| O
prazer da leitura irônica em
Mário
Quintana
"O
poeta é o ironista presente em tudo, contradizendo
tudo, menos a si mesmo, com aquele risinho irreversível
que rompe o momento para levar a realidade do dia-a-dia
para dentro do poema". (A ironia em Mário
Quintana, p. 65).
O
que é estar-no-mundo (e como dizer/ler isto
poeticamente)?
O
que é poeta (irônico)?
O
que é poema?
O
que é (quem é) leitor?
1_-
Estar-no-mundo — a chave
para a compreensão do mecanismo de ironia
situacional quintaniana. O que é estar no
mundo? O que é ironia? O estar-no-mundo articulado
à ironia apresenta-se sob formas variadas
e só pode ser compreendido através
de condutas singulares ou equívocas —
como as do ser em relação ao mundo.
A nostalgia do passado, a visão do futuro
procuram um espaço (outro) que se oponha
ao vazio de um mundo moderno, robotizado, sem Deus.
objeto de uma ironia amarga.
O
primeiro conceito de ironia vem dos gregos (ironia
socrática): modo de interrogação
utilizado para levar os sofistas a contradições
sucessivas, convencendo-os, assim, de seus erros.
O método socrático consiste em definir
rigorosamente o que se fala. A ironia redefinida
é o que permite a percepção
de elementos opostos ou a "troca incessante
e autocriadora de dois pensamentos em conflito"
(l: p.27).
“Em
meio ao turbilhão do mundo
O
poeta reza sem fé.” (Quintana, em Parêntesis)
O
prazer da leitura irônica está na relação
adequada entre ironista intérprete, interlocutor
ou alocutário, restabelecendo-se a congruência
da mensagem e produzindo uma sensação
de cumplicidade agradável. E o leitor não
pode ser ingênuo, principalmente se o autor
for um irônico que disfarça os sinais
de sua ironia:
Compensação:
E quando o trem passa por esses ranchinhos à
beira da estrada a gente pensa que é ali
que mora a felicidade...
Quintana:
Para
Norman D. KONOX (1: p. 37-8), a ironia pode ser
classificada em cinco tipos fundamentais:
1°)
Ironia cômica — com final feliz, a vítima
triunfa de modo imprevisível, ou a injúria
aparente se transforma em elogio.
2°)
Ironia satírica — o mundo sanciona
fracasso ou desaprovação de uma vítima
antipática, objeto de escárnio.
3º)
Ironia trágica — uma vítima
simpática assiste ao próprio fracasso.
4º)
Ironia niilista — o deslocamento satírico
neutraliza ou domina a simpatia, mas permanece um
grau de identificação (o autor e o
público partilham a situação
da vítima).
5°)
Ironia paradoxal — tudo é relativo
à realidade; por um lado reflete os valores
humanos e por outro não: o autor e o público
alternam identificação e distanciamento;
o triunfo cômico ou o fracasso trágico
se neutralizam ou a norma sarcástica varia
constantemente.
Já
Linda HUTCHEON (id. p. 45-7) examina detalhadamente
a interação da ironia verbal enquanto
tropo do discurso paródico e satírico:
"A paródia não é um tropo
como a ironia: ela se define normalmente como modalidade
do cânone de intertextualidade (...) é
uma síntese bitextual que funciona sempre
de modo paradoxal, isto é, a fim de marcar
uma transgressão de doxa literária.
A diferença entre paródia e sátira
se situa a nível de alvo". A paródia
só pode ser alvo de um texto ou convenções
literárias. A sátira objetiva corrigir
certos vícios ou incapacidades do comportamento
humano, ridicularizando-os.
Portanto,
não se deve ofuscar as diferenças
entre a ironia e os gêneros, sátira
e paródia. A ironia é um elemento
retórico, enquanto a paródia e a sátira
são gêneros literários.
Outra
forma de dizer o estar-no-mundo é o poema
em prosa, que trouxe uma contribuição
notável para a moderna poesia brasileira
(início do processo de desagregação
da linguagem poética para chegar à
palavra-frase, ao silêncio verbal de certos
poemas concretos, ou dos poemas-processo). Esse
é “um traço especial da poesia
modernista, no Rio Grande do Sul”: produto
do momento em que a linguagem literária,
sentido-se ineficaz, começa a situar-se na
zona do silencio, na direção daquele
grau zero da escritura, de que fala Roland Barthes
(5: p. 241-2).
Mário Quintana buscou na tradição
bíblica e popular dos provérbios (formas
simples cristalizada, como em Espelho mágico)
as formas para muitos de seus textos, de seus poemas
em prosa – sabendo ele que é
do contato da literatura oral (formas simples) com
a literatura escrita (formas cultas) que se nutre
a (re)criação literária.
E
o estar-no-mundo (espaço ou à procura
dele), articulando à ironia, apresenta-se
sob as mais variadas formas.
2
– O poeta (irônico) – tem uma
atenção especial com as palavras e
a matéria de seus poemas, chegando a dedicar-lhes
textos explicativos:
a)
O poeta é um alquimista,
mistura tudo, as coisas mais diversas, os fatos
mais incríveis, com a habilidade de um mago.
b)
O poeta é um operário, opera, labora
a palavra, labuta com a “ingrata linguagem
alheia...” (Apontamentos de história
sobrenatural, p. 163).
c)
O poeta um nobre animal em sua
fina elegância, na força contida, mas
... – sempre um cavalo de circo obrigado a
realizar as evoluções e os movimentos
para que foi adestrado (poeta tolhido em sua liberdade).
d)
O poeta é um mágico,
com uma vara de condão, transformando em
beleza e amor as coisas mais comezinhas e vulgares
(“tralalá”) do mundo e do dia-a-dia
e pormenorizando as coisas simples com seu risinho
(ironia) de criança ou de adolescente.
Aliás, o poeta está entre as crianças
e os loucos.
e)
O poeta é um arqueólogo
cavucando antiguidades, fósseis e seres milenares
(“Eu fiz um poema” – Esconderijos
do tempo, p. 17).
“Eu sou como um arqueólogo decifrando
as cinzas de uma cidade morta”.
Porque o sopro do poeta revitaliza a energia de
todas as coisas e investiga a origem da vida, faz
ressurgir o mistério dos seres.
“Esses pobres homens...” – é
a ironia, o risinho disfarçado humorizando
a triste situação do poeta que não
tem a habilidade para cavar, exigida a um arqueólogo.
f)
O poeta é um unificador das
coisas (“A rua do poeta”: A
vaca e o hipogrifo, p. 41) – entrelaça
o material e o espiritual, o efêmero e o eterno
em seu Reino e ilimitado.
g)
O poeta é um eterno insatisfeito,
um artífice da poesia – nunca está
contente com sua obra e sempre faz retoques para
combater a atual crise de expressão e do
pensamento.
Deus criou o mundo e viu que era bom, mas o poeta
que pensa o mesmo de seus poemas e medíocre.
h)
O poeta é um habitante do silêncio,
um beneditino que se esconde (no silêncio)
para burilar a palavra (id. p. 55, “O silêncio”
– Esconderijos do tempo,
p. 7).
O silêncio é profundidade, aconchego
no amor, palácio da poesia. O silêncio
é a mansão do belo, a vida e a libertação
da palavra. O poeta só é verdadeiramente
criador, e recriador, quando vive em silêncio...
i)
O poeta é um escravo da
palavra, sofre uma dor imensa, tem uma tarefa árdua
e divina:
“Qualquer poeta sabe como dói, como
é preciso virar a alma pelo avesso para fazer
um verdadeiro poema”. (A vaca e o
hipogrifo, p. 22).
j)
O poeta é um habitante de outros
mundos (sideral), de planetas misteriosos.
É contemplador das lonjuras do espaço.
“Há
muito que os marcianos invadiram o mundo
são os poetas” (id. p. 95).
O
poeta não tem nada a ver com as coisas da
Terra. É um estrangeiro e por isso vê
diferente, (re)descobre. A Terra só é
compreendida por esse alguém que veio de
longe, fora do seu habitat.
O
poeta é um marciano (que faz o leitor pensar
e) “que invade o mundo dos realismos e dos
concretismos fáceis...” (1: p. 57)
e revela as coisas ocultas desse mundo, com liberdade
de criança e visão de louco.
3
– O poema – tem as
mais variadas formas na metalinguagem quintaniana.
a)
o poema é como um pássaro, sugere
vôo insaciável de infinito, de espaço
ilimitados... pousa até num livro e levanta-se
na fantasia do leitor. Mas “é preciso
esperá-lo com paciência e silenciosamente”
(A vaca e o hipogrifo, p. 108),
com vagar e muito tempo.
O
poema sugere prisão, na grade da palavra
– “a ingrata linguagem... ingrata e
impura linguagem”.
b)
O poema é como um girassol
de Van Gogh (expressionista), como um copo
de chope (corriqueiro no mármore
de um bar) e claro como um adro
(pátio, vitral de igreja) alto e belo –
numa composição dispare, antagônica
(três coisas sem relação entre
si; “Eu fiz um poema” – Esconderijos
do tempo, p. 17).
“...a Poesia faz uma coisa que parece que
nada tem a ver com os ingredientes mas que tem por
isso mesmo um sabor total: eternamente esse gosto
de nunca e de sempre” (A vaca e o
hipogrifo, p. 92).
c)
O poema e uma nau de descobrimento
– navega por ondas, tormentas até encontrar
a terra do sonho. Descobre tantas belezas, tantas
realidades mas "que não sejam concretistas"
(id. p. 85), pois o concretismo e o esvaziamento
da poesia reduzida a uma espécie de quebra-cabeça
visual.
d)
O poema é uma bola de cristal
(esfinge) - que leva para o mundo dos adivinhos,
para a magia da sorte. Deve ser interpretado, virado
para o avesso e cuja transparência
nem sempre está ao alcance de todos. Contradição:
"Um bom poema é aquele que nos dá
a impressão de que está lendo a gente...
e não a gente lendo ele" (id. p. 64).
É o poema ou "a gente" que se parece
com a esfinge? Quem (o que) deve
ser interpretado?
Porque
"o poema ultrapassa as fronteiras da existência
e se projeta na eternidade do Ser, no mistério
do Eterno Silêncio, onde a palavra tem a sua
morada" (1: p. 60).
4
– O leitor – é
alguém que tem o vício da leitura:
é o descobridor de novos
mundos, um indagador inquieto.
Esse "vício" exige concentração,
contemplação de imagens "irredutíveis"
espalhadas no texto – porque não poderão
ser concentradas em livros de quadrinhos (“A
poesia é irredutível" –
A vaca e o hipogrifo, p. 32).
a)
O leitor ingênuo ou robô (intelectualizado)
não sabe decifrar, responder, meditar, ter
fome de mistério "que nunca sacia..."
O
leitor inumano nada vê. Ou vê tudo pelo
ângulo da razão, da tecnologia e da
autópsia (o poema em partes, a estrutura),
nunca vê a poesia como substância viva.
com emoção e sentimento O leitor ingênuo
não entende o poema e fica do outro lado
da bola de cristal.
b)
O leitor ideal é um admirador
c quanto menos entende mais admira {id. p. 151),
porque admirar é ter o coração
aberto à beleza.
É
um grande silencioso que espreita, que escuta o
silêncio das coisas escondidas e inacessíveis
(no ruído).
Tem
comunhão profunda com o texto, com o poeta
– sem intromissão de terceiros, no
grande silêncio (id. p. 70), como o daquele
em que nasceu a palavra no grande dia, na primeira
manhã do mundo.
"Porque
as máquinas um dia viram sucata. A poesia,
nunca" (id p. 58).
A
poesia subsistirá para sempre pelos poetas
e pelos leitores. Pós-graduados ou não.
Desde que humanos. Muito humanos!
Finalizando:
1)
Quintana estabeleceu uma dialética interiorizada
cm sua própria perspectiva lírica
entre o homem e o espaço (estar-no-mundo),
mas sem descrever explicitamente nem o homem nem
o espaço (silêncio irônico),
permitindo evocar um e outro.
2)
A ironia do estar-no-mundo se opera por uma relação
de euforia e de disforia engendrada pelo contato
do homem com o espaço urbano e por um jogo
de contradições que definem a instabilidade
do sujeito.
3)
Nem o enunciador nem o leitor se confundem como
sujeito do enunciado. Há entre o texto e
o leitor uma distância estética, uma
área de tensão, proporcionando um
prazer diverso do provocado pela identificação
com o texto, uma simpatia crítica pelo que
é apresentado, uma focalização
irônica do verdadeiro objeto visado pelo texto.
4)
A justaposição de conteúdos
semânticos contraditórios é
a base da ironia do discurso quintaniano, veiculador
de conteúdos sérios e de caráter
filosófico. Não reprova nem endossa.
Adota o tom neutro, "remetendo o leitor a um
estado de mundo captado pela linguagem" (l:
p. 75).
Bibliografia
1. CLEMENTE, Elvo Ir. et. alii.
A ironia em Mário Quintana: teoria
e prática. Porto Alegre: Acadêmica/Letras
de Hoje, 1983,
2. QUINTANA, Mário. Os melhores poemas
de Mário Quintana. 4. ed, São
Paulo: Global, 1988.
3.______. A vaca e o hipogrifo.
3. ed. Porto Alegre: RBS/Globo, 1979.
4.______. Esconderijos do tempo.
Porto Alegre, L&PM, 1980.
5. TELES, Gilberto Mendonça. Retórica
do silêncio I. 2. ed. Rio de Janeiro:
José Olympio, 1989.
Goiânia, 1990.
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