Maria
Benzedeira
Ercília Macedo-Eckel
Parece conversa de pescador,
mas não é. No ponto mais alto de uma
das serras próximas à Chapada dos
Veadeiros, reside Maria Benzedeira. Uma senhora
alta, de carnes fartas e reduzida conversa. De vez
em quando, mostra seus dentes quase brancos, ao
dar gostosas gargalhadas.
É muito mais procurada, tem mais prestígio,
que médicos e farmacêuticos da região
— para a cura dos seguintes males, dentre
outros:
Cobreiro
Cida acabou de subir
a serra a pé, seguida de Guerreiro, um cachorrinho-rabo-de-rosca.
Piolho de cobra. Do alto ela contemplava a distância
azul. Sentiu tontura, como se tivesse uma visão
dos deuses ou dos profetas. Ou, talvez, uma visão
do purgatório, através da montanha
da purificação, e que faz a narradora
se lembrar da Divina comédia, de
Dante.
—
Boa tarde, comadre. Estou aqui para me benzer. A
senhora sabe que não perco uma festa.
Meu lugar é no meio do salão batendo
coxa.
— Não fala
mais nada. Tô vendo tudo direitinho. Vamo
pra beira d’água. Diz a benzedeira,
fazendo
o sinal da cruz àquela que será benzida:
— Na
proteção do Senhô
entrei em Veadeiros,
veadaria
passei pela imensa caverna
de São Mateus e mataria
benzendo sapo, coró,
cobra, cobraria.
Corto cabeça,
corto meio, corto rabo, corto cobreiro.
Cida, o que você
tem? O que corta?
— Cobreiro, D.
Maria. De animal peçonhento. Cobreiro brabo,
cobreiro brabo,
cobreiro brabo.
De bate-coxa, de bate-coxa, de bate-coxa.
— Cida cura. Cura
mesmo. Cura sim.
— D. Maria, com
quê?
— Com água
da serra, ramim da terra e este cipó azougue
assim. Rodeando Cida e fazendo cruzes:
Peço
a Jesus Cristo,
pelas suas cinco chaga
que livre Cida dessa
comichão e desse ardô
que lhe causa essa mazela.
Em nome de Deus e Nosso
Senhô, desce água abaixo, cobreiro
brabo. Amém.
A seguir, a benzedeira
rezou três padres-nossos, três ave-marias
e disse:
Deus põe
virtude!
Cida deixou com D. Maria
meio metro de fumo de rolo, em sinal de agradecimento.
Mau-olhado
Ercília Macedo-Eckel
Leitor, conheça
o deputado Fortunato. Ele se apresenta:
— Fui menino pobre,
calcei a primeira botina aos quinze anos. Sofri
demais para aprender a caminhar com sapatos. Meses
depois procurei o rumo da cidade, comecei a estudar
e encontrei serviço numa loja de autopeças.
Comprei um Chevette usado e não demorou muito
cheguei a gerente. Sou um cara de sorte. Continuei
estudando, fazendo amigos, tricotando lideranças,
até me tornar um político com muito
mais sorte ainda. Hoje tenho estações
de rádio e tevê, condomínio
na praia, edifícios na Capital, mansões,
aviões, iates, fazendas em Goiás e
no Mato Grosso, carros importados, empresas diversas.
De menino pobre no interior me tornei multimilionário
em poucos anos. Não tenho a eloqüência
de Mão Santa do Piauí, mas consigo
dizer que tenho muita sorte, com a graça
de Deus.
Sei que há muita
inveja de meus privilégios, de meu salário,
aproximadamente quarenta e cinco vezes o salário
mínimo; muito olho gordo em minhas vantagens
adicionais. Tenho longas férias, chamadas
de recesso e poucos dias de trabalho na semana.
Posso me aposentar com apenas... anos de mandato.
Também tenho
dois salários a mais no ano, ajuda de custo,
apartamento funcional, verba mensal de aproximadamente
quarenta e três salários mínimos
para minhas despesas com suíte de hotel,
viagens e gasolina. Ainda recebo outra verba mensal,
de gabinete, cerca de cento e trinta e cinco salários
mínimos para pagamento de funcionários
não concursados. Acho justa e de bom senso
essa remuneração – para garantir
que eu não pratique atos ilícitos
e que tenha transparência e honestidade no
trato com a coisa pública. E, o mais importante,
que compareça às sessões, defendendo
os interesses da população –
motivo maior de meu mandato.
Fortunato falou demais
e na primeira pessoa. Já é hora da
narradora voltar ao penúltimo parágrafo,
onde o deputado discursa sobre privilégios
e olho gordo. Esse nosso enviado começou
a sentir as forças do mau-olhado desde que,
em cinco anos, tornou-se multimilionário:
Sua esposa passou a pôr-lhe chifres com regularidade
(porque sua próstata estava meio comprometida);
seu primeiro filho foi assassinado no Nordeste,
antes de concluir o curso de medicina; o segundo
está numa clínica de recuperação
(Aquela!) pela terceira vez; a filha caçula,
que termina odontologia em uma universidade federal,
entregou seu coração inteirinho para
o peão de uma das fazendas da família,
cujo gado começa a morrer inexplicavelmente.
Deve ser malefício
de olho ruim, de retrós embaraçado,
vesgo, de quem ganha salário mínimo
e trabalha o máximo; olho de gente que come
mal, mora mal, pega meia dúzia de ônibus
por dia, entre tiroteios, pagando do seu próprio
bolso pela violência dentro e fora de casa.
Afora o mau atendimento à saúde. Então
do olho dessa população sofrida nasce
aquele brilho estranho, de olho do mal, destrutivo.
E esse brilho se avoluma, salta do corpo de cada
invejoso e se espalha em faíscas, devorando
tudo que diz respeito ao deputado Fortunato.
O parlamentar lê
pouco, mas já ouvira falar do livro Noites
áticas, em que o povo de Ilíria
tinha o poder de matar, olhando fixamente para alguém,
com aquele olho de secar pimenteira. E já
havia assistido a filmes em que a cabeça
da górgona Medusa, decapitada por Perseu,
conservou em seus olhos a capacidade de petrificar
o que ou quem mirasse. Nesse contexto de tamanha
angústia, percebi que Fortunato, aos poucos,
foi substituindo a gabolice, o discurso de homem
sortudo, portador da felicidade e da fortuna, enraízas
em seu próprio nome, pelo discurso do mau-olhado,
da inveja e da desgraça.
Então ficou sabendo
em Brasília sobre os poderes, benzeduras
e orações de D. Maria e ordenou que
o chefe de gabinete programasse seu helicóptero
e piloto para Alto Paraíso no final de semana.
Avisou à matriz e à filial (apesar
da próstata) que havia um quiproquó
político no interior e que deveria ausentar-se
por três dias.
Aterrissaram em Alto
Paraíso na sexta-feira, depois do Jornal
hoje. Pernoitou com o piloto no Jardim do Éden.
Logo pela manhã, voltou àquelas ruas
místicas, cheias de lojinhas de artesanato.
Na primeira lojinha perguntou:
A senhorita sabe onde
é o sítio de D. Maria Benzedeira?
Preciso me benzer contra quebranto.
— Que é
isso, doutor? É pro senhor mesmo? Homem tão
crescido, tão forte!
— Sim. É
para mim mesmo.
— O povo daqui
só procura benzedeira pra tirar quebrante
de criancinha.
— Qualquer que
seja o nome: quebranto, mau-olhado, olho gordo,
olho grande, olho de inveja... A senhorita sabe
onde é o sítio de D. Maria Benzedeira?
— Todo mundo da
região sabe. O senhor vai como se fosse para
Cavalcante, observando as placas...
— Estou de helicóptero.
— Então
o senhor descobre a serra mais alta à direita,
rumo GO-241. No pico dessa serra tem uma enorme
cruz branca. Dá para ver de longe. Lá
reside Maria Benzedeira (Leitora, não vá
procurá-la. Pode ser conversa de pescador).
Voaram cerca de trinta
minutos, com muita atenção. Finalmente
avistaram a propriedade e desceram no plano próximo
à casa da benzedeira. Todos os animais de
pena e quadrúpedes correram assustados. Exceto
um porquinho de brinco que continuou indiferente,
abanando as moscas com rabo de rosca, focinho na
lama.
— Boa tarde, D.
Maria. Vim para me benzer contra olho de inveja.
— Tem treis na
frente.
— Eu sou o deputado
Fortunato.
— E os outro são:
Zé-do-Berro, Zica Pereira e Mané Copim.
Doutô deve esperá. Observou ela.
Esperou.
— Quem será
benzido dá o nome.
— Deputado Fortunato.
Contra mau-olhado.
Sinal da cruz:
— Eu te benzo
com treis ramim: um de pimenteira malagueta, um
de fedegoso e outro de arruda. Pego os treis ramim
junto e venho de sua cabeça até seus
pé, assim, e do braço esquerdo até
o direito, fazendo uma cruz. E ordeno: Leve quem
pôs!
Deputado Fortunato,
com dois foi posto
olho escomungado e invejoso,
com treis pessoa da
Trindade
quebro o encanto.
Deus te defenda de mau-olhado,
de quebranto, olho grande,
olho gordo,
de feitiço,
de macumba
e outro tanto de malefiço
Quem pôs é
de ferro
eu sou de aço.
Com os podê do
Pai,
do Filho e do Esprito
Santo
eu vos embaraço.
D. Maria sacudiu os
três raminhos, jogando o olho do mal e da
inveja para o vento da serra.
No regresso, em direção
ao helicóptero, deputado Fortunato viu o
porquinho de brinco fuçando minhoca e perguntou
à benzedeira se poderia levá-lo de
presente... morto. Ela chamou o filho rapaz e pediu-lhe
que sangrasse, esquartejasse e ensacasse o suíno
para o Doutor.
— Brigada, deputado!
E baixinho, de si para
si mesma
— com a mão
esquerda:
Com treis eu
te vejo
com podê de Deus
com dois eu revejo
e reforço o encanto
pros vento de Brasília.
Espinhela caída
Ercília Macedo-Eckel
Goiano apareceu, assim,
quase do nada na Serra do Tombador . Dizem que veio
dos lados de Acaba Vida e do Cafundó —
logo abaixo do Rio Traíras. Não chega
a ser um Cícero, informando sobre a Grécia,
mas é grande conhecedor da região
norte/nordeste de Goiás e serviu de cicerone
ao caminhoneiro Zé Brás. Encontraram-se
casualmente em um bar de Abadia do Muquém.
Depois de ouvir as peripécias do motorista
meio perdido entre asfalto e estrada de terra, Goiano
resolveu acompanhá-lo até Tombador,
com a carga de material para instalação
de energia elétrica no meio rural. Programa
Luz para Todos.
Chegou e ficou. Homem
alto, magro, pele e cor indianas. Conduz invariavelmente
na cintura, do lado direito, uma faca bem afiada
tipo punhal, para cortar palha e picar fumo de rolo,
enquanto proseia e cospe de esguicho. Porém
quem o ouve e observa, vê nesse instrumento
cortante o mistério da longa e definitiva
viagem. Dominado por Baco, tem andar de cercar frango
e muita dificuldade em encontrar serviço.
E, quando algum sitiante arrisca lhe dar uma empreitada
para roçar pasto, por exemplo, Goiano trabalha
pela manhã e adoece à tarde.
Suor de alambique bate o ponto na hora da sesta.
E, altamente espiritualizado, vem de faróis
acesos sobre a sétima esposa e tomba para
fazer balanço na Serra do Tombador.
Numa dessas quedas o
peão lesou o esterno, osso dianteiro do peito
que articula com as costelas; alteração
chamada vulgarmente de espinhela caída ou
arca-caída. Hibernou uma semana. No catre
lembrou-se da empreitada e do sítio em que
viu, de longe, uma linda e loura garota de olhos
azuis, muito recatada. De família adventista,
ela tem o hábito de usar saias quase nos
tornozelos e lenço de seda cobrindo os cabelos
do sol, como se fosse uma muçulmana.
— Ó Raquele,
por sete ano vô trabaiá pro meu patrão,
seu tio, como se fosse sete dia, mode casá
cocê. Delirava Goiano, em estado febril e
alcoólico.
Maria Alvino, sua mulher atual, também delira,
ao substituir pela fantasia a indiferença,
a falta de amor e não cumprimento do dever
do peão com ela:
— Ó, gente,
ele não fica mais de pileque. Bebe tiquim
de nada. Varre a porta, o terrero; pica lenha, limpa
horta. Ele lava meu cabelo cum sabonete de madama,
inhantes de nóis deitá. E, se viaja,
carrega muda de roupa suja minha pra cherá,
quando ficá cum sodade.
Segundo ela, faz mais de mês que não
apanha dele. Mas a vizinha viu Goiano derrubar Maria
Alvino da moto e ameaçar passar por cima.
As histórias
desse amigo da garrafa chegaram até Pedro
Borralha, que pouco sai da velha casa, na Serra
da Forquilha. Este seu ostracismo, porém,
não o impediu de saber sobre as rezas prodigiosas
de Maria Benzedeira e indicá-las como solução
para tais encostos. Falou com a mulher do peão
sobre a possibilidade de curar o marido da espinhela
caída e, de lambujem, salvá-lo também
da bebedeira. Não perderia nada em arriscar.
O problema seria convencer Goiano de fazer a viagem
até as proximidades da Chapada dos Veadeiros.
Mas, para surpresa de todos, ele aquiesceu com facilidade.
Marcaram para sexta-feira da paixão.
Amanhecendo referido
dia, o casal fez a via-sacra até o alto da
serra onde reside Benzedeira:
— Boa tarde, D.
Maria. Nóis é da Serra do Tombadô.
Meu marido veio aqui mode benzê de espinhela
caída e pinga.
— Vamo entrá.
E, virando-se para o homem:
— Qual é
a sua graça?
— José
da Silva. Mas o povo me trata de Goiano.
D. Maria pegou um cordão
e mediu do mindinho ao cotovelo, com o braço
de Goiano para cima.
Dobrou essa medida, deu uma volta no corpo dele
e faltou um pouquinho: a espinhela está caída
para fora. Se sobrasse medida, estaria caída
para dentro; se ficasse exata, não estaria
caída.
— A espinhela
do senhô tá caída pra fora.
Deita aqui. Faço agora o sinal da cruz no
seu peito, treis veiz. Vamo pô uma tuaia debaixo
de suas costa, do tórache, e levantá
o senhô um pouco
pelas ponta do pano, treis veiz.
Repete o sinal da cruz.
E reza três vezes:
Jesus Cristo, quando
andô no mundo
muita coisa Ele curô
fez milagres estupendo
em todo lugá.
Com os podê de
Deus
até defunto levantô
Curou vento, arca e
espinhela caída.
Jesus Cristo, agora
no altá
eu peço vós
levantá
arca, ventre, espinhela
caída.
Leva também a
pinga de Goiano
pro rio, tombano pra
banda de lá.
Deus abre a porta pro
bem e fecha pro má,
Deus chega a espinhela
de Goiano do lugá.
Com os podê de
Deus e da Virge
eu levanto, eu levanto,
eu levanto
a espinhela e tiro a
pinga de Goiano.
Amém.
O casal dá um
terço de prata para a benzedeira, em sinal
de agradecimento.
Vicentinho, de Porto
do Garimpo, ficou noivo de Raquel — depois
de um ano transitando pelo sítio do tio dela
e de se tornar adepto do adventismo. Café
e carne de porco? Nem pensar!
A notícia chegou
aos ouvidos de Goiano que retornara pela manhã
à empreitada na serra próxima. Fazendo
quilo, puxou prosa com Vicentinho, que acabava de
aportar.
— Aqui tem uma
moçoila pedaço-de-mau-camim que aparece
na hora da merenda com uma saíca de nada,
rebolano e se ofereceno pra mim.
— O nome.
— Goiano.
— Não,
da mocinha oferecida.
— Raquele. Um
filezim, rapaz!
— Ah! vô
prestá atenção. E o meu nome
é Vicentim Espeto.
O peão voltou
a bater pasto. Vicentinho noivou pouco tempo, porque
deveria apartar suas vacas logo adiante, acima do
Tombador. Mas o Sujo embaralhou-lhe o juízo
com imagens tão denegridas de Raquelzinha
se oferecendo popozuda e cachorramente na gabolice
de Goiano. O sangue intumesceu-lhe as veias. Coração
disparou. Tomou a direção do pasto
a aproximadamente seis quilômetros. Goiano
acendia o cigarro de palha na sombra de uma gameleira.
Vicentinho o pegou por trás numa gravata,
tirou-lhe o punhalzinho do lado direito da cintura
e espetou-lhe o lado esquerdo do peito, sem retirar
a arma da sangria. Depois virou Goiano para o flanco
e pôs a mão dele no cabo da lâmina
perfurante, simulando suicídio. Pegou o caminho
oposto, para sua casa. Urubus faziam círculos
no azul do céu. Patrão por três
dias supôs que o peão adoecera novamente.
Balas perdidas, carne quebrada,
sangue derramado
Ercília Macedo-Eckel
Pedrinho Mata-Mata é
um garoto de doze anos, assíduo freqüentador
da Informática & Lan House Ltda,
em alguma avenida nobre de Goiânia. Cursa
a 6ª série numa escola particular e
tem as melhores notas da classe em Inglês.
De colo ainda, já
dominava o mouse e se mostrava precoce
no interesse pela língua de Shakespeare.
Nas outras matérias havia constantes reclamações,
tipo:
— Pedrinho, você
precisa interagir, no grupo de estudos, deixar de
lado esta apatia.
Soa a sirena. Final da última aula. O garoto
pensa com seus botões:
— Ah, professora!
A senhora nem imagina como eu interajo no Counter
Strike.
E já na Lan
House Ltda:
— Vamos, vamos
rápido, João Fura-Fura.
— Calma, vamos
pegar ele ali na base e meter bala, brother.
Tei, tei, tei.
— Morre, morre
logo, terrorista desgraçado! Fiquei com dez
de life. Grita João Fura-Fura.
— Eu matei de
head shot. Responda Mata-Mata.
—Já passei
manteiga nele (matei na faca). Eu sou um cara
sem consciência. Pecado é coisa
das antiga, mano. Comenta
Mata-Mata.
— Pra mim vivê
e morrê é a mesma coisa. Igual votá.
Eu não votei? Eu quis votá. Responde
Fura-Fura, de dezesseis anos.
— Tei, tei, tei.
Morre desgraçado! E eu quero matá
o resto. Finaliza Mata-Mata.
Venceu o tempo. Pedrinho
pegou a mochila do colégio que fica próximo
à sua residência e saiu, quase correndo.
Creio que tinha fome. Ao atravessar a Avenida, olhou
para ambos os lados. Seguiu rapidamente. Por ele
passou uma viatura com as armas apontadas para fora,
do lado esquerdo do carro. Tei, tei, tei! Bandido
ninguém viu, Pedrinho tombou no asfalto.
O sangue escorria-lhe da cabeça e do ouvido
direito.
Socorrido no HUGO, ficamos
sabendo pela imprensa que o grupo do terror havia
saído do jogo, ganhado as ruas da cidade,
rendido a polícia e tomado suas armas e viatura.
Infelizmente o garoto não resistiu aos ferimentos
das balas perdidas. Seu corpo está
sendo velado no Cemitério Santana. Será
enterrado amanhã às 10:00 h.
Aos poucos o recinto
do campo santo foi tomado por parentes, amigos e
colegas de escola do adolescente. Falavam da banalização
da morte e da violência a se alastrar pelo
país, quando outras balas perdidas
atravessaram o ambiente do velório, atingiram
o caixão onde jazia Pedrinho e se alojaram
entre suas costelas e peito cobertos de flores.
Todos os presentes se jogaram no chão e se
arrastavam, como se vê em filmes de guerra.
Mas sem armas, desprotegidos — alguns se sentindo
desprezados e despojados como párias.
Os pais de Pedrinho
estão sob efeito de sedativos. Não
é o primeiro caso na família. Ano
passado, Lúcia, tia do garoto, foi assassinada
durante um assalto no banco em que trabalhava, simplesmente
porque um dos bandidos não gostou de sua
cara. Ângela, irmã mais velha de Pedrinho,
teve o ombro esquerdo atingido por uma bala
perdida, quando voltava da faculdade, à
noite. Depois de duas cirurgias, ela ainda sente
dificuldade para executar certas tarefas ou movimentos.
Mas... D. Maria do Socorro, uma nordestina de sessenta
anos, vizinha dos enlutados, tem um filho residente
na Chapada dos Veadeiros. Chama-se Nonato. Foi ele
quem levou a mãe ao cemitério em sua
van e está comovido com o sofrimento dos
Ferreira Bastos. Sugeriu a essa família que
o acompanhasse até a serra onde reside Maria
Benzedeira – a rainha dos “conhecimentos
secretos” do Brasil Central.
— Senhor Bastos,
o melhor dia é numa sexta-feira. Que tal
a próxima, 13 de abril? Perguntou Nonato.
Seguiram, clareando
o dia. Na véspera, senhora Bastos selecionou
peças de roupa dos moradores da casa e de
parentes mais próximos para fazerem parte
do ritual da benzeção.
D. Maria Benzedeira colocava as vasilhas do almoço
sobre o estaleiro para secar, na frente da área,
quando chegaram.
— Quanto tempo,
seo Nonato! Exclamou ela.
— Tudo bem com
a senhora? Essa é minha mãe Socorro,
tá lembrada? E esses são vizinhos
dela em Goiânia. Um casal que tem sofrido
muito com violência e morte na família.
Falei de seus poderes e eles vieram conferir. Trouxeram
roupas pessoais e da família.
— Nome do senhô.
— Messias Ferreira
Bastos.
— Da senhora.
— Laíla
Lopes Bastos.
— Onde tá
as roupa que ocês troche? Tô com a linha
e a aguia na mão direita. Vô segurá
as peça com a esquerda.
Seo Messia, D. Laí:
Que é que eu
costuro?
Balas perdidas, carne
quebrada, sangria desatada, D. Maria. Responderam
ambos. A benzedeira faz o sinal da cruz três
vezes e reza, fingindo costurar as roupas que estão
na mão esquerda:
Sexta-feira
de treva
sol sumiu
véu do tempro
se rasgô
tremeu a terra
tremeu a cruz
do Cristo desamparado
do Cristo negado treis
veiz
da hora sexta
até a hora nona.
Mas não tremeu
Jesus
abriu muitas sepurtura
quem dormia se levantô
debaixo de grande pedra
muita gente assombrô.
Na praia cheia de cruz
vortô à
luz, ressuscitô.
Também não
hai de tremê
Messia e Laí
assombrá
com bala fora da vista
pessoa da casa
parente de cá
e de lá
não hai de tremê
nem assombrá.
Mas se bala te pegô
bala te pegaria
Jesus é quem
te curaria.
Água não
tem frio
fogo não tem
calô
Jesus Cristo não
tem senhô
me alivia dessa dô.
Seo Messia, D. Laí,
o que eu costuro? (Fingindo
costurar)
— Balas perdidas,
carne quebrada,
osso quebrado, sangria
desatada,
D. Maria. Responde
o casal.
Com os milagre da Santíssima
Trindade
eu coso com esse novelo
e essa aguia já
enfiada
a carne quebrada, nervo
torto,
veia rendida, osso ofendido
dessa iscunjurada bala
perdida.
Em lovô de Nosso
Senhô
isso mesmo eu coso.
Com os podê da
Santíssima Trindade
hai de fechá
buraco
e chegá tudo
no lugá
Jesus manda pro Desterro
moeda de prata, sangue
derramado,
bala perdida, carne
quebrada
gasolina em corpo ateada.
Assim como ocês
vê eu coseno
hai de vortá
tudo pro lugá.
Amém!
Ocês deve rezá
treis dia seguido um pai-nosso, uma ave-maria, um
creio em Deus-pai, segurando as peça benzida.
O casal deu um vaso
de comigo-ninguém-pode para D. Maria Benzedeira,
como forma de agradecimento – acreditando
de todo coração na reza que acabara
de ouvir. E descarregados, leves das dores e do
medo de balas perdidas Messias e Laíla
retornam a Goiânia.
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