| Novilha
de raça e outros contos
Personagens femininas nos contos
de Lena Castello Branco
Ercília Macedo-Eckel
Dois
contos dos vinte e um que compõem o livro
em epígrafe (Kelps, 2009) datam de 1967:
“Novilha de raça” e “Duas
grandes graças” – e obtiveram,
respectivamente, 2º e 1º lugares em concursos
de contos promovidos pela UFG e UnB. E um terceiro,
“O muro”, obteve 2º lugar no concurso
de contos promovido pelo 1º Congresso Nacional
de Intelectuais, em Goiânia, 1954. Dessa forma,
a autora se integra nas grandes mudanças
ocorridas na segunda metade da década de
50 e, principalmente, nas de 60 e 70, em que as
escritoras nacionais e goianas estavam preocupadas
em resgatar a condição da mulher como
sujeito da história e como sujeito da literatura.
Agora,
Lena estréia como contista no recém-lançado
Novilha de raça e outros contos.
Chamaram-me a atenção as personagens
femininas. Estão inseridas na cultura e nas
diversas fases do desenvolvimento do Estado. Isso
porque a autora sente e vive conosco problemas e
situações várias há
bastante tempo. E o fator social torna-se interno,
participa da narrativa, da estrutura dos contos,
da construção das personagens, suportes
vivos da ação. Assim, seu ato criativo
comunga da mesma realidade dos leitores de ontem,
de hoje e, sendo universalizante, por certo atingirá
os de gerações futuras.
E,
para provocar no espírito dos leitores a
impressão desejada, a autora se utiliza de
alguns recursos, como a recorrência de palavras,
imagens, elementos linguísticos externos
ligados à natureza e à religião:
chuva, água, rio, vento; reza, missa, capela,
terço, rosário, etc. Esses recursos
estão nos clássicos, no cinema e aparecem
com frequência nos contos de Lena, com a finalidade
de fazer um contraponto harmonioso ou irônico
entre as emoções, ação,
tom ou tensão interna da narrativa. E o contraponto
irônico pode se estender para os nomes próprios
das personagens, como Flora, Violeta e Divina. Assim
o fizera Graciliano Ramos, em Vidas secas
(1938): Vitória, apesar do nome, dormia em
cama de varas e sonhava com uma cama de verdade
em seu andar de papagaio ou de galinha pedrês.
A cachorra Baleia também tem nome irônico:
perdida no deserto queimado, morria de fome e de
sede na terra seca.
Em
Lena, esse contraponto com nomes próprios
femininos pode surpreender o leitor, ao se desviar
da normalidade e levá-lo a uma reflexão
sobre as condições humanas e sociais
das nominadas: Flora, Violeta e Divina.
No
conto “Cabeças contra cabeças”,
Flora, sempre ativa e alegre, vivia entre plantas,
regando lírios e jardins. Era proprietária
de “vasto latifúndio que se estendia
por várzeas e campos agrestes” (p.
93). Com a chegada dos balaios revoltosos, presenciou
covarde e brutal assassinato e viu o feitor trazer
um saco de onde rolaram três cabeças.
O marido Estêvão havia sentenciado:
bandido tem que pagar ofensa. Flora recitou De Profundis
e proibiu conversas e risos na fazenda do Contente.
“Violeta”,
a cor que dá nome à personagem e à
narrativa, deveria significar meditação
e equilíbrio entre o céu e a terra
(“Deus e eu”, p. 69); equilíbrio
entre o espírito e o corpo. (“- Onde
está o crucifixo da família, Violeta?
Deu de ombros: - Velharias…” p. 71).
Entre o amor, riqueza e sabedoria foi discrepante
o desequilíbrio: “Paulo desapareceu
com todas as joias e o dinheiro que a mulher levava
consigo” (p. 75). Violeta deveria significar
equilíbrio e paixão, mas desequilibrou-se,
“comprou” um marido estelionatário
de quem fora vítima. Esse “vilão”
foi recompensado com a impunidade, com o silêncio
e fidelidade da desposada que “ainda usa aliança”
e fixou residência em Paris, depois da frustrada
viagem de núpcias à Ilha da Madeira.
Divina
é personagem do conto “A placa”
e também faz parte desse contraponto onomático
e irônico de Lena porque, sendo prostituta,
chama-se Divina e fez um gol de placa, ao se casar
com o médico Zé Luís e transferir
a placa profissional do clínico para o pórtico
de sua residência montada por ele, quando
amantes. Aqui o mote ou expressão recorrente
é: “Cada qual cumpre o seu destino.”
A
autora transita com desenvoltura tanto nos temas
que incluem personagens femininas urbanas, quanto
nos que envolvem as rurais. No primeiro caso, além
de “Violeta” e Divina (A placa), convém
citar a universitária Alice (Novilha de raça),
Abadia, a noiva perfeita (O muro), “a moça”
estudante de medicina (Um pequeno relógio),
“minha amiga” e os três maridos
estrangeiros (Oh! O amor!), Cristina e Mariana,
turistas cariocas em Alcântara (Pingos que
caem). Quanto às personagens femininas rurais,
além de Flora (Cabeça contra cabeças),
poderíamos mencionar Eponina (Duas grandes
graças), “a moça” de 16
anos por um cavalo-refeição (História
da seca) e “a negrinha”, mucama fujona
(Uivos na mata).
Pode-se
observar que há personagens inominadas: “a
moça”, “minha amiga”, “a
negrinha”. A ausência de nomes é
comum na ficção contemporânea,
para indicar a falta de identificação
e de referência fixa do individuo, no mundo
e no texto. Essa inconsistência das personagens
nos faz lembrar de “o menino mais novo”,
“o menino mais velho”, “os dois
meninos”, de Graciliano Ramos, em Vidas
secas. Tais personagens continuam excluídas,
obscuras, na sombra. Até o final da narrativa,
sem nome.
“Minha
amiga” (Oh! O amor!”) também
não tem nome, mas é bem caracterizada
física, cultural e psicologicamente. Ela
é, existe no mundo para os outros: baixa,
“antípoda da top model”, gorda;
simplória, medíocre intelectualmente,
mas uma criatura encantadora. Casou-se três
vezes e fez a felicidade dos três esposos:
um sírio, um português e um italiano.
Esquecida de si mesma e exímia cozinheira,
agradava cada qual conforme suas peculiaridades
gastronômicas. Não tem voz. Quem fala
em todo o texto é o narrador-testemunha.
Inicialmente faz uma introdução à
narrativa, comentando o mito da mulher fatal no
avançar dos anos: mais esbelta, mais sinuosa,
mais felina. Depois, conta-nos sobre “a amiga”
feliz nos três casamentos, apesar de cada
ano mais gorda, mais velha, mais simplória.
“Oh! O amor!”, explica o título
do conto.
“Da
negrinha fujona, não houve notícia”
(p. 112). “A negrinha”, “a escrava”,
“a peça” rebelde, “a mucama”
fujona, pertencia à escravaria dócil
e obediente, sob a chibata do feitor Cipriano. Também
não tinha nome. Era reconhecida pela cor,
pelo que fazia e pela posição social.
Ela era uma, mas representou a força de um
grupo que se rebelara contra a canga da casa-grande.
Porém foi Cipriano que metamorfoseou em fera,
talvez pelo poder da alma de algum preto velho.
E uivou e ganiu no ermo da floresta até morrer.
Eponina
(Duas grandes graças), solteira, cinquentona,
era uma espécie de coronel da antiga sesmaria
colonial que lhe fora transmitida intacta pelos
maiores, relíquia de família “desde
os tempos d’el rei de Portugal.” Entre
afazeres domésticos e quiproquós com
agregados e vizinhos ciumentos, ela rezava na rede,
na cadeira de balanço, de dia e de noite.
Benzia-se, beijava São Torquato, contemplava
amorosamente Nossa Senhora. Essa religiosidade no
alto não a inibia de baixezas sociais contra
João Quirino. Neto de escravo, não
queria assinar contrato de agregância, sem
que recebesse cinquenta contos de indenização.
Fincou pé nisso.
A
tensão entre ambos se agigantou, até
que se confrontaram em encontro marcado. De joelhos
diante de Quirino, Eponina sentiu a possibilidade
do baixo ficar alto e do alto se rebaixar. Isso
depois dela haver batido e batido, cuspido e cuspido
novamente, no rosto do neto de escravo. Esse conto
é o de maior densidade dramática do
livro. Mereceria ser adaptado para o teatro, com
cenário reduzido, a fim de se evidenciar
a força do duelo entre Eponina e João
Quirino. Principalmente quando ele “cresceu”
na direção dela com a faca de sangrar
porco e a dilacerou com um golpe perto do ombro:
“Ninguém bate na cara de homem”
(p. 38).
Mas,
rezando o terço e “meditando sobre
os mistérios gloriosos, Eponina fora contemplada”
com, duas grandes graças: sobrevivera e Quirino,
receando queixa-crime, desaparecera. Mote recorrente:
“… desde os tempos d’el rei de
Portugal.”
Alice
é personagem que sugere o título ao
livro Novilha de raça e outros contos.
E, por chamar-se Alice, é autêntica,
verdadeira. Aqui, o nome da pessoa é o que
a pessoa é. Professor Morais Sobrinho, cinquenta
e três anos, muita moral, pouca emoção,
prefere mirar-se no espelho do banheiro e refletir
sobre os achaques respiratórios de fumante
reincidente, ou procurar o reflexo de seu próprio
ser por baixo da superfície iluminada. Ali,
talvez, encontre a força para o autodomínio,
a ética profissional, o respeito à
família e resistência contra o pecado.
Mira-se e esvazia os cinzeiros no início
e no final da narrativa.
O
pecado poderia ser Alice que, apaixonada pelo professor
Morais, vai à casa do mestre, incomodando-o
em sua sesta, com a desculpa de ajudá-la
traduzir um poema para o jornalzinho da Faculdade.
Ele é casado com Maria Divina, uma excelente
motorista que gosta da natureza e de fazer quitandas.
Por isso está na fazenda com os filhos do
casal.
Alice
entregou ao professor uma folha com estrofes de
Ronsard, em francês, cujos dois últimos
versos continham uma declaração de
amor. Era o espelho que refletia a paixão
da aluna pelo mestre abraçado e beijado,
com muito carinho, enquanto ouvia dela a versão
em português: “..., não esperes
o amanhã:/ colhe ainda hoje as rosas da vida”
(p. 19). Porém Morais evita o presente, o
hoje; porque hoje não é outro dia
(nem ontem, nem amanhã), como no país
do Espelho, de Lewis Carroll (Londres, 1871). Alice
faz mau jogo como visitante. Além de avançar
no tabuleiro, rumo ao lugar da rainha – a
esposa de Morais –, não conseguiu atravessar
o espelho do poema, o hoje dos versos, para chegar
ao coração do mestre-poeta que vê
e sente tudo ao contrário dela. “…
encarou a jovem de uma distância enorme…”
(p. 20), significaria “impenetrabilidade”?
A
confissão de Alice, a distância que
vai da razão à loucura estão
em sintonia com a natureza: o vento zune, a chuva
cai, quando o professor recebe as estrofes de Ronsard
das mãos da jovem. A aluna perde a batalha
da sedução e: Lá fora a chuva
dobra e o vento redobra, conforme as lágrimas
e soluços de Alice.
Bibliografia
BARTHES, Roland et alii. Análise
estrutural da narrativa. 3 ed. Petrópolis:
Vozes, 1971.
D’ONOFRIO, Salvatore. Teoria do texto:
Prolegômenos e teoria da narrativa.
2. ed. São Paulo: Ática, 2006.
FREITAS, Lena Castello Branco Ferreira de. Novilha
de raça e outros contos. Goiânia:
Kelps, 2009.
KOTHE, Flávio René. O heroi.
São Paulo: Ática, 1985.
MANGEL, Alberto & GUADALUPI, Gianni. “Espelho,
país do”. In: – Dicionário
de lugares imaginários. São
Paulo: Companhia das letras, 2003.
MOISÉS, Massaud. A criação
literária – Prosa. 12 ed.
São Paulo: Cultrix, 1986.
REIS, Carlos et alii. Dicionário
de teoria da narrativa. São Paulo:
Ática, 1988.
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