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| QUARTA
DIMENSÃO
O TEMPO DA PALAVRA E OUTROS
TEMPOS
Poemas
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Cada livro é a marca ou o
signo de um outro. |
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Danièle Chauvin |
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| Ercília Macedo-Eckel
QUARTA
DIMENSÃO
O TEMPO DA PALAVRA E OUTROS
TEMPOS
1ª edição
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| Goiânia
Kelps, 2005
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Copyright © 2005 by Ercília
Macedo-Eckel
Concepção e esboço
da capa
Ercília Macedo-Eckel
Quadrado.Figura humana e do quadrado,
de uma taça:
Bergen, Noruega, século IX [O quadrado
central].
Arte Final da Capa:
Bia Barros
Digitação
Susany Lourenço Silva
Diagramação:
Bia Barros
CIP. Brasil. Catalogação -
na - fonte
BIBLIOTECA MUNICIPAL MARIETTA TELLES MACHADO
Todos os direitos reservados, sem permissão
por escrito da Autora. Conforme Lei nº 9610/98, artigo
184 do Código Penal.
IMPRESSO NO BRASIL
Printed in Brazil
2005
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M119q Macedo-Eckel, Ercília
Quarta dimensão: O tempo da palavra
e outros tempos./ Ercília
Macedo-Eckel. - Goiânia: Kelps,
2005
136p.
1. Literatura Brasileira - Poesia. I.
Título.
2005-17 CDU: 821.134.3 (81)-1
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| Para Dolcy Caiado de Castro __ minha ex-professora
de Matemática (!) no velho Liceu da Cidade de Goiás
__ que me iniciou na arte de declamar poemas
em grandes festas naquele Salão Nobre.
In memoriam.
Para o Grupo Kadóz de Poesia, na
pessoa de Miguel Jorge.
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Sumário |
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| Prefácio: Do tempo com poesia |
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| Heloísa Helena de Campos Borges |
11 |
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| 1ª Parte |
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| Gênesis revisitado |
19 |
| Poeta |
23 |
| Meditação sobre Pirapora |
24 |
| Intertextualidade |
25 |
| Tempestades de verão |
26 |
| Cantiga de temporada |
29 |
| A uróboro |
31 |
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| 2ª Parte |
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| Bodas |
35 |
| Florálias |
36 |
| Devaneio |
37 |
| A dança das rosas |
37 |
| Haicai |
38 |
| Viagem |
38 |
| Poema cromático |
39 |
| Linhas lúdicas |
40 |
| A mulher e a estrela |
42 |
| Desobriga poética |
45 |
| Prenunciação |
45 |
| Ser filho |
46 |
| Cantiga de amigo |
47 |
| Ode à Ada |
50 |
| Um Tiago canto |
52 |
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|
| 3ª Parte |
|
| Sonho |
61 |
| Nel mezzo del cammim |
62 |
| Ritual do beijo quíntuplo |
63 |
| A rosa de Goiânia |
64 |
| Palma dos mártires |
66 |
| Reencontro casual |
68 |
| Do outro lado da náusea |
69 |
| Dança dos sentidos |
73 |
| Como é tua casa? |
74 |
| Desvendamento |
75 |
| Coisa nossa |
78 |
| Antropovisão |
80 |
| Cavalgada com desvio |
81 |
| Balada do barato |
83 |
| Poema de natal |
85 |
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|
| 4ª Parte |
|
| Labirinto improdutivo – MSP |
91 |
| Canto e reza dos agricultores |
92 |
| Reza profanada |
98 |
| Curral |
99 |
| Nonagenária |
100 |
| Maníaco por xadrez |
102 |
| Em busca da palavra |
103 |
| A mulher e o rato |
104 |
| Luz indireta |
105 |
| Imagem de fim |
106 |
| A chave do abismo |
107 |
| A mulher-aranha |
110 |
| A tetraktys |
112 |
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| Apêndice |
|
| Estiagem |
117 |
| Gavião |
118 |
| Verde-limo |
119 |
| Círios e velas |
120 |
| Penitência |
121 |
| Argonautas |
121 |
| Luar de maio |
124 |
| Dunas |
124 |
| Cantos |
125 |
| A poeta e as górgonas |
127 |
| Estações |
127 |
| Contratempo |
130 |
| Aragem |
130 |
| Ufanismo |
131 |
| Olhos como entrada |
132 |
| Alfa |
133 |
| Ascensão e retorno |
133 |
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PREFÁCIO
Do tempo com poesia
Heloisa Helena de Campos Borges*
Quarta
dimensão — o tempo da palavra e outros
tempos_ é o nome do livro de poemas
de Ercília Macedo-Eckel. E diga-se, título
esse, nada simples.
Para
bem compreendê-lo, desdobrei-o por partes. Primeiro,
indagando das possibilidades da palavra dimensão.
Em seguida, do sentido da classificação.
A
palavra dimensão origina-se do latim dimensio,
de metiri: medir. Consta nos dicionários como
grandeza real, que determina a porção
de espaço ocupada por um corpo. Também,
grandeza mensurável conforme uma direção
ou em relação às outras dimensões.
E ainda, eixo de significação de sentidos
figurados, onde coincidem dimensões, aparentemente
distanciadas e opostas, tais como as dimensões
do concreto e do simbólico, da sensualidade
e do mito.
Segundo
a Teoria da Relatividade, um ramo da Física
Moderna, a quarta é a dimensão do tempo,
ou melhor, do espaço-tempo. Nessa dimensão,
conceitos antes admitidos |
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| como absolutos tornam-se variáveis e os fenômenos,
que nela têm lugar, são considerados o resultado
de uma teia de relações, que inclui, além
do tempo e do espaço, também o referencial
observador, provando que a relatividade no tempo está
associada a uma relatividade no espaço.
Este
suporte de explicações autoriza-me dizer que
Quarta dimensão_ o tempo da palavra e outros tempos
é um livro de relações. Relação
da autora com outros autores, da autora com os leitores,
da autora como leitora de ontem, de hoje.
Sendo
um lugar, onde há o cruzamento de escrituras poéticas,
esse livro é também um momento de reciprocidade,
quando versos de ontem ecoam nos versos de hoje para entoar
o seu canto, que não é um canto solitário,
pois acontecendo em quarta dimensão.
No
âmbito dos estudos literários, esta polifonia
chama-se intertextualidade.
Portanto,
bastante acertado é o pensamento de Danièle
Chauvin, que se encontra nas primeiras páginas:
"Cada
livro é a marca ou o signo de um outro".
Quarta
dimensão possui quatro partes. Cada qual com
sua respectiva epígrafe, que aponta, um de cada vez,
os elementos básicos responsáveis pela explosão
da Vida: água; ar; fogo e terra. Esses elementos
transparecem nos versos, por meio de um poético processo
alquímico, que causa a transmutação.
O resultado disso nas palavras: uma adequada e expressiva
manifestação do que se deseja externar.
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| Sem
fugir do diálogo textual, característica maior
do livro, acontece igualmente um interessante diálogo
imagético entre epígrafes e poemas. Assim,
quando a citação fala de líquidos,
a palavra poética também se liquefaz:
| |
Eu sou ninguém
se sou mudo
mas se sou palavra
sou caudaloso
abro-me em fontes
(...)
não minto ao fingir no peito
a fluidez do rio
que realmente sinto.; |
quando
é o fogo o elemento norteador, as palavras se vestem
de sensualidade e paixão, como é o caso do
soneto Sonho, do qual apresento apenas a primeira
estrofe:
| |
No balanço da rede e quase
nua
Senti teu vulto de mim se abeirando
Está calor, meu bem...foste deitando.
Nas mãos uma flor, nos olhos a lua.
(...) ; |
ao
ressaltar o ar, o poema cria asas:
| |
Sigo a lei dos pássaros:
seu movimento e repouso
são danças de mim.; |
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| e
quando se liga à terra, as palavras chegam a se apresentar
com `textura' concreta, como é o caso do poema visual
Labirinto improdutivo _ MSP (Movimento Sem
Poema), cujo título nos provoca a ler
MST, ao invés de MSP.
Do
título ilusionista e ambíguo aos labirínticos
e irônicos versos que se repetem, e se repetem, emaranhados,
tudo se expressa sem saída, como, sem saída,
também parece a solução dos problemas
dos homens, sejam lá eles questões relacionadas
à terra ou ao fazer poético.
Portanto,
as epígrafes são bússola e âncora.
Bússola para a poetisa quando agrupa e direciona
os seus cantos e âncora para que o leitor possa se
acomodar no universo da leitura.
Ercília
costura o seu canto a outros cantares, muitas das vezes
em procedimento claramente anunciado, como, dentre vários,
é o caso do poema Meditação sobre
Pirapora, dedicado a Mário de Andrade, que um
dia também escrevera a sua própria Meditação
sobre o Tietê ou a Tiago de Melo Um Tiago canto
de quem repete parte de um dos seus versos mais conhecidos:
Faz escuro, mas eu canto.
Mas,
às vezes, é o formato que se torna instrumento
da permuta estética, como acontece no poema Intertextualidade:
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Diria o poeta de Itabira:
Jorge de Lima
que bebeu Invenção de Orfeu (...)
que bebeu Eneida de Virgílio
que bebeu Odisséia de Homero(...)
que bebeu nos primeiros tempos
da história grega
que bebeu no espaço altamente criador
desta ciranda cósmica
que se fecha em si mesma
na viagem para o centro
que não bebe de ninguém. |
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| São,
pois, esses, versos que o leitor espontaneamente encaixa em
Quadrilha, poema de Carlos Drummond de Andrade, já
considerado como um clássico e lúdico molde
da poesia brasileira, por meio do qual são demonstradas
voltas e meias-voltas desta imprevisível ciranda, que
é viver.
Mas,
falta-me ainda ressaltar a dimensão dos versos de
Quarta dimensão, como eixo de significação
de sentidos figurados.
Nessa
grandeza, a convivência da linguagem e do sentimento
é tão estreita, que as palavras se fantasiam
sensivelmente de modo a incluir mais e mais possibilidades
no contexto da sua leitura. Excelente exemplo é o
poema Ritual do beijo quíntuplo.
Uma
observação: o número cinco, segundo
explicação cabalística, é formado
de quatro pela adição de UM, que é
o princípio da vida, o espírito, biblicamente
anunciado pela poetisa, nos três últimos versos
do poema:
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Beijo-te os pés/ cansados/ que
de tanta interjeição/caminharam e te trouxeram
até/
estas portas que te amarão./
Beijo-te os joelhos/ calejados/
que de tão genoflectidos/
não encontrarão parelhos/(seja onde for)
nos holocaustos oferecidos/ |
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no grande altar do amor./
Beijo-te o cajado,/ destilação da vida,/
que de força e perpetuação/ tem
o significado;/
também no teu regaço de pastor/ serei
acolhida./
Beijo-te o peito/ que vigoroso e belo medra/
ao ergueres o troféu;/ ave, de coragem feito,/
de pêlos, plumas e pedra/ quente (travesseiro)
nas mansões do céu./
Beijo-te a boca,/ fogo ardente do verbo criador;
orelha louca,/ escorrendo sabedoria de mel/
e, no hálito quente desse fogo devorador,/
há uma língua lavrando formas,/
num trabalho de cinzel. |
Portanto,
uma amostra da linguagem do livro Quarta dimensão.
Na arte da confecção da palavra de Ercília
Macedo-Eckel, o cruzamento alquímico do seu sentimento
com a fala da alma de outros poetas, fazendo continuar a
ciranda da Poesia que, sem fazer caso da qualificação,
prossegue e faz outros e novos tempos, todavia sempre e
sempre belamente.
Goiânia, 18 de março de 2005.
*Mestrado em Teoria da Literatura pela UFG.
Membro da Academia Feminina de Letras e
Artes de Goiás.
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| I
Só os poetas deveriam
ocupar-se dos líquidos.
Novalis
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| Gênesis revisitado
No
princípio havia o caos e o tempo era infinito. O
espaço ilimitado estava deserto de revelação
e vazio de pensamento. As trevas do nada cobriam o abismo
desprovido de palavras e o sopro do Poeta ondulava sobre
a grande massa das águas primordiais. E seu hálito
formou o céu das divindades, dos heróis e
da lira. Também formou a terra para nela fecundar
a poesia com o sêmen do paradoxo e do tempo.
E
o espírito do Poeta pairava sobre o fundamento das
palavras. E disse: Haja palavra. Palavra de hoje. Palavra
de amanhã: saindo da boca, entrando no papel em branco,
brotando da mídia, dançando na tela do computador...
Haja muitas palavras. Mas haja palavras de baixo, subterrâneas,
frias, infernais, de horror. Haja palavras de cima, de luz,
dos deuses, de alegria, do céu. Haja palavras intermediárias,
terrestres, dos homens que conhecem o caminho das sombras
e das fendas rumo ao inferno, ao baixo, assim como conhecem
a trilha estreita que leva aos deuses. Essas são
palavras de balança, pois buscam o equilíbrio
no caso de dúvida, entre as palavras de cima e as
palavras de baixo. E, assim, o Poeta criou três níveis
de palavras: as de baixo, as de cima e as intermediárias.
E o Poeta teve dúvidas de que fosse boa essa classificação
de palavras.
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| E
disse ainda: Haja olhos luminosos na constelação
dessas palavras para abrilhantarem o dia da inauguração
da poesia e olhos opacos para chorarem a noite de sua decadência.
E que esses olhos marquem o ritmo dos versos e da vida que
dêem sinais para as estações das formas
poéticas e para os anos de continuidade e renovação
periódica. E o Poeta teve dúvidas de que isso
fosse bom.
E
criou o Poeta toda a poética existente, segundo seus
gêneros (para divergências entre os estudiosos)
o épico, o lírico, o dramático e o
satírico com suas respectivas espécies. E
o Poeta abençoou todas essas espécies, dizendo:
Sede fecundas, multiplicai-vos e enchei as estantes das
bibliotecas, os e-mails e sites da internet, os balcões
das lojas, as mesas dos bares, os bancos das praças,
os picuás do lavrador e do garimpeiro. Aquecei os
cubículos dos fora-da-lei.
E
disse mais o Poeta: Não é bom que eu esteja
só: far-me-ei uma companheira idônea. Minha
alma gêmea. E estando bem acordado, afirmou: Minha
cabeça é esférica como o universo e
redonda de luz como o sol em seu compasso. Dessa perfeição
arrancarei uma mecha longa e perfumada, convicto de que
não renunciarei às minhas forças (pro)criadoras.
Então
disse: Haja Poetisa para companheira de criação,
para contemplar o paraíso poético e exorcizar
as serpentes do diálogo obsceno. Haja a Poeta para
regenerar o imaginário em que as víboras serão
revestidas de plumas e trarão aos poetas palavras
de anjos, divinas. E o Poeta teve dúvidas de que
a criação dessa companheira fosse coisa boa.
Uma
neblina subia da terra da poesia e regava o solo com versos
verticais. Porém não havia homem-leitor e
mulher-leitora para lavrarem a palavra sobre a terra. Disseram
Poeta e Poetisa:
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| façamos
o leitor e a leitora à nossa imagem, conforme a nossa
semelhança; tenham eles domínio sobre o contexto,
sobre os vários sentidos das palavras do texto e,
principalmente, sobre os temas domésticos que apelam
para o imaginário, para o momento fantástico
de sua terra natal.
Disseram
ainda: Eis que vos tenho dado todos os mitos para que o
mundo mágico e o mundo de emoção da
poesia não se separem. E viu o casal de poetas tudo
quanto fizera e não tivera muita certeza de que fosse
realmente bom.
Houve
noite, houve tarde e houve manhã no exercício
das palavras. Estrela da noite. Estrela da tarde. Estrela
da manhã. Estrela da vida inteira. E os poetas nunca
descansam, porque nunca terminam sua obra: Homero, (Cantares
de) Salomão, Virgílio, Dante, Voltaire, Göethe,
Poe, Baudelaire, Eliot, Ezra Pound, Rilke, Garcia Lorca,
Neruda, Paz; Pessoa, Cecília, Cassiano, Quintana,
João Cabral, Adélia Prado; Darcy França,
Heloísa Helena, Mendonça Teles, Paulo Nunes,
José Fernandes, Coelho Vaz, Heleno, Chein, Brasigóis...
E tantas, tantas outras estrelas de ontem, de hoje, de amanhã
e do mundo inteiro __ a pressagiarem incansavelmente
a morte ou nascimento dos grandes homens e dos deuses.
E
abençoaram os poetas esse permanente recomeço,
essa desconstrução e essa reconstrução
que nascem da tirania e da catástrofe ou da explosão
da vida e do amor através da palavra. Haja sempre
palavra com nome e sobrenome para que os deuses que não
trabalham se distingam dos humanos. Pois os homens comuns
comem o pão com o suor do próprio rosto. E
sua única função é trabalhar
para os deuses. Para isso foram criados.
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| E
disseram ainda o Poeta e a Poetisa: Seja a palavra do poema
como o vinho, bebida por todos, como sangue de aliança
e de dádivas espirituais, desde o mais humilde lavrador
até o presidente ou rei e deuses. Sorvei-a devagarinho,
com cuidado, para não vos embriagardes com os vários
sentidos do texto poético.
E
haja palavra de proteção ao leitor e palavra
de poderes superiores em torno do pescoço do Poeta
e da Poetisa:
ABRAPALAVRA
ABRAPALAVR
ABRAPALAV
ABRAPALA
ABRAPAL
ABRAPA
ABRAP
ABRA
ABR
AB
A
Ercília Macedo-Eckel
Goiânia, 20 fevereiro de 2005.
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| Poeta
Eu sou ninguém
se sou mudo
mas se sou palavra
sou caudaloso
abro-me em fontes
vejo Deus, posso tudo
nasço, findo, renasço
em cada estação uma lavra.
Sou poeta, sou Nascente
brotando da terra
escoando desejos e sentimentos
me buscando provisório
permanentemente
no tempo da palavra
dependurado na cachoeira
da tensão e do desafio.
Agora sou muitos
no Grupo Kadóz de Poesia
e me estilhaço em trezentos
no leito das emoções:
sou Cora e sou Yeda
Sou Faro e sou Fernandes
sou Paz e sou Pessoa...
não minto ao fingir no peito
a fluidez do rio
que realmente sinto.
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|
Poema de natal
O que buscais?
Olhando para os escombros
das cidades e das rochas
onde vossos irmãos foram pulverizados
no silêncio da noite?
Um membro foi decepado?
Enxugai o pranto de vossos ais:
as vítimas de impulsos diabólicos
ou de mentes assassinas
levantaram-se dos sepulcros
em tochas de açoite contra a violência.
A gênese esteve de parto e deu à luz
novo céu e nova terra
cuja madre se abrirá e gerará
imensa bondade – mamareis e sereis fartos
nos peitos da vida, um anjo me disse,
e as selvas refeitas vos afagarão
sobre seus joelhos até à velhice.
Não temais: notícias de alegria
consolidar-se-ão em Jerusalém,
no Iraque, Irã, Paquistão, Israel, Cisjordânia,
Nigéria, Chechênia, Sudão...
e perpetuar-se-ão até à Baixada
Fluminense
e em todo Brasil.
Uma grande luz brotará das trevas
como estrela-guia, iluminando os sábios
contra Herodes, abutre de vosso tempo,
para que vossos céus não sejam roídos
por traças nucleares
nem vossas vestes minadas de sangue
espargidas pelos ares.
Os cetros de ouro dos opressores foram quebrados:
crianças já pulam do ventre de gerações
responsáveis,
multiplicando-se em saúde incontida
e, elevando-se de espoliada nação,
enchem de fartança os famintos da terra convertida
em espigas tocáveis à baixa mão.
Um decreto tramita em palácio
para que todo o mundo saia desarmado
pelas ruas e pelos campos,
porque a vida é a luz dos homens.
Um arcanjo virá sobre os hospitais, presídios,
bancos,
jornais, escolas, mulheres grávidas, nenéns-de-colo,
velhos e mancos,
cobrindo-os de resplendor de alegria,
de boa vontade e de paz,
ab-rogando também o sacrifício de cavalos
e de animais pequenininhos
que não dão mais lucros, nem servem
de regalos
nos páreos humanos...
e precipitando no abismo o mercenário,
lobo que abate os rebanhos das fronteiras.
Bondosamente, vós, operários,
sereis levados, como formigas obreiras, em espirais,
à Serra do Resgate.
Mostrar-vos-ão pedras preciosíssimas,
cristais resplandecentes
e atirar-vos-ão canas de ouro
a fim de medirdes as cidades
de vidros transparentes,
sem poluição e de portas abertas
de dia e de noite.
porque não haverá mais bandido nem ladrão...
Voltareis com júbilo dos festins das bateias;
de vós fugirá para sempre o gemido da
servidão:
as mãos atrigadas e estendidas... de louro
cheias.
Das catedrais de todos os credos subirão orações
perfumadas de mirra, incensos
queimados em taças de ouro das multidões
renascidas do pó
do novo céu e da nova terra.
No presépio do mundo brilhará a estrela
da paz!
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