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banquete
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Ercília
Macedo- Eckel
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O feio está em completa
desarmonia com o divino.
Diotima- Personagem de Platão.
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Enviei
previamente a garrafa de champanhe de marca padronizada
para a sessão comemorativa, conforme cartão-convite.
A bebida deveria estar gelada na hora da festa.
Fui pontual. Não cheguei meia hora antes,
nem 15 minutos depois do horário marcado.
A presidente tomou seu lugar à mesa e abriu
os festejos com as seguintes palavras:
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Antigamente,quando havia pessoas de fora, a mesa
de refeição era ocupada apenas por
homens. A dona da casa e outras mulheres se mantinham
à distância. Nas cidades maiores, porém,
reuniam-se as famílias, fazia-se a oração
de agradecimento, seguida de silêncio, quebrado
apenas pelo movimento dos talheres nos pratos e
travessas – ou por algum assunto respeitoso.
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Sra. presidente Helena Schmidt disse bem, no começo
de sua fala: Antigamente, antes de aparecer
o garfo no séc.XVIII. Porque nessa mesa somos
todas mulheres, servidas por garçons orientados
por exímio chefe de cozinha; fazemos uso
de garfos de prata, brilhantes de sabedoria e de
intelectualidade. Sem (re)banhos Kings ou Queens,
aceitos por alguns colecionadores de pouca informação
e mediano saber.
_
Sra. Argêntea, suas mãos começaram
a escurecer, estão mareando com esse discurso.
Interrompeu a Executiva que não gosta de
ser contradita, ao exibir sua pseudocompetência
e que, involuntariamente, derramou sal sobre a toalha
da ceia. E, de imediato, foi acometida por uma crise
de soluços. Dra. Cury sugeriu-lhe prender
a respiração e gargarejar no lavabo.
Passado o quiproquó, sra. Argêntea
justificou seu marear:
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Deve haver conspiração contra mim
e, como nos contos tradicionais, minhas mãos
e, agora, meu garfo começaram a oxidar. Porém
não me sinto ameaçada. E, retirando
da bolsa um espelhinho em forma de coração,
acrescentou: Voltando esta face polida para mim,
meu corpo sairá da obscuridade, juntamente
com as pessoas e os objetos que me cercam.
Nesse
momento sra. Branca Pozzani entrega à presidente,
para ser desvendada entre fitas, uma peça
de porcelana legítima recém-chegada
de Paris. Gentileza da primeira dama Carla Bruni-Sarkozy.
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Mas o que é peça? O que é
porcelana legítima? Inquiriu sra.
Maria Porto Ferreira. Conhecida como Maria dos Peixinhos.
E completou: Intelectuais, pesquisadoras e comensais
de cultura! Em qualquer projeto é preciso
definir bem os termos do problema, saber o que
a coisa é realmente, para que as hipóteses
não sejam rejeitadas por causa da ambiguidade
de interpretação, inclusive por parte
da entidade que recebe tal projeto.
_
Sra. Maria Porto Ferreira, interrompeu viúva
Socrática Oxford: As coisas não
são. Esta peça branca de porcelana,
por exemplo, não é totalmente branca.
É quase branca. Tampouco é totalmente
porcelana. É quase porcelana. Tem na massa
de sua composição: 10% de argila ,
40% de caulim, 25%de feldspato e 25% de quartzo.
A seguir a viúva Oxford fez rápido
histórico da cerâmica no mundo, passando
pela China, países da Europa, até
chegar ao Brasil de nossos dias.
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Que quer dizer isso? Perguntou dra. Benedixt Cury.
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Creio estar preparada para lhe responder: Negamos
a brancura absoluta da porcelana e evidenciamos
a mistura de sua composição, as alterações
nos vernizes e nas cópias. De onde inferimos
que o ser verdadeiro não está nas
coisas, nas sombras, mas fora delas. Está
nas ideias, está dentro de mim e dentro de
todas nós. Está também no amor
espiritual e na beleza divina. Asseverou sra. Socrática
Oxford.
De
repente ouvem-se risadas, gargalhadas demolidoras,
fora dos padrões da civilidade e do bom senso.
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Aqui, nesta mesa, há duas comensais dadas
a esse péssimo comportamento. Isso não
convém a gente de nossa categoria e que se
serve em mesa vestida de linho português.
Pensou a flautista Lucy Zona D. e Silva, mas não
abriu a boca, nem fez gesto de desaprovação.
Outras mais que se sentiram atingidas com esse riso
exacerbado não reagiram a sério,
nem se denunciaram. Assim, todas nós naquele
momento aceitamos as gargalhadas como o
mais eloquente discurso. Posteriormente, porém,
não soubemos qualificá-lo. E cada
uma sugeria classificação diferente,
conforme sentira o riso: agressivo, vingativo, cínico,
crítico, etc. Ninguém se lembrou do
riso espontâneo.
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Vamos esquecer essas risadas demolidoras e voltar
ao diálogo sério. Intervém
sra. Diamond Oriente Nobre. E continuou: Exatamente
por esses nossos papos-cabeça e
essa nossa aparência (realidade encoberta)
é que nos veem sentadas na torre de marfim
do orgulho, do elitismo e do isolamento. Nos julgam
desvinculadas do mundo prático e do dia-a-dia
das pessoas comuns. Pensam que vivemos num espaço
metafísico de solidão artístico-literária.
Enganam-se. Temos bom gosto, apreciamos o belo,
é verdade; entretanto nos comunicamos leiga
e satisfatoriamente com quem está fora do
mundo acadêmico e intelectual. Não
vivemos isoladas do povo. Concluiu sra. Diamond.
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Convém destacar, ainda, que a cultura elitista
está banalizada nos meios de comunicação
de massa, inclusive na propaganda. Vejam, por exemplo,
o sorriso leve e misterioso de Mona Lisa, hoje desgastada,
sem aura. Leonardo da Vinci iria descabelar-se ao
ver sua tela recriada com bigode-de-arame pelas
ruas da cidade e nos cadernos escolares. É
amigas, não existe passe de mágica
capaz de transformar ignorância em cultura,
diria o artista plástico Enrico Bianco. Comenta
Narcisa Faiança.
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Ai! Exclama sra. Helena Schimidt. Acaba de cair
em meu colo uma gota escaldante. Veio da terrina
de cristal Saint-Louis, que está no centro
da mesa. Pode ser um sinal, minhas convidadas.
Terrina no francês antigo é graal.
E em torno dela nos assentamos nesta mesa para nos
alimentar. Não só materialmente, mas
sobretudo, espiritualmente. Como na Távola
Redonda, devemos buscar com entusiasmo nossa plenitude,
nosso tesouro interior, apesar da dura realidade
e da cegueira espiritual contra as quais lutamos.
Com essas palavras nossa presidente encerrou o banquete.
E, já se retirando da mesa, nos alertou sobre
a importância do escudo e da espada invisíveis,
dos quais não devemos nos afastar, nessa
comunidade de gêneros diferentes e de cultura
que banaliza e polui o senso estético.
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* *
Bebemos
pouco na solenidade. Algumas saíram dirigindo
seus próprios carros, outras se retiraram
ao lado de seus motoristas. Viúva Socrática
passou na livraria de sempre, outras foram ao shopping
ou ao cinema. Eu, por ser a 13ª senhora da
mesa, elegeram-me portadora da palavra das doze
Belas Acordadas. Então fui para casa rascunhar
esse texto. E repousei.
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