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| Por
que você está nu?
Ercília Macedo-Eckel*
Eu sou antes da culpa. Minha jornada começa
antes do tempo edênico. Caminho na retaguarda
da carne criada para todas as delícias. Sem
pecado original e isenta de maldição.
Eu, nu... incomoda você? O hábito
já fez o monge. Os padres deixaram suas batinas;
os militares, seus uniformes; as freiras, seu hábitos;
os magistrados, suas togas; os professores, seus
jalecos; os andarilhos, seus trapos e os pós
do caminho. E, mesmo que eu me cubra ou me vista,
estarei nu na voz, nos gestos, no rosto, nas mãos,
no olhar.
Sou único, individual. Não
está vendo? Ninguém há igual
a mim. Ora me sinto nas alturas, em benefício
das causas intelectuais; ora nos declínios
da queda para servir à sensualidade e à
lascívia. Quase uma fantasia de tema livre.
Use pelo menos uma sunga... Não, tudo
está e estará às claras. E
as portas abertas... Qual seu verdadeiro estado?
Há um espírito quente agitado de guerreiro
inquieto dentro de mim contra um deus ou um demônio.
E há um despojamento de dançarino,
voltado para a luz e para o nascimento, diante do
palco do amor bafejando de liberdade, com muita
alegria. Quero receber diretamente as energias do
espaço e do mundo. Isto é um conhecimento
da verdade e uma vergonha para mim. É...
pois é... para você. Não é?
É! Mas eu quero ser inteiro nesta sonata
em dó sustenido menor.
Inocência? Ou exibição?
Toda nudez será castigada. E deveria ser
castigada por sua ambivalência. Sou um atleta
em forma. Não, ando meio fora de forma...
Discordo. Você acabou de ganhar uma olimpíada-de-abraçar-me
agorinha mesmo... Ah! Minha nudez é de alma.
Não só física, no teclado deste
piano Estou por inteiro. Retiro o corpo das amarras.
Renego qualquer prisão que o ameace envolver.
Quero estar completamente nu diante de mim mesmo
e diante do espelho, no concerto interior que farei
neste quarto e no mundo.
Agora estou completamente nu, em meu estado
primordial e manifesto. De bem comigo mesmo e com
Deus. Por quê? Minhas ideias, com a aquisição
de novo chapéu-Golem, invisível, tornaram-se
raios de luz beethovenianas. Eu sou apenas meu corpo.
Não vale o corpo mais que as vestes e adereços?
Bato firme no adágio lento sustentado, até
que um allegretto attacca num andamento mais rápido.
Rapidinho: allegretto de Sonata de luar.
Abertos os olhos... Mais uma vozinha sustenida
se arrasta na viração da noite. Cosa
uma tanguinha. Pernilongo vai te comer! Tem importância
não. Minha vida íntima já foi
violada. Laio bebeu meu sangue e não sei
ainda como suplantar o Rei. Ah! Secarei os pântanos
de meu inconsciente, abrirei canais de expressão
dentro de mim mesmo. Sonharei os sonhos mais ousados.
Sonharei para trás com Freud. Sonharei com
Jung para adiante. Direi as palavras mais delirantes.
Palavras secas, divinas. Palavras úmidas,
masculinas e penetrantes nas orelhas da terra. Femininas.
Escreverei um poema-cererê, na luta contra
o pirata. Contemplarei uma tela nua, vestida de
espaço surrealista. Ouvirei a música
de maior amplidão universal, uma ode à
alegria e à nudez total. Libertarei, evacuarei
todos os monstros de meu pântano interior
e catarei, reunirei os pedacinhos de minha própria
integridade, se é que ela algum dia se espatifou.
Veja! O último monstro do pântano
acaba de morrer. Dó menor. Mas você
poderia usar pelo menos uma tanguinha-sonata...
quase uma fantasia.Não, encontro-me agora
em meu verdadeiro estado. Primitivo, primordial,
divino. Sou único, individual. Como lhe disse
no começo. Ninguém há igual
a mim. Presto agitato. Agitadinho nessa travessia.
Eu, nu? Se você não fala...
eu nem me lembraria. Faz tanto tempo que me libertei,
que me salvei por mim mesmo!
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*Ercília
Macedo-Eckel é membro da Academia Feminina de
Letras e Artes de Goiás, sócia da União Brasileira
de Escritores – GO e da Academia Petropolitana de
Letras – RJ. Mestra em Letras e Lingüística pela
UFG. |
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| Carta
de Pero Vaz |
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| Olhando
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| Raul
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| Maluco
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dinastias. Amargo. Raso. Largo. Profundo...
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| No
Santuário de Cora Coralina |
| As
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Parei!_com
saudade das ruas de pedra_eu
só, sem mais ninguém, quando José...
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| Por
que você está nu? |
| Eu,
nu... incomoda você? O hábito já
fez o monge. Os padres deixaram suas batinas;
os militares, seus uniformes; as freiras, seu
hábitos; os magistrados, suas togas; os
professores, seus jalecos; os andarilhos, seus
trapos e os pós do caminho...
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A
soleira vulnerável da partida |
| Tempo
zero. No início nada. Não havia
forma nem tempo. E nem palavra. Mas um fogo
essencial, uma energia e uma explosão
cósmica conceberam, no recém-fundado
côncavo, o útero das águas... |
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