com o suor do próprio rosto. E sua única função é trabalhar para os deuses. Para isso foram criados.


           E disseram ainda o Poeta e a Poetisa: Seja a palavra do poema como o vinho, bebida por todos, como sangue de aliança e de dádivas espirituais, desde o mais humilde lavrador até o presidente ou rei e deuses. Sorvei-a devagarinho, com cuidado, para não vos embriagardes com os vários sentidos do texto poético.

           E haja palavra de proteção ao leitor e palavra de poderes superiores em torno do pescoço do Poeta e da Poetisa:

ABRAPALAVRA
ABRAPALAVR
ABRAPALAV
ABRAPALA
ABRAPAL
ABRAPA
ABRAP
ABRA
ABR
AB
A

Ercília Macedo-Eckel

Goiânia, 20 fevereiro de 2005.


Poeta

Eu sou ninguém
se sou mudo
mas se sou palavra
sou caudaloso
abro-me em fontes
vejo Deus, posso tudo
nasço, findo, renasço
em cada estação uma lavra.
Sou poeta, sou Nascente
brotando da terra
escoando desejos e sentimentos
me buscando provisório
permanentemente
no tempo da palavra
dependurado na cachoeira
da tensão e do desafio.
Agora sou muitos
no Grupo Kadóz de Poesia
e me estilhaço em trezentos
no leito das emoções:
sou Cora e sou Yeda
Sou Faro e sou Fernandes
sou Paz e sou Pessoa...
não minto ao fingir no peito
a fluidez do rio
que realmente sinto.

Poema de natal

O que buscais?
Olhando para os escombros
das cidades e das rochas
onde vossos irmãos foram pulverizados
no silêncio da noite?
Um membro foi decepado?
Enxugai o pranto de vossos ais:
as vítimas de impulsos diabólicos
ou de mentes assassinas
levantaram-se dos sepulcros
em tochas de açoite contra a violência.
A gênese esteve de parto e deu à luz
novo céu e nova terra
cuja madre se abrirá e gerará
imensa bondade – mamareis e sereis fartos
nos peitos da vida, um anjo me disse,
e as selvas refeitas vos afagarão
sobre seus joelhos até à velhice.

Não temais: notícias de alegria
consolidar-se-ão em Jerusalém,
no Iraque, Irã, Paquistão, Israel, Cisjordânia,
Nigéria, Chechênia, Sudão...
e perpetuar-se-ão até à Baixada Fluminense
e em todo Brasil.

Uma grande luz brotará das trevas
como estrela-guia, iluminando os sábios
contra Herodes, abutre de vosso tempo,
para que vossos céus não sejam roídos por traças nucleares
nem vossas vestes minadas de sangue
espargidas pelos ares.

Os cetros de ouro dos opressores foram quebrados:
crianças já pulam do ventre de gerações responsáveis,
multiplicando-se em saúde incontida
e, elevando-se de espoliada nação,
enchem de fartança os famintos da terra convertida
em espigas tocáveis à baixa mão.

Um decreto tramita em palácio
para que todo o mundo saia desarmado
pelas ruas e pelos campos,
porque a vida é a luz dos homens.
Um arcanjo virá sobre os hospitais, presídios, bancos,
jornais, escolas, mulheres grávidas, nenéns-de-colo, velhos e mancos,
cobrindo-os de resplendor de alegria,
de boa vontade e de paz,
ab-rogando também o sacrifício de cavalos e de animais pequenininhos
que não dão mais lucros, nem servem de regalos
nos páreos humanos...
e precipitando no abismo o mercenário,
lobo que abate os rebanhos das fronteiras.

Bondosamente, vós, operários,
sereis levados, como formigas obreiras, em espirais,
à Serra do Resgate.
Mostrar-vos-ão pedras preciosíssimas,
cristais resplandecentes
e atirar-vos-ão canas de ouro
a fim de medirdes as cidades
de vidros transparentes,
sem poluição e de portas abertas
de dia e de noite.
porque não haverá mais bandido nem ladrão...
Voltareis com júbilo dos festins das bateias;
de vós fugirá para sempre o gemido da servidão:
as mãos atrigadas e estendidas... de louro cheias.
Das catedrais de todos os credos subirão orações
perfumadas de mirra, incensos
queimados em taças de ouro das multidões
renascidas do pó
do novo céu e da nova terra.
No presépio do mundo brilhará a estrela da paz!

 
 

 

 

 

 
   
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