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:          Literatura Brasileira em Goiás

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  Os estímulos literários em Ada Curado
(Sociologia e historicidade da Autora)

 

Ercilia Macedo-Eckel

 

                               “A literatura é sempre mais do que a literatura, e há certamente casos                                em que a biografia do escritor acha-se em relação pertinente com sua                                obra”.

                               (TODOROV, Tzvetan, Introdução à literatura fantástica, p. 160)

 

 

Introdução

Ada Curado figura em estudos de literatura em Goiás, já realizados pelo Prof. Dr. Gilberto Mendonça Teles (Bibliografia: nºs. 24 e 25), dentre outros estudiosos. Entretanto, sob o enfoque principal de sociologia e historicidade da autora, nada foi escrito. Também não há (que eu saiba) um estudo completo e atualizado de suas obras. O que por si só justificaria o presente trabalho.
          As fontes principais para essa abordagem (vida, contexto, obra) foram seus próprios livros, uma entrevista em 17 de novembro, 1991 e o conhecimento pessoal (Eu frequentava a casa da autora com certa regularidade e até quando me foi possível).
           Ditas essas palavras, seguem-se os períodos da vida cultural de Goiás, para melhor situá-la no contexto. De suas obras foi excluída Sob o tormento da espera (teatro, 1976) e abordadas as demais, de ficção, na terceira parte, em ordem cronológica de publicação. E, na quarta parte, sua poesia em Acalanto, única obra de Ada nesse gênero.
           Dessa forma, espera-se ter uma visão mais ampla da “sociologia e historicidade” da autora, e – por que não? – de Goiás.

 A autora

           Ada Ciocci Curado nasceu em Jardinópolis, São Paulo, em 2 de setembro de 1916. Seus pais eram italianos: Nazareno Ciocci e Josefina Paiuchini Ciocci. E tiveram dez filhos: quatro homens e seis mulheres. Ada era a oitava, seguindo-lhe um casal de irmãos. Na infância e adolescência ouvia as histórias da mãe sobre a vida na Itália (Roma), as façanhas da família na luta pelo amor e pela sobrevivência. Dona Josefina queria sabê-la cantora ou artista – desde tenra idade declamava, inclusive em italiano, e cantava nas festinhas os sucessos da época, acompanhada pelo irmão (músico). Em Pedregulhos, São Paulo, onde fez o primário no “grupo escolar” vivia alegre e feliz. Brincava de roda, de pique etc., até conhecer o Cel. Gentil Curado que vinha da Revolução de 30 e procurou a Casa de Calçados de seu Nazareno para consertar uma bota. A cidade fugiu. A família de Ada não... e vendeu botas para o regimento inteiro. Aos dezessete anos já estava casada com o Coronel, trinta anos mais velho que ela, “autoridade, manda-chuva”, que a trouxe para o Estado de Goiás.
           Morou em Goiás Velha, Anápolis, Ipameri e, finalmente, em Goiânia, no início da década de 50. Nessa época fez o ginásio, ao tempo em que dava assistência às duas filhas. Nos últimos dias de vida, seu marido ficará totalmente cego e dependente dela. Enviuvou-se em 1980.
          Leu, na adolescência, Eça de Queirós e “os primeiros suspiros para o nascimento” de seus livros seriam: a Revolução de 30, a Segunda Guerra Mundial, o “curto período de quinze anos” de Getulio Vargas, o pesadelo de o marido ir para a guerra e o sonho com um mundo perfeito., a viuvez da cunhada Alcides (Morena) aos trinta anos e que criou seis filhos sozinha na fazenda, em Estreito; as festas religiosas do interior de Goiás, as crendices e as superstições de nossa gente; os preconceitos de cor e de classe social; a mulher em suas “paredes agressivas”, marginalizada, “à procura de voz plena em suas próprias academias – ainda chegará lá...” (10: A autora: Entrevista). Diz a autora “contar isso e aquilo dos que arrotam grosso: presidente, governador, − os donos do mundo”. – Também é estímulo o que brota do cotidiano, da recordação, da angústia e da saudade; da natureza, da poeta e da palavra:
           “Porque poeta é o senhor da palavra, faz o jogo do sentido, e o bom poema é aquele que faz a ligação entre o poeta e o leitor.
           E ninguém impede a criação ou o progresso literário. O escritor convicto não aceita impedimento; guarda o texto para publicá-lo mais tarde ou camufla a censura.” (Idem, ib.)
           Para Ada Curado o tempo é “um gozador” e deve estar no presente do poeta que, insatisfeito, enxerga adiante do homem comum Ada-poeta é a Ada que sente, à flor da pele, que encanta e desencanta. Ada-mulher-social é um ser intelectual, ligada aos problemas de sua “aldeia”; que raciocina, participa de tudo e aponta aos erros, as falhas: “Quando o assunto é político muita gente tem medo... eu mesma tenho, às vezes”. Mas ser intelectual é um bom oficio, não só para subsistência. Também para mostrar a verdade, o que viu e a impressionou, de bom ou de ruim.
           Que é ser escritor? É ser técnico, mas também criativo. É vencer os preconceitos, o casamento que oprime, os senta-levanta da vida. Ser escritor é viver de sonho em seu castelo, em sua “casa” (corpo). E, ainda, preenche o tempo e educa”. (10)

 2 Períodos da vida cultural de Goiás (seu Estado de opção)

           A esquematização a seguir obedece aos critérios: cronológico, político e determinados por acontecimentos sociais e culturais (25: p. 29-32, com pequena alteração no que se refere ao 6º Período).
          
2.1. 1º Período: de 1726 a 1830 – Do início da história de Goiás à publicação do Matutina meia-pontense (Pirenópolis), com o predomínio da mineração e sua substituição pela pecuária e agricultura, o surgimento das primeiras cidades e o aparecimento das primeiras aulas e com elas o de nosso primeiro poeta: Antônio Lopes da Cruz (sob o pseudônimo de Bartolomeu Antônio Cordovil) com o poema Ditirambo às ninfas goianas (1790).
          2.2. 2º Período: de 1830 a 1903 – Da publicação do Matutina meia-pontense à instalação da Academia de Direito de Goiás (24-2-1903), a que se seguiu a fundação de uma Academia de Letras (1904), de curta duração. Nesse período ocorreu também a fundação do primeiro jornal, o quarto do País, e semente para o jornalismo de idéias abolicionistas e republicanas. São desse período a criação do Liceu de Goiás (1847) e do Gabinete Literário Goiano (1864). Estética predominante: transição clássico-romântica, com predomínio do Romantismo nos fins do século XIX e início do XX.
           2.3. 3º Período: de 1903 a 1930 – Da instalação de nosso primeiro curso jurídico e da Academia de Letras à Revolução de 1930, de que resultou a nova capital do Estado (,o casamento da autora em estudo com o Coronel Gentil, sua vinda para Goiás como “lugar de opção” e aproveitamento do assunto para temas de sua ficção). Estética: novas ideias parnasianas e simbolistas começam a tomar conta dos escritores, fechando-se o período com o predomínio do Parnasianismo. Mas o livro Ontem (1928), de Leo Lynce, marca o início do Modernismo em Goiás, no fim desse período.
2.4. 4º Período: de 1930 a 1942 – Da Revolução de 1930 que modificou as estruturas político-administrativas do País e motivou em Goiás a fundação de Goiânia (5-7-1942), quando se iniciou a publicação da revista Oeste, órgão de orientação política da época. Estética: de transição. É o pré-modernismo em Goiás, incluindo-se a adoção do verso livre.
          2.5. 5º Período: de 1942 a 1960 – Da publicação de Oeste e do batismo cultural de Goiânia à inauguração de Brasília que, pela proximidade, resultou em maior incremento econômico e intelectual para Goiás. Acontecimentos importantes: criação da Bolsa “Hugo de Carvalho Ramos” (1943), visando à publicação de obras literárias ou científicas de autores contemporâneos residentes no Estado, I Seminário de Arte de Goiás (julho de 1956) e a criação das Universidades Católica (1958) e Federal (1959). Eu fiz o vestibular para a primeira turma de Letras da Católica.
          Estética: inspirada em Manuel Bandeira, Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade. É considerado um período importante das letras goianas, na poesia e na prosa. Na poesia, principalmente pela chegada dos primeiros livros de Gilberto Mendonça Teles: Alvorada (1955) e Estrela-d’alva (1956). No primeiro, identificou-se com parnasianos e simbolistas. No segundo, além de traços simbolistas, há prenúncios do Modernismo (p. 30 e 31).
         Derrubada a Ditadura e finda a Guerra Mundial, agitam-se os escritores brasileiros, em vários Estados. Em Goiás a consequência imediata foi a criação de uma secção da Associação Brasileira de Escritores (1945), a realização do I Congresso Nacional de Intelectuais (fev./ 1954). Um dos temas: “Problemas éticos e profissionais dos intelectuais”.
           Ada Curado participou desse evento, juntamente com outros escritores do Estado, como Eli Brasiliense, Jose Godoy Garcia, José Xavier de Almeida e Bernardo Élis. Também estavam presentes expoentes das letras nacionais e internacionais, como Pablo Neruda. Logo a seguir, Ada publicou O sonho do pracinha e outros contos (1954) e Morena (1958).
           São dessa fase os romances O tronco (1956), de Bernardo Élis, Élos da mesma corrente, de Rosarita Fleury e a circulação de um jornal literário, Jornal Oió, entre 1957 e 1958. O grupo Os quinze (fev./ 1956), dos novos, divulgava suas idéias no suplemento literário da Folha de Goiaz, através de Jesus Barros Boquady.
           2.6. 6º Período: 1960 à atualidade (1991) – Dos reflexos econômicos, intelectuais e políticos pela proximidade de Brasília aos dias de hoje. No início da década (1962) surgiu o discutido GEN (Grupo de Escritores Novos) que culminou com a publicação de Poemas do GEN (1966) e a vinda Mário Chamie, o instaurador da Práxis, a Goiânia. Aqui ele proferiu palestras e manteve contato com intelectuais e assistiu a uma Exposição de poemas práxis realizada pelo GEN no seu 5º aniversário (1967). Desse grupo, considerado, na época, de oficio não muito sério, o tempo e a persistência permitiram os seguintes frutos em nossas letras: Miguel Jorge, Helena Chein, Heleno Godoy, Carlos Rodrigues Brandão, Luís Fernandes Valadares, Manuel B. de Brito (Prof. Nequito), Coelho Vaz, Yeda Schmaltz, dentre outros.
           Em 1964 Gilberto Mendonça Teles publica o estudo e antologia A poesia em Goiás pela Universidade Federal, obra premiada em concurso de 1962. E publicação de grande valor para quem estuda a literatura feita em nosso Estado. Ainda a Universidade Federal de Goiás edita (1963) seus (dela) Cadernos de Estudos Brasileiros. Outros acontecimentos importantes: Inaugura-se a Televisão Anhanguera (1963), com espaço para escritores e artistas. O jornal O popular (final de 60/ início de 70) mantinha um caderno, o “Suplemento Cultural”, com grande espaço para as letras e as artes em geral. João Bênio dá início às atividades cinematográficas com o lançamento dos filmes O diabo mora no sangue (1969) e Simeão o Boêmio (1970). Na década de 80 Cora Coralina tem repercussão nacional com Poemas dos becos de Goiás e estóricas mais (1980) e Vintém de cobre: meias confições de Aninha (1983). É no 6º Período que Siron Franco e outros goianos são reconhecidos nacionalmente.
           Nesse quadro da vida cultural, mais especificamente, de Goiânia hoje, não poderíamos esquecer o papel da Galeria Casagrande como aglutinadora de intelectuais e artistas da sociedade local, juntamente com o empenho da Função Jaime Câmara, dentre outras.
           Nesse período, Ada Curado pinta esporadicamente: Vaso de flores (1984) e Casal de garças (1989) descoravam sua biblioteca. Há, também, alguns poemas em quadro ilustrados por sua filha Ceci, como “Expectativa” (9: p. 42) e por outros artistas.
           Com o final do “regime militar” (1985), creio eu, poderíamos iniciar o 7º Período da vida cultural em Goiás. Sugestão em aberto.

 3. Sua ficção 

3.1. O Sonho do pracinha e outros contos (1954) 

No centro da folha de rosto lê-se: 

“N.B. – Alguma semelhança entre fatos e personagens será mera coincidência”.

A autora

           No conto inicial que dá nome ao livro um pracinha, João Faria, com o braço mutilado pela Guerra, sonha no Hospital Americano em Pistóia com uma cidade Paraíso que tem todas as características de um mundo perfeito. Mas os homens jamais atingirão um estado de felicidade suprema, sob qualquer forma de governo: pois Deus fez esse mundo e o Diabo se incumbiu de implantar nele o ódio, a inveja, a fome, as doenças, as desigualdades – enfim, tudo para destruir a obra da criação divina: 

João achava-se exaurido. Seus pés sangravam. O saco que o principio lhe parecia leve tornara-se pesado. (...) Além de sede, João sentia fome, por isso andava, andava, esperando sempre encontrar abrigo (...)
... De súbito... Julgou ser visão o que via.” (p.9). 


           O portão era ladeado de muros de pedra “a perder de vista”. No semicírculo desse portão, lia-se Paraíso.
           Entrou: “Avenida das Uvas”, “Rua das Rosas” e ruas floridas. Parecia ouvir: “As frutas são suas, saboreie-as...
           O pracinha (soldado) João Faria transpõe as fronteiras do real/irreal e chega ao Paraíso em um sonho (como em “A flor de Coleridge” – de Jorge Luis Borges, 1952), através do fantástico maravilhoso – não tão radical – posto que num cotidiano aparentemente verossímil.
           Assim, o protagonista encontrou uma forma (onírica) para reparar a condição humana, a Cidade-apocalíptica, embriagada de sangue dos peregrinos da Guerra, a cidade-de-baixo, a Babilônia e recuperar a condição divina, edênica, anterior à queda e chegar a Jerusalém, à Cidade-de-cima, do Reino.
          A metáfora mascara o cristão bíblico para narrar a condição absurda do estar-no-mundo e mostrar o homem esmagado ao entrar para o sistema.
           No Paraíso preocupava-se com a Educação sistemática e havia um Mestre de maneiras simples, mas que dominava todas as disciplinas. Havia também intelectuais, poetas e escritores: 

− Quem é que vive aí, o Mestre?
− Não. O Mestre vive com muito conforto, mas simplesmente. Isso pertence aos intelectuais, poetas e escritores. Como essa gente vive de sonho é preciso alimentá-los para bem produzir (...)
− Todos os que gostam de escrever vivem aí?
− Não, só os bons. O Mestre costuma dizer que quem produz um bom livro lega à humanidade um dote”. (p. 31-32)

           Sabemos que a Educação tem por função socializar, integrar as gerações imaturas na sociedade e no meio especial a que se destinam. E é também como forma de controle social, como método de influenciar o comportamento para que se enquadre dentro dos padrões vigentes de interação e organização social. Assim, pode ser inovadora ou conservadora, de acordo com o contexto histórico e social no qual se manifesta. Livros e escritores aliados aos professores poderão constituir-se em fator construtivo de transformação consciente e intencional, em fator de mudança da ordem dominante. Ainda que esses escritores aproveitem os “estímulos” da vida real, mudando a situação, o tempo, ou o local:

 

   Diariamente os pequenos recebam aulas de educação e civilização. Aqui ministram-se estas. Entre.
João penetrou num grande salão, rico de ar e luz. Os alunos ao verem os visitantes, puseram-se de pé. João foi apresentado ao professor e este, ao tomar conhecimento do que ali os levava, mandou que se sentassem e prosseguiu sua explicação;
          
− Como eu lhes dizia, meus jovenzinhos, a criança a qual tudo se nega, cresce cheia de recalques, que ficam guardados no subconsciente, podendo torná-la, além de doente, até mesmo criminosa. Na maioria das vezes, ladra e também assassina. Era o que acontecia em outros tempos. Notamos isso, através dos livros antigos. Os escritores faziam seus personagens viver entre roubos, mortes, intrigas, calúnias e traições. Aproveitavam as taras. Apresentavam vidas desoladas, sem ânimo, deixando tudo correr ao Deus dará, como um barco sem direção. Figuras que nasciam e morriam sem um ideal, sem uma luta. Enfim, verdadeiros animais pensantes. Os escritores, como vocês sabem, nem sempre criam suas narrativas. Na maioria das vezes são aproveitadas da vida real (p. 27). 


           É dever do Estado e do governo promoverem o bem comum. É que o Estado deveria proteger as relações entre os membros do grupo, manter a ordem, o bem geral e de cada cidadão. Distribuir justiça, cuidar do cumprimento das leis etc. Mas há mandos e desmandos, “maracutaias”, vantagens e regalias provindas do Poder: 

Nesse ponto o professor sorriu e disse:

− Não precisam ficar com as carinhas tão alarmadas. Felizmente isso já vai longe e não há perigo de voltar. Agora falarei um pouco das formas de governos; (...) 

........................................................Todos mandavam e ninguém mandava. A desigualdade era tremenda. Havia homens que acumulavam dois ou três empregos, ganhando um absurdo, enquanto que outros, também capazes, mal ganhavam para se manter. Todos queriam ser Deputados e Senadores. Além de boa remuneração, esses cargos ofereciam muitas regalias. Um deles era não poder o indivíduo ser preso, em hipótese alguma. Pois bem, como eu ia dizendo, todos almejavam os postos e por ocasião dos pleitos eleitorais, faziam tal propaganda uns contra os outros que parecia coisa de loucos. Havia os tais “tubarões” que, tendo muito dinheiro, açambarcavam toda sorte de negócios e mais se enriqueciam à custa de miseráveis trabalhadores. Havia casas chamadas “bordeis”, onde mulheres de todas as idades comerciavam o corpo como meio de ganhar a vida. Os homens que estudavam leis, obedeciam a um livro chamado “Código Civil”, cheio de falhas. Esse também, como o Governo, ia para lá e pra cá. Aqui dava força para o indivíduo num determinado caso e logo adiante abria uma janelinha para o adversário do mesmo caso (p. 28-9).

          E não é que esse assuntos desagradáveis voltaram, Mestre? Infelizmente.
           No final do conto a protofonia de O Guarani, de Carlos Gomes, que havia triunfado na Itália, terra dos pais da autora, e no Rio de Janeiro (1870), agora é ouvida em exaltado delírio nacionalista e cívico pelo pracinha, juntamente com o Hino Nacional Brasileiro (...)
           Ao recobrar os sentidos o médico o atendeu prontamente, ciciando ao enfermeiro: 

“ – É um principio de neurose, comum nos combates. Precisamos fazê-lo dormir. Aplique-lhes já estas duas injeções. Ele não poderá saber tão cedo que perdeu o braço (...).
(João) Agora sorria. Sua fisionomia estava feliz. Talvez sonhasse novamente com Clícia e com a cidade Paraíso. Talvez fosse melhor que ele não mais despertasse (p. 43).

 

3.2 Morena (romance, 1958)

           É uma “leitura” da vida de sua cunhada, a irmã fazendeira do marido da autora; a transposição de vida de Alcides para a protagonista Morena – que luta a fim de manter intacta a herança deixada pelo esposo Luís Maria (nome real). O local verdadeiro da ação é a fazenda em Estreito, que no enredo ganhou o disfarce de Varjão. Esse espaço é como se fosse a extensão das personagens e de suas tendências, pois os dramas no campo tendem a repetir-se, devido à própria imutabilidade da paisagem e das estruturas ali existentes. O núcleo básico dos conflitos gira entre criadas que brigam, a viúva que traz o equilíbrio, Ieda, a granfina, tentando incesto com os sobrinhos (tabu do incesto), Joaquim Lemes, confrontante castigado pelo filho de Morena e a entrada de Maria para o convento pela magoa e desilusão amorosas.
           Alcides soube que Ada Curado estava escrevendo esse romance e opôs-se veementemente, argumentando que a família ficaria à mostra. Foram dias difíceis entre ambas. Com o tempo o mal-estar desfez-se.
          Há páginas com temas populares e do folclore religioso (literatura oral), como a Festa do Divino, a Congada, as Cavalhadas – além do curandeirismo, superstições e crendices: 

.....................................Às três horas desse mesmo dia, as mulheres convidadas apareceram no Varjão, cada uma carregando uma vasilha. Morena mandou que elas as enchessem de água do Corguinho e em procissão puseram-se a caminho. Explicou ao marido que a olhava, admirando:
Vamos rezando até o cruzeiro do morro e lá jogamos a água nos pés da cruz. Você vai ver. É coisa certa. Bom será se não chegarmos aqui ensopadas.
Dito e feito. Logo mais, quando a noite começou a engolir o dia, a chuva desceu pesada, boa, encharcando a terra, encorpando o Salobro e o Corguinho. (p. 58). 

*  *  * 

Parece que vou lhe dar outro filho...
        
Ora!! Quem bom!!
         
Tomando a mulher nos braços e erguendo-a, Luís rodou com ela pela cozinha, dizendo satisfeito:
        
Em troca da boa nova, vou levar você com a ninhada pra rua. Vamos assisti a festa do Divino. Fui convidado a          toma parte nas cavalhadas. Ficamos por lá um mês e você descansa disto aqui (p. 49). 

*  *  * 

Vos salve esta linda flor – balançaram as bandeiras –

 

Também feita neste ato.

O Divino tá dispidindo,

Dispidindo por esse ano.

 

Que veio fazer visita,

Acompanhado dos folião,

Fazendo cantoria

De sua obrigação.

 

Concluindo esses cantos,

Fazendo sinal da cruiz,

Padre, Fio, Espírito Santo.

Para sempre, amém Jesuis.

 

Ieda perguntou a Morena:

Que significa aquele homem vestido de túnica branca e vermelha segurando a bandeira grande?
É o Imperador. O chefe da festa. Foi ele quem escolheu os foliões que saíram colhendo as esmolas pelas fazendas.
− Quem o escolheu para Imperador?
− Caiu-lhe por sorte. Hoje, último dia da novena, haverá o sorteio e então já saberemos quem será Imperador do ano que vem. E o que for eleito, por sua vez já escolherá seus foliões (p. 153). 


          Tudo isso a autora transpôs de suas andanças com o major, delegado e, finalmente, Coronel Gentil – pelo interior de Goiás e, também, das temporadas que passavam na fazenda em Estreito.
           Luís Carlos Prestes está nos primeiros sinais que apontam para a “encruzilhada” da vida de Ada Curado: seu casamento com o Coronel. E nesse romance algumas páginas nascem na Histórica, na realidade da Coluna Prestes, quando passou por nosso Estado e por Estreito:

 

− Não precisa arrecear de nada. Eles abusam é de gente simples. Comigo não vão mexê.
− Quando iremos?
− Vamo vê se dá pra sair depois de amanhã, muito cedo. Conforme meus cálculos, os revoltosos deve de passar por aqui por esses dez dias. Levo vocês e volto para esperar eles com calma. 

*  *  * 

Luis achava-se no Varjão de volta de Sant’Ana havia dois dias, quando um dos seus homens veio avisá-lo de que os revoltosos estavam arranchados na Tapera Grande. Ele armou seus camaradas e aguardou os acontecimentos.
         
O desleite no Varjão começava sempre às cinco horas da manhã. Luís ia laçar a segunda vaca, quando a estrada começou a ficar pintada de gente. Uns vinham a cavalo, outro de a pé. Seu coração bateu desordenado e sentiu-se aliviado por haver afastado a família. Observou um pouco os chegantes e depois prosseguiu no serviço como se nada houvesse.
         
Os homens detiveram-se no rancho. Desceu até ele um moço alto, magro, da pele morena, faces salientes, olhos pretos e brilhantes, que lhe falou (p. 46):

   ............................................................................................................................................................ 

− Quem é o senhor?
          − Luís Carlos Prestes. Chefe da turma.,
         
Luís Otávio encarou-o desconfiado, pensativo e por fim resolveu:
         
− Tá bem. Podem arranchar por aí à vontade.
         
Foi dizendo e voltando as costas para o chegante. Este pediu, delicado:
          
− O senhor terá um pouco de leite, carne, toucinho e arroz para vender?
          
Luís voltou-se para ele:
         
− Leite tenho pouco. Minha família não tá e eu soltei as vacas. Carne e toucinho tenho algum. O que tiver o           senhor leva. Arroz, só na casca (p. 47-8).

           Após serem vencidos em Catanduva (SP), 1925, os lideres tenentistas paulistas e gaúchos decidiram levar a revolução por todo o país, dando inicio à grande marcha da Coluna Prestes e visando a criar uma vanguarda de massas e derrubar o regime oligárquico. Diz Carlos Prestes que: 

O povo do interior via no governo federal, nos governos estaduais e municipais e nos grandes fazendeiros os seus inimigos e percebia que todos eles lutavam contra nós (23: p. 87).

          Entretanto a Coluna não chegou a abalar a dominação coronelista, devido à pouca receptividade da população interiorana, temerosa de romper laços de lealdade, familiares, de compadrio e de dependência econômica.
          Assim, a “missão esclarecedora” (1925/1927), ao passar por Goiás, não deixou ideias, apenas o campo “estreladinho de bosta”: 

No outro dia, quando o sol começou a esquentar, um fedor danado descia até a casa do Varjão. Luís mandou Dito ver se descobria de onde provinha. Andando pela racharia dos revoltosos, com cara de nojo, Dito voltou dizendo:
Chi, patrão!! O campo tá estreladinho de bosta! (p. 48).


3.3. Nego rei (contos, 1966)


         
Os “estímulos” externos da autora são variados no percurso de sua obra. No conto inicial que dá título ao livro a raça negra é vista humanamente, como personagem forte e não apenas como tema folclórico (o que ocorre em Morena) – talvez porque na época Pelé fosse manchete no mundo. Uma forma de homenagem à sua raça:

 

Pra quê levar a menina? Ora!! Então o dinheiro quem ganhava não era ela? Foi preciso sofrer bastante para ir aprendendo muito da vida. Pra quê levar a Neuzinha! Pra ir ensinando a ela que neste mundo não é só branco que é gente! Nego não era Rei? Rei do futebol mais era! O mundo inteiro não vivia encantado com ele? Nego bonito, cheio de força, ágil como um gato!! Neuzinha precisava ver esse Nego de perto pra ir aprendendo a dar valor na sua raça.”
          
Na pressa de caminhar, ia arrastando a menina. Atolando o sapato branco na poeira, encheu-se de ojeriza:
          
“Não pudera tomar condução, porque o dinheiro mal chegou para as entradas. Casar com branco e depois ser cachorro dele? Trabalhar como burro pra sustentar casa, filhos, marido?? Qual! Antes tivesse casado mesmo com um escurinho. Com Neusa tinha que ser diferente. Teria que casar era com um da sua raça (p. 13-4)”.

          Benedita, a mãe de Neuza, era lavadeira da autora-narradora e que havia se casado com um “esbranquicento duma figa por desejar ter filhos branquinhos e eles todos evinham saindo escuros. Raça danada de forte essa” (6: p. 12). Neuza, a filha, proveio de uma menina que Ada conheceu em Pedregulhos – SP, raspando-se com um caco de telha para ficar branca e que muito a comoveu; apesar de sua mãe, Dona Josefina, ser extremamente racista (10: Entrevista):

 

Notando o braço da menina todo ralado, quase sangrento, passou da ira à preocupação indagando a filha:

Você caiu?!

A pequena sacudiu a cabeça em negativa:

Então o que qui foi isso?!!

Neuza não deu resposta. A mãe engrossou a fala:

Diz o que qui foi sinão apanha aqui mesmo!!!

A pequena respondeu baixinho, como se estivesse cansada:

Esfreguei com um caco de telha...

Está ficando louca? Pra quê isso?! – Benedita sacudiu a menina e ergueu a mão em ameaça: fala ou apanha...

Procurando sufocar os soluções, Neuzinho respondeu:

Queria ver se raspando, a pele da gente ficava branquinha...

A pequena agora chorava. Benedita suspirou comprido, pensando:

“Qual! Nego traz essa bobagem é no sangue! Só Deus, assim mesmo com muito jeito, talvez conseguisse           consertar essa estultície” (p. 15). 

3.4. Paredes agressivas (romance, 1977) 

           É uma espécie de romance-reportagem que reedita a violência do hoje que rouba o direito ao sonho; que reedita o colapso do Estado oligárquico, passando pelo populismo (1930-1937), até chegar à luta entre o nacionalismo e o processo de internacionalização do Brasil (1945-1954) e finalizar, encerrar a obra com a carta-testemento de Getúlio Vargas.
           “A história vivida e sofrida pela multidão de leitores está sempre presente, no direito ou no avesso do texto” (14: p. 46). E Ada Curado constitui-se numa “autoridade” feminina dentro do grupo de escritor que denuncia as “paredes agressivas”, o Poder do Estado através da História – e o Poder do indivíduo com relação à sua família, criados ou subordinados: 

..................................Ana Maria também procedera certo, escondendo o que realmente havia entre sua irmã e seu marido. Que adianta a gente sair por aí contando as intimidades, os podres? Para, quando muito, provocar piedade. De que adianta isso? 

Não tardou que as mulheres pegassem a falar sobre política. O desgovernamento total entre os partidos, nos últimos meses, vinha absorvendo as atenções: Era um assunto fascinante, comprido. 

Getúlio Vargas que em 1929 pela grande corrente política que se formara no país, com o nome da Aliança Liberal, pelo governo aberto que vinha exercendo na qualidade de Presidente do Rio Grande do Sul, seu estado natal, havia conquistado simpatias, teve seu nome indicado pelos companheiros de campanha para a Presidência da Republico. Realizada a eleição em 1º de março de 1930; foi vencido. Considerada por ele e seus companheiros ilegal a vitória do candidato da oposição, Dr. Washington Luiz, em 3 de outubro uma revolução foi declarada, tendo à frente do movimento Getúlio (p. 197). 

...........................A voz geral, porém, nestes últimos meses do ano de 1954, era de que a sua engrenagem política não mais agradava e, em qualquer momento, em qualquer lugar, por qualquer pessoa, o assunto era badalado e discutido. (p. 198). 

Não havia dúvidas que Getúlio havia sido imprudente. Desde a sua instalação no Catete, há três anos, seu governo vinha de crise em crise. Pretendendo criar companhias que pudessem desenvolver por conta própria as nossas matérias primas, com intuito de garantir a segurança da nossa economia, uma mensagem enviada ao Congresso, nesse sentido, desencadeara sobre ele ódios terríveis. A realização de tais empresas para muitos não convinha. Lutavam, pois, os magnatas, donos de várias indústrias, ao lado de alguns nacionalistas, apelidados pelas massas de entreguistas, para derrubar o projeto. Usavam como arma de ataque as mais baixas e sórdidas intrigas. Getúlio afirmava que ceder ao monopólio estrangeiro a exploração do nosso petróleo, das nossas minas e energias, não seria o caminho certo para acudir, como pretendiam alguns, a nossa economia. Seria, isto sim, levar de vez a Pátria à escravatura; portanto, embora atacado por todos os lados, corajosamente, o gauchão resistia.**

Suspirando afadigado por pensar horas após horas sobre tudo isto, Felipe sentou-se junto à escrivaninha. Abriu o Jornal da Manhã, acabado de chegar, esquecido de que o cheiro de tinta fresca provocava-lhe espirros e arrepios. Leu, minuciosamente cada artigo, receando encontrar alguma nota desairosa com relação ao amigo. Sobressaltou-se ao deparar, em uma das páginas, uma nota que dizia: “O Jornalista Carlos Lacerda fará hoje, às vinte horas, no salão Municipal, à rua Major Mesquita nº. 120, uma conferência relacionada à política vergonhosa do atual Presidente da República”. Após ler, perdendo completamente a serenidade, solicitou à irmã, que ali tricotava, o deixasse sozinho. Assim ela se afastou, trêmulo e agitado, fez uma ligação telefônica. Após ouvir o “alô” do outro lado do fio, em voz baixa falou:

            - Soares, aqui é Felipe. Teremos hoje boa oportunidade (...)

** Fonte Informativa sobre a vida política de Getúlio: O que sabe você sobre o Petróleo? – de Gondim da Fonseca, (p. 199).


           Para Antônio Gaççado (Revista Isto é, 319: 62):


          “No país sem poetas épicos, Vargas foi o Homero de si mesmo”.

           O romance fecha com a transcrição da carta-testamento de Getúlio, na página 212.
           Mas o que é democracia? Como combinar demos (povo) e kratein (exercer o poder) – sem que o sentido de cada componente seja esvaziado? Um problema de difícil solução, pois “nossa época só nos permite escolher entre oligarquias menos ruins” (15: p. 94). Assim, a função do escritor não seria apenas plantar esperança, mas principalmente apontar as falhas, os problemas (ainda que em romance-reportagem) que ele julga mal situados ou mal resolvidos em seu universo, em sua realidade histórica e social. 

3.5 Figurões (contos e crônicas, 1985)

           Nessa obra temos o conto antológico “O burro do senhor vigário” (p. 61) e muitos outros. Também crônicas, como “Vovó bobó” (p. 119) que tem “os primeiros suspiros” na gravidez e chegada de seu primeiro neto:

 

(...) Que se danem “sabinos e godois”.
         
Aqueles por exigirem do escritor uma literatura que se enquadre à sua exclusiva maneira de sentir. Estes, por desejarem que todas e qualquer criação literária, por pequena que seja, venha despertar no leitor, não o enternecimento, mas, sim, reação, revolta, ódio, rancor.
          
Contragosto acato a exigência dos maiores, porém, protegida pela afirmativa de que “ninguém é dono da verdade”, desato as peias de meu parco saber e, feliz da vida, ponho-me por aí. Ademais, ler é coisa que depende da exclusiva vontade de cada um. Podemos escolher os preferidos e, ecco fata la questione, no sábio dizer de meus pais.           Meu neto, além de possuir todas as qualidades indispensáveis às crianças normais, tem muito mais. Cabelos pretos encaracolados. Olhar (...) – p. 119. 


           Já o conto “O homem de agora” (p. 77) teve o fato real transposto de Pedregulhos – SP para a Rua 18, onde residia a autora, e as pessoas nele envolvidas foram transvestidas em universitários vizinhos e outros, criados a partir de material impresso ou do cotidiano da Capital. “Garanto-lhe que todos esses jovens já morreram... faz muito tempo... Eu era garota lá em Pedregulhos”. (10: Entrevista).
           Uma estudante se engravidara de um homem casado e iria extrair a criança em São Paulo, quando cada um de seus maiores amigos se oferecem para casar “de papel passado”: 

Não tem mais nem menos. Não quero que vá embora e muito menos consinto que cometa um sacrilégio.

O silêncio desceu pesado, pela esperança embalado. Pedro com valentia:

− Você está indecisa percebo e se me preferir, também me proponho a assumir a paternidade. Com o casamento é claro.

− Não brinca!

− Casamento no cartório e no padre.

− Quer dizer que eu não preciso fugir? Ir embora?

− Não. Escolhe qual dos dois prefere e assunto encerrado. 

Rubens interpondo-se:

− Espera lá! Também quero entrar na jogada! – e, dirigindo-se à moça: − Se me aceitar, posso perfeitamente assumir a paternidade.

Das Graças sorrindo e juntando as mãos cheia de pasmo:

− Verdade?!

− Verdade.

− Ora nunca em minha vida podia imaginar que por vocês fosse tão estimada! Entou orgulhosa e feliz por desfrutar de tão especiais amizades. Como gosto dos três, iremos tirar sorte com os nomes certo? (p. 87).

 O índio de Aruanã, perdido em seu habitat, também é “estimulo externo” para a ficção de Ada:

 

Goiânia é como um gigante. Assusta! Seus quase um milhão de habitantes em maioria não se dão conta de que sua força advém da unidade de suas forças. É o jogo. Indiferentes, passam pelas ruas uns pelos outros sem cortesia. É o jogo. Os cumprimentos são raros. Acontecem de vez em quando. Dias há que não acontecem. O frear dos carros, o espirrar, tosse, dá um grito, uma gargalhada, enfim, qualquer ruído faz parte do seu todo.

Na Rua 18, centro, porém, as coisas são diferentes. Seus moradores vivem ali há muito tempo. Odilon, Pedro, Rubens, Maria das Graças, cresceram juntos. Por isso se amam. É sobre isso que Odilon pensa no momento. Seis índios, caminhando em fila, passam. Calça de brim azul marinho camisa axadrezada. Onde pisa o ponteiro, os outros também pisam. Uma graça. Pedro indaga a Odilon:

Carajás ou Xavantes?

Carajás.

Como sabe?

Pelo feitio do rosto.Pedro grita:

Ei, compadre!

(p. 82)

...................................................................................... 

Vieram fazer o que na cidade?

Nós vem pedir auxílio pra Papai Grande.

Quem é Papai Grande?

O Chefe de nois todo. – Sorrindo com a boca, com os olhos, o índio sem mais nem menos indaga:

Moço branco, bonito, tem fumo pra dá pra gente?

Não.

Tem cachaça?

Não.

Tem dinheiro?

Não.

Então pra que chamou?

(p. 83)

 

O elemento indígena, suas lendas e rituais não foram esquecidos:

 

Por que ainda não foram para a Universidade?

O filho responde:

Estamos esperando a Das Graças

Não vão chegar atrasados?

Ainda está sobrando tempo.

Dona Geny dá meia volta e com pouco retorna com um prato contendo mandioca frita. Os rapazes se regalam. Enquanto mastigam, Odilon vai associando o petisco à figura e à lenda dos índios: Carajás e Xavantes travaram luta renhida. Os Carajás tiveram todos os seus guerreiros mortos. Esposas, mães, irmãs e filhos, depois de sepultá-los condignamente, por dias e noites regaram suas covas com pranto sentido, pois que além da tristeza de perderem todos os seus homens, temiam que sem braços fortes para buscar alimento o resto da tribo sucumbisse. Após muitos dias de vigília e lamento vencidas pelo cansaço, as mulheres adormeceram e, quando pela manhã despertaram, em cada sepultura florescia um pé de mandioca. A índia mãe, depois de invocar os seus deuses, mandou que se arrancasse um pé da planta desconhecida e, ao ver sua raiz tuberosa, ordenou lhe tirassem a casca e a cozinhassem (p. 84).

 

5 Sua poesia: Acalanto (1991)

 

O exercício metalingüístico é uma atitude reflexiva do poeta ou do poema voltado sobre si mesmo, enquanto linguagem, invenção ou processo: importa mais o fazer, o sentir no momento exato da urgência poética que os conteúdos de vida que o texto possa revelar.

Mas, o que é ser poeta? É crer e permanecer na História:

 

Prognóstico

 

Poeta,

Creia,

Nem tudo está perdido,

Porque,

Felizmente,

Sobretudo o mais,

O seu ideal,

A muitos outros ainda comove,

Demove

e

Predomina (p. 11).

 

Lírico

A morte levou a poeta,

porém

os verbos e os ensinamentos de amor

por ela deixados

na História ficaram (p. 52).

 

O que é ser poeta? É ser senhor da sensibilidade e amar a palavra:

 

Ao amor

.................................................

Muito amo as criaturas, porém,

sobretudo eu amo o poeta,

por ser ele o senhor da sensibilidade,

da emoção e do sonho.

                                                                               ..........................................................

Enfim,

eu amo a palavra por permitir-me dizer ela

o quanto eu amo (p. 39). 


          A poesia está no reino da palavra esperando uma forma definida no espaço da página. Mas o que é a palavra? 

 

Ode à palavra 

O tempo jamais conseguirá desfazer
a essência de tua fortaleza,
          
já que és do cosmo absoluto

e
da troca de idéias entre os homens,
         
o fundamento.
                
E, ainda que,
                     
bastando-se,
                
e,
                    
infinitamente sendo tu,
                        
 realidade,
                                  verdade,
                                        ciência,
                                            alma,
                                                  corpo,
                                                           dogma,
                                                                mito,
                e,
                    não tendo infinito,
                    ocupas lugar primeiro,
                              na VIDA (p. 45). 


           O eu poético e a consciência social refletem-se no poema como num espelho. O poeta dirige-se para dentro de seu mundo interior, para os conteúdos do “eu-profundo”, sua “casa”, à procura daquilo que o revela. “A atitude do poeta é pois uma atitude de debruçamento sobre si próprio...” (18:84).
E o eu do poeta (sujeito) se manifesta por meio do eu lírico (objeto) e sua “casa” pode ser seu próprio corpo que tem as janelas abertas para o mundo:

                                                             Minha casa 

Minha casa hoje,
tem janelas abertas para o nascente,
para o poente,
e,
também para a larga estrada,
aquela que conduz ao limite,
pela frente.
Minha casa solitária,
Branca e alta,
embora esteja plantada em estéril campo,
é toda circundada de verde, paz e silêncio.
Nova e antiga casa,
onde o Amor e a Esperança,
ainda são uma constante.
(p. 50) 


           Agora a poeta sai do eu-profundo para o eu-social, para a superfície; do poema “doméstico” para o poema livre, que chega às ruas, às consciências e à realidade social do nosso tempo. Infelizmente “a poesia de denúncia quase baniu a poesia de celebração: é que hoje há muito a denunciar e quase nada a celebrar” (16: p. 83):

                                                   
                                                  Consciência

.........................................................
Neste exato momento, porém,
sei e sinto também,
que apesar de ter sido simples criatura,
das que cuidam bem da casa,
dos filhos, das amizades e do marido,
e de contar estórias para outros lerem,
nada fiz de especial,
assim, como, por exemplo,
um feito patriótico.
Isso, porém, no momento,
pouco importa.
O que está mesmo pra valer incomodando
é não saber eu, quando é que nossos políticos,
deputados, senadores e ministros
irão descobrir a maneira certa,
para libertarem a nossa gentil Pátria amada Brasil
do julgo norte-americano (9: p. 51).

 

Conclusão
           

          Há mesmo casos em que a biografia do autor, suas vivências e seu tempo servem de “estímulos” para sua criação literária: em O sonho do pracinha (1954) o motivo foi o medo, a possibilidade de ver o marido convocado para a Guerra, dentre outros; em Morena (1958) – romance que tem o nome da protagonista (na vida real Alcides) e cuja ação ocorre em Varjão (nome real Estreito), num contexto de Revolução e de crendices, vivenciado pela autora, e transposto, recriado para o texto; em Nego rei (1966), cujas personagens (Benedita e Neuza) e ambiente saíram do cotidiano de Ada e das glórias de Pelé; Paredes agressivas (1977) foi transportado dos senta-levanta de uma dona de casa que se liberta escrevendo e tendo como “pano de fundo” o período getulista; Figurões (1985) tem pretextos familiares (o neto recém-nascido) e os que “arrotam grosso” na comunidade (10: Entrevista), além de acontecimentos de Pedregulhos-SP e de Goiânia-GO, transpostos para diversos contos, muitas vezes complementados com elementos da cultura negra ou indígena, presentes em nosso Estado.
          
Finalmente, em Acalanto (1991) vários poemas apontam os momentos de maior comoção, do eu-profundo da poeta e do eu-social da mulher Ada, preocupada com a falta com a fala de credibilidade política e com o “jugo norte-americano”. É a mulher de Goiás encontrando sua própria voz, sua própria consciência, nessa trajetória, nem que seja

 

“metamorfoseada de colibri, de lagartixa, de sabiá e de borboleta” (9: p. 51).


Bibliografia

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5. ___________. Morena (romance). São Paulo: Revista dos Tribunais, 1958.
6. ___________. Nego rei (contos). Goiânia: Brasil Central, 1966.
7. ___________. Paredes agressivas (romance). Goiânia: Oriente, 1977.
8. ___________. Figurões (contos e crônicas). Goiânia: O popular, 1985.
9. ___________. Acalanto (poemas). Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 1991.
10. __________. A autora. Entrevista concedida a Ercilia Macedo, Goiânia: 17 nov. 1991. 17:00/18:00h.
11. DEMO, Pedro. Introdução à metodologia da ciência. São Paulo: Atlas, 1983.
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13. GONZALES, Horácio. O que são os intelectuais. São Paulo: Brasiliense, 1981.
14. LAJOLO, Marisa. O que é literatura. São Paulo: Brasiliense, 1990.
15. LEBRUN, G. O que é poder. São Paulo: Abril Cultural/Brasiliense, 1984.
16. LYRA, Pedro. Conceito de poesia. São Paulo: Ática, 1986.
17 MICELI, Sergio. Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920 – 1945). São Paulo: Difel [xérox, s.d.].
18. MOISÉS, Massaud. A criação literária: poesia. 11. ed. São Paulo: Cultrix, 1989.
19. PASSOS, Elder Camargo de. História de Goiás. Goiânia: Departamento Estadual de Cultura, /1970/.
20. RAMOS, Victor de Carvalho. Letras goianas: esboço histórico. Goiânia: Departamento Estadual e Cultura, 1968.
21. REZENDE, Antônio Paulo. História do movimento operário no Brasil. 2. ed. São Paulo: Ática. 1990.
22. RICCIARDI, Giovanni. Anverso & reverso. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, ICHL II, Anotações de curso, setembro de 1991.
23. SODRÉ, Nelson Werneck. A Coluna Prestes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
24. TELES, Gilberto Mendonça. O conto brasileiro em Goiás. Goiânia: Departamento Estadual de Cultura, 1969.
25. _________. A poesia em Goiás: estudo, antologia. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 1964.








Ercília Macedo-Eckel é membro da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, sócia da União Brasileira de Escritores – GO e da Academia Petropolitana de Letras – RJ. Mestra em Letras pela UFG.

 


 

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