Mastigando
a língua
Se
eu não controlo minha língua, não sou dona de mim
mesma.
Ercília
Macedo-Eckel*
A
língua é o principal órgão da gustação de nossa
convivência e de elevada sensibilidade tátil sobre
a pele de nosso próximo, ou nem tão próximo assim
... Saliente na base de sua cavidade e móvel por
vontade, serve para prensar pensamentos, ou mastigar
a vida alheia canibalmente: língua-de-cão, língua-de-trapo,
língua-de-vaca, ou de víbora. Linguada. Língua-lâmina-comprida,
de sogra ou de palmo. Língua-pescado-real. Linguaruda.
É um dar com a língua, dar de língua e, sem papas,
tomar língua. Ondas da saca e da ressaca sobre os
distraídos junto à praia. Língua bêbada, na sua
praia distribuída...
Língua morta, de falador incorrigível, defunto;
não mais ouvida por ninguém, todavia conhecida por
referências ou documentos deixados para além.
É
ambivalente e tem dois gumes a língua. De uma só
cor é sadia, verdadeira: edifica, constrói. Listrada
ou zebrada é doente, mentirosa: aniquila, destrói.
É, a um só tempo, razão/inteligência e imbecilidade/demência.
A palavra é a unidade primeira da Criação (Fiat
lux: Faça-se
a luz). Ou da maldição. (Maldita
és, serpente,
entre todos os animais). Há lábios de anjo,
consoladores; há lábios de Lúcifer-decaído, dissimuladores,
e há goela de monstro, com engrenagens subterrâneas,
devorando-nos lá, no fundo das trevas de nós mesmos.
A
língua pendente, cansada de desperdiçar saliva,
em favor do bem comum (?), de tudo sabe um pouco.
Língua danada, taramelenta, gabolando trunfos imaginários
ou reais. De Bilac – “esplendor e sepultura“ / “silvo
da procela”, “arrolo da ternura” – até à meta-língua-mátria
de Caetano, a língua pode estar repleta de (en)cantos
ou esconder debaixo dela uma flecha mortífera cujo
veneno nenhum farol vermelho conseguirá deter. Ambos,
Bilac e Caetano, roçam a língua de Camões metalingüisticamente.
Caetano cria confusões, sugere paródias e aponta
para diálogos intertextuais que encurtam a dança
conforme a música. Levantam-se conjecturas. Você
é Rosa? Eu sou rosa. Você é prosa? Dois dedos ao
menos? Eu sou Pessoa na rosa, camaleonicamente.
Porque a língua está para Babel, assim como a música
está para uma pisada no pé de Noel.
A
língua ecoa o ser, na cor, no sopro vital, no ritmo
da respiração. Ela está dentro de minha boca e me
denuncia, involuntariamente, de repente. Ô língua!
Pode destilar mel ou veneno. Só que, privada do
sopro da boa comunicação, a língua de qualquer um
de nós silencia, apodrece, morre. Retorna, juntamente
com o corpo, ao pó da terra de onde veio. E o sopro
daqueles que destilam mel, o Verbo originário de
Deus, volta-se para Ele, como uma misteriosa brisa.
*Ercília
Macedo-Eckel
– é
membro da Academia Feminina de Letras e Artes de
Goiás, da União Brasileira de Escritores-GO e da
Academia Petropolitana de Letras-RJ. Em 2000 publicou
Maíra:
reescrita e dessacralização do mito – ensaio
sobre o romance do antropálogo Darcy Ribeiro – e
à venda nas principais livrarias desta Capital.
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