| Leitura
eletrônica
e variações sobre o tema
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Para
José Mindlin, o bibliófilo,
in memoriam. E para Heloísa
Buarque de Hollanda, profª. e ensaísta,
inserida na convergência de mídias,
inclusive de periferia.
Ercília Macedo-Eckel
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Ah, Gutenberg! 555 anos se passaram
e o livro impresso está aí. Há
quem diga que ameaçado pelo livro eletrônico
Kindle, iPad ou pelo vook, _ um videolivro inovador
na leitura digital, com vídeo, interatividade,
twitter, links para sites, entrevista, bem como
cenário com paisagens do texto, ilustrações
dinâmicas, música e narração
simultânea. Há dois formatos de vook:
um com aplicativo para computador, e outro com aplicativo
iPhone, iPod touch e iPad, para leitura em qualquer
lugar. Dagomir Marquezi cita na Info (março/
2010, p. 30) como exemplo dessa edição
eletrônica “reforçada”
o livro The Master of Rampling Gate, de
Anne Rice, relançamento atualizado do homônimo,
impresso em 2002
O
iPad está chegando, aliás, já
chegou, ao Brasil e permite comunicar-se por e-mail,
ler matérias, livros e assistir aos filmes
preferidos. Apesar de muito caro, esse tablet poderá
tomar o lugar do Kindle da Amazon, por oferecer
mais funções, além de visualizar
livros. Espera-se, sem garantia, que o iPad seja
lançado oficialmente em nosso país
no dia 10 de novembro de 2010. Mas muitos jornais
e revistas se anteciparam no lançamento de
seus conteúdos no aplicativo de notícias
em tempo real para o iPad, o tablet da Apple: O
Estado de São Paulo (Estadão)
em abril; a Folha de São Paulo,
em maio; O Globo, em outubro. O jornal
goiano O Popular lançou o seu aplicativo
no domingo, 24 de outubro de 2010; a revista Época,
em maio e Veja, em setembro.
Você
leria um livro inteiro digital e eletronicamente?
Concentrado e profundamente, sem maltratar seus
olhos? Maryanne Wolf , neurologista que estuda os
efeitos da leitura no cérebro, de Boston
deu uma entrevista à repórter Renata
Betti (Veja, 18 nov. 2009, p.179), onde
declara que ler um livro digital não é
a mesma coisa que ler um em papel: o ritmo da leitura
é mais acelerado e o conteúdo do texto
é menos absorvido, pois a leitura é
mais superficial e menos analítica. O excesso
de estímulos, no caso da internet, pupula
pelas laterais, torna difícil a concentração
e o processamento das idéias. É necessário
treino, muito treino, para que o cérebro
conecte em “milésimos de segundo, três
áreas distintas: a da visão, a da
linguagem e uma que se encarrega de dar significado
às palavras. Esse mesmo roteiro pode levar
até 100 vezes mais tempo, caso a pessoa não
tenha o hábito de ler.”
Nos
EUA e nos países europeus, os habitantes
leem nos transportes urbanos ou em qualquer lugar,
desde jovens. Por esse motivo, talvez, a inclusão
digital nesses países seja quase 100%. No
Brasil, não cultivamos o hábito da
leitura, mesmo antes do advento da televisão
e da tecnologia. Lemos menos de cinco livros por
ano, fora os didáticos. A isso se somam as
pessoas que não têm acesso à
internet e a enorme porcentagem de analfabetos,
incluindo-se os analfabetos funcionais que não
teriam capacidade para entender esse texto.
Mas
a essa geração multitarefas, eletronicamente
antenada, precisamos enfatizar que a leitura é
importante, exige muita atenção e
não deve ser dividida com nenhuma outra atividade.
Assim, o e-book e notícias online serão
bem-vindos, principalmente nos momentos de perplexidade
em que ler, mesmo periódicos, declaradamente
causa pruridos até no Presidente da República.
(Como se a atual imprensa fosse onipotente, o “quarto
poder”, afinada com a ironia quixotesca de
Triste fim de Policarpo Quaresma, 1915.
Ou, quem sabe, fosse a imprensa um “partido
político” fora da Constituição
_ que deveria ser derrotado e extirpado, como um
inimigo.)
Entretanto,
apesar dos “conselhos” planejados para
o “ controle social da mídia”,
vários periódicos acompanham o progresso
tecnológico e seus conteúdos estão
disponíveis na rede, no leitor eletrônico
da Apple, ou em programa para tablet. Leitura na
horizontal e na vertical da tela, podendo haver
extras, como vídeos, gráficos interativos,
músicas, fotos, comentários e a possibilidade
de aumentar ou diminuir o tamanho da letra, conforme
a necessidade do leitor. O iPad se assemelha a uma
tela de alta resolução. Podemos executar
com ele todas as operações que executaríamos
com o notebook. É computador, e-reader e
muito mais, que revolucionará a maneira de
ler e comercializar livros, jornais e revistas.
As mudanças nesses aplicativos são
muito rápidas. E, em consequência,
o formato das revistas e jornais no futuro próximo
é uma grande interrogação.
Estão
surgindo novos e diferentes formatos de literatura,
como a ficção interativa
(cibertexto, cibernarrativa) e literatura ergódica.
Cibertexto/ literatura ergódica (Espen Aarseth,
1997) é uma narração ou discurso
virtual que admite feedback. Exige esforço
físico do leitor/jogador para atravessar
o labirinto textual, como em um game de computador.
Assim, esse leitor participa da construção
e mensagem da obra, cujo discurso pode ter sua continuidade
e linearidade quebradas a qualquer momento. A literatura
de rede atrai principalmente os mais jovens, que
nasceram depois da internet e do celular.
Hoje,
qualquer um pode ser escritor, através de
sites, blogs, twitters. São múltiplas
as vozes autorais. Em co-produção
autor/leitores, o livro digital pode ser lido e
escrito simultaneamente. Ideias e anotações
trocadas entre eles são visíveis para
todos os conectados em plataformas de leitura digital,
via internet. O responsável pelo título
da obra poderá comandar os leitores, co-autores,
no desenvolvimento do texto. Um bom exemplo dessa
interação é Os anjos de
Badaró, de Mário Prata (2000),
ao permitir que internautas dessem sequência
ao texto ou interagissem na sua produção.
Outra opção é produzir o texto
sozinho e depois colocá-lo em discussão.
Ou, ainda, sugerir o roteiro, o esboço do
livro e deixar que os leitores o desenvolvam.
Bob
Stein deu uma entrevista à Superinteressante,
jul. 2010, p.41, cujo texto de Eduardo Szklarz declara
que o livro continuará sendo escrito depois
do lançamento e que os leitores serão
assinantes da obra e pagarão por ela, até
perderem o interesse no debate, ou em sua edição.
O
novo livro mudará o conceito que temos de
leitura como hábito solitário. Leitura
será, majoritariamente, uma atividade social,
coletiva, compartilhada, não individual,
típica da geração multitarefas,
a qual há pouco, sugeri uma leitura não
dividida com qualquer outra atividade. Ler em rede
seria como estar em uma sala de bate-papo ou em
fóruns de assuntos diversos. Todos os leitores
se interessariam por discutir, comentar e, talvez,
modificar a obra interativa, a qualquer momento.
Dessa forma, não apenas intelectuais, escritores
ou jornalistas seriam autores, mas também
qualquer cidadão disposto a participar do
ato de criação do texto. Provavelmente
os mais jovens estariam envolvidos nesse ofício
de “escritores virtuais”. As editoras
dariam importância a esses autores de internet.
Fariam intermediação de venda de seus
livros digitais, até que eles atingissem
a estatura de um Paulo Coelho e dispensassem tais
serviços, incluindo-se aí a não
interferência dessas editoras na versão
física dos livros (em papel). Pois os autores
de best-sellers podem eliminar as editoras e intermediários
e negociar diretamente com as lojas.
Por
outro lado, as editoras de livros didáticos
sabem que o modelo atual está condenado,
que seu monopólio vai diminuir. Chegou o
sonho dos didáticos eletrônicos, devidamente
protegidos, com copyright e certificado digital
de cada exemplar. Mas outro sonho é que possibilitem
marcar passagens importantes, sublinhar, fazer anotações
coladas às páginas _ além de
permitirem co-autoria, como acrescentar gráficos,
vídeos, imagens, gravar e anexar aulas sobre
assuntos ou capítulos específicos.
Como se vê, o conteúdo dos livros didáticos
digitais não pode ser estático. Deveria
permitir ao professor competente reescrever ou apagar
parágrafos, sem consultar o autor ou a editora.
Talvez a exceção fosse substituir
um parágrafo que trata da origem do universo
sob o ponto de vista evolutivo por outro sob o ponto
de vista religioso. Pois o autor ficaria pê
da vida. Gostaria ele de monitorar as alterações,
bem como se livrar de plágios e ofensas gratuitas.
Quanto
à alfabetização das crianças
acima da pobreza absoluta, fique tranquilo. Computador
para elas é brinquedinho do dia-a-dia. São
involuntariamente alfabetizadas nele. Aprendem a
escrever digitando nele. Adeus, cartilha! Você,
brasileiro ou brasileira, que tem 20 anos ou menos,
ainda escreve à mão? Como é
sua letra?
Constato,
também, que aquele conceito de leitura como
hábito diário, construído e
aprimorado desde a infância, está se
modificando. Não vai muito além da
decodificação do texto.
Nesse
longo período de transição
do livro em papel para o digital, teremos lançamentos
simultâneos em versão eletrônica
e versão impressa, tal qual ocorrera com
O símbolo perdido, de Dan Brown
(Sextante, set. 2009); com O seminarista,
de Rubem Fonseca (Ediouro nov. 2009) e com O
aleph, de Paulo Coelho (Sextante, ago. 2010),
dentre outros best-sellers. O mago, primeiro brasileiro
a ter toda a obra no Kindle, chegou a declarar que
“A indústria editorial se adapta ou
morre.”
Mas
a oferta eletrônica de títulos em português
é insignificante, se comparada com a de títulos
em inglês. Não obstante tenhamos observado
que a língua deixa de ser barreira na comunicação
virtual, pois a tradução é
instantânea. Basta tocar nas ferramentas corretamente.
Quem sabe voltaríamos ao tempo anterior àquele
da construção de Babel? E poderíamos
falar uma só língua. Seria o inglês?
Brincadeiras
à parte, essa língua sem fronteira
será um portal para o encontro de diversas
culturas. Isso já fora preconizado pelo Peixe
Babel, através de máquina, em O
guia do mochileiro das galáxias, de
Douglas Adams, no final da década de 70.
Esse Peixe da Babilônia, ao ser colocado no
ouvido, permitia que o ouvinte compreendesse todos
os idiomas falados. Semelhantemente, em Guerra
nas estrelas (1977), saga criada por George
Lucas, temos o andróide de protocolo C-3PO,
fluente em mais de seis milhões de idiomas.
É a ficção científica
chegando primeiro. Você se lembra: Júlio
Verne chegou à lua 100 anos antes dos astronautas
americanos alunissarem lá.
Voltando
à oferta de livros eletrônicos nesse
período de transição, devemos
destacar, também, os audiobooks ou livros
falados, como os da Biblioteca Virtual do Estudante
de Língua Portuguesa – USP, com 52
livros falados para uso acadêmico. Acrescente-se,
ainda, a Audiolivro Editora _ grande site com franquias
virtuais em que qualquer cidadão pode ter
um e-comerce personalizado para venda de audiolivros
pela internet. O Tocador de Audiolivros permite
ouvir a obra inteira de graça, como acontece
com O Código Da Vinci, de Dan Brown,
ou com o Novo Testamento, narrado por Cid Moreira.
Devem ser mencionados aqui os books, com dispositivo
anagliptográfico, que permitirão a
leitura em braille na internet. Além do Projeto
Livro Falado e do site www.livrofalado.pro.br.
_ que têm como objetivo principal a inclusão
cultural, artística e educacional dos deficientes
visuais.
A
tecnologia digital e suas aplicações
evoluem numa velocidade galopante. É difícil
para um usuário médio acompanhar e
absorver tanta inovação. Observamos,
ainda, que a televisão e a internet se aproximam
de tal maneira, que tudo estará brevemente
em uma só tela. Sem limites.
Na
abrangência da leitura eletrônica, deve
ser mencionada a Estante Virtual.
Uma aliada dos “sebos” (lojas de livros
usados) e um portal que disponibilizou o acervo
de quase dois mil sebos, livrarias e livreiros autônomos
no Brasil. Esse site oferece cerca de seis milhões
de títulos e ferramenta de busca simplificada
(assunto, autor, título, cidade, nome do
sebo).
André
Garcia, 32 anos, foi o criador dessa Estante Virtual,
em 2005, e que no momento conta com mais de meio
milhão de leitores cadastrados no Brasil.
Assim, as lojas de sebo ou de livros usados, cujos
títulos são difíceis de encontrar,
foram substituídas por essa Estante, com
sucesso para quem sabe garimpar eletronicamente.
Quanto
aos bibliotecários atuais,
terão que se especializar em pesquisas online
e terão que se preparar para orientar os
estudantes na seleção e cruzamento
de informações obtidas nos sites,
bem como na separação do lixo eletrônico.
Deverão
também saber indicar as fontes relevantes,
fidedignas, confiáveis e lembrar ao pesquisador
que a Wikipédia oferece um conhecimento horizontal,
linear. Embora seja ela mais visitada que sites
universitários, científicos, de conhecimento
específico, vertical, ou mais aprofundado.
O raciocínio é o seguinte: Para que
ocupar um espaço imenso (numa casa restrita)
com livros diversos, dicionários e enciclopédias,
livros específicos, etc, se eu posso, sem
me levantar, ter todas as informações
e tirar todas as minhas dúvidas aqui, na
Wikipédia ou no Google?
Por
outro lado, muitos afirmam que assuntos filosóficos,
que exigem maior abstração, reflexão
e compreensão do texto, continuarão
vivos no livro em papel. E as informações
breves, pouco estressantes, que exigem menor esforço
mental e tomam menor tempo, seriam hospedadas na
internet ou no iPad. As bibliotecas teriam servidores
com acesso para pesquisa em seus acervos digitais?
As
bibliotecas virtuais brasileiras
ainda são incipientes. Tentei visitar algumas
e me deparei com: “Fora do ar”, “Voltar
ao mapa” ou encontrei a tela completamente
vazia.
Quanto
aos direitos autorais na internet,
existe lei. O problema é que não há
regulamentação para que ela seja aplicada.
Então surge o kibar, o plágio de conteúdo,
ou de propriedade intelectual, incluindo-se os blogs
pessoais. Muitas vezes visando ao lucro e benefício
próprios, deixando de dar o crédito
de autoria e sem modificar ou recriar o original.
Autores
independentes, como eu, colocam gratuitamente seus
livros ou textos na rede para consulta e apreciação
do leitor; não para alteração
e distribuição (e-comerce) da obra,
sem que seu criador ou responsável tenha
opinado, ou seja consultado.
Outro
aspecto a ser considerado no que se refere ao sistema
de proteção é o da escolha
do e-reader, porque não se compra apenas
o leitor portátil. Há também
o compromisso com a livraria eletrônica específica,
pois os livros de uma empresa não servem
nos leitores de outras. Exceção à
Sony e ao Nook que usam o mesmo sistema de proteção.
O novo Kindle não lê livros desprotegidos
no popular ePub como os outros leem.
Se
for instalado o aplicativo Kindle da Amazon no iPad,
será possível o acesso aos mesmos
livros nele, além de permitir ler PDF, tendo
o devido cuidado com alguns DRM, que são
bloqueios de direitos autorais. Lojas, como Livraria
Cultura e Gato Sabido, apesar dos livros estarem
em ePub, usam um DRM não compatível
com o iPad. E, depois da compra, você descobre
que só vai carregá-los, se quebrar
o DRM.
Mas
há sites em português ou hospedados
em diretórios de download,
com 120 livros de sucesso recente, como a série
Crepúsculo, Harry Potter, livros de Dan Brown
e outros.
Google
Livros fez acordo com autores e editoras para colocar
online, ao alcance de todos, livros e informações
existentes do mundo inteiro. Os autores vivos que
não permitirem a digitalização
de seus textos estarão remando contra a corrente
no ciberespaço, que é o espaço
não físico das redes digitais.
Como
se observa, os direitos autorais eletrônicos
ainda não estão bem definidos no Brasil.
E, se estivessem, poderíamos contar com a
competência e dedicação de nossos
hackers.
Segundo
Heloísa Buarque de Hollanda, em livro@futuro.com
(nov./2009), o livro em papel ficará melhor,
se sofisticará e redefinirá a própria
identidade, assim como a pintura passou a ser mais
ela mesma com o surgimento das vanguardas, após
a invenção da fotografia. Outros preconizam
que a forma do livro se adaptará a cada nova
mídia. E se preocupam com a qualidade do
novo conteúdo, avaliado conforme o número
de venda, o resultado financeiro. As grandes editoras
é que decidem e expõem o que devemos
ler? Como e onde vamos comprar esses livros? Pela
internet?
As
livrarias tradicionais de menor porte estão
fechando e best-sellers ocupam estantes em supermercados,
ao lado de mídias em disco, como se vê
no Carrefour, Walmart, Lojas Americanas e outras.
Você já imaginou o Flamboyant de Goiânia
sem a Saraiva, Goiânia Shopping sem a Leitura
ou Bougainville sem a Nobel? E as lojas Marc Jacobs
e afins tomando seus lugares?
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