| Halloween
medieval
Ercília Macedo-Eckel
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Pintassilgo
que segue morcego morre de cabeça para
baixo. |
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Para os fãs
dos bruxos, noivos e noivas de Satã. |
Não
é final da Idade Média. É começo
do século XXI. Porém ainda é
tempo de caça às bruxas, esse mito
demoníaco que responde às angústias
noturnas, religiosas, afetivas e consumistas de
nossos dias. Há uma bruxa específica
de quem falarei. Não é a sétima
filha, conforme a tradição das feiticeiras.
É a primogênita, com cheiro de enxofre,
iludida que foi pelos fantasmas de Satã.
Tornou-se capaz de modificar o destino de seus pais
e de seu irmão adolescente. Não haverá
esconderijo nem defesa contra os projetos de perversidade
dessa bruxinha loira com seus aliados. Em vão
colocar na porta do quarto uma camada de sal, o
sinal-de-salomão, a estrela de seis raios,
a cruz benta, ou uma Bíblia de aço.
De
quem eu falo tinha família e tudo que desejava.
É rica, novinha, sem rugas, limpinha, bem
vestida; tem cabelos escondendo o rosto, boca em
forma de coração. Comunica-se no mínimo
em três línguas, como se requer de
uma bruxa de elite. Não veio a pé,
de ônibus, ou voando num cabo de vassoura.
Chegou em seu próprio carro. Um monstrinho
com cara de anjo. Uma serpente vinda não
se sabe de onde. Talvez do inferno de sarça
ardente consumida pelo fogo das drogas. Talvez vinda
de caminhos tecidos de espinhos que o percurso da
noite assombram. E, às vésperas do
Dia de Finados, metamorfoseia-se em mariposa, ora
atraída pela luz escada acima, ora ziguezageando
entre o lavabo e a biblioteca no andar de baixo,
dando volta em torno de si mesma, egoisticamente
iluminada.
Cara-de-anjo
colaborou no projeto macabro e sinistro: o ritual
de sabá. Os fantasmas de Satã fabricaram
artesanal e meticulosamente, com muita antecedência,
os bastões da matança covarde. Tais
bastões mais pareciam serpentes peçonhentas.
Estavam longe do sentido de apoio, defesa e regeneração.
Estavam distantes daqueles bastões mágicos
dos milagres, da vontade divina, dos anjos, santos
e profetas. Eram barras de ferro-do-mal, em que
floresceria a morte. Pois, com suas pancadas, a
fonte da vida secaria para o casal.
Luzes
acenderam. No saco os instrumentos da execução.
Richt... gericht... hofen. É barra. Barra
de ferro cantando. Dani. Daniel. Dandan. Cravinhos
cravou engenhosos golpes no meu pai lindo, muito
lindo, manfredamente lindo, na cama dormindo. Nenhuma
lágrima. Com a ajuda do Demo, não
conseguirei chorar. Acabem logo com isso. Eu disse,
tampando os ouvidos.
Psiu!
Luvas de consultório são calçadas.
É barra. Barra de ferro cantando. Torpe,
cruel mente. Tatuado de Anticristo. Cris. Cristian
cravou psi... quia... tra. Ah, tá! Richt...
gericht... hofen. Na cama marisiamente dormindo.
É barra. Barra de ferro comendo. Su... Su...
Su... Socorro, minha filha. Cara-de-anjo, tampa
os ouvidos: Acabem logo com isso! Sem defesa a dama
tem os dedos moídos e o pescoço quebrado.
2002.
Madrugada de 30 para 31 de outubro. Dia das Bruxas.
No sabá há festa dedicada a Satã.
Esse ritmo noturno infernal nos permitiu a nós
três, seus discípulos, oferecer-lhe
o duplo homicídio triplamente qualificado.
Mas eu amo muito, muito, meu pai. Mas eu amo muito,
muito, minha mãe.
Perdão,
ainda assim, quero minha liberdade e minha herança
de volta. Com minha ajuda vamos arrombar a maleta
de dinheiro. Sei o segredo; a vantagem é
dar mais autenticidade à farsa. Devemos fazer
o pior que pudermos, cometer as maiores atrocidades,
pois não queremos pagar mico na apresentação
de contas à assembléia sabática.
Nela os que se comportam com alguma humanidade são
vaiados e isolados da tribo. Coisa insignificante
para nossa galera foi picharem modestamente a mansão
Richthofen de preto. Por que não nos solicitaram
o sangue das vítimas para grafitarem ? pelo
menos a fachada ? com desenhos e mensagens obscenas?
O
Demo pede muito mais! Cara-de-anjo, diga que seu
pai a violentava sexualmente, há muito tempo.
Embora todo feiticeiro saiba que a melhor bruxa
é aquela nascida do incesto da mãe
com o próprio filho. Isso me deixa bastante
complexada, como uma bruxinha de segunda categoria.
Então o Sujo pediu mais ao nosso trio: distribuam
tempestade e granizo como se fossem pão,
digam a missa às avessas, cuspam no pastor
evangélico, confundam os encarnados com falsa
mediunidade, desregulem o batuque nos terreiros
de candomblé, prejudiquem os vizinhos, adoeçam
eles de raiva, esparramem epidemias no mundo, comam
carne de criancinhas, matem os animais com maus
tratos, envenenem os rios e os peixes, destruam
as árvores, arrebentem e incendeiem tudo
nas ruas, nos presídios, nos estádios...
Finalmente, ordena o Capeta: Movimento de Libertação
dos Sem Lei, invada e porreteie o Congresso Nacional
e seus representantes pela frouxidão das
leis ou pela falta de reputação do
poder constituído. Porém temos medo
de ir à fogueira da injustiça, antes
de cumprirmos esta lista fantástica. Caso
isto aconteça, é certo que nossa tribo
aí fora terminará o serviço.
Satisfeito,
Satã toca sua flauta, enquanto o casal enamorado
toma a direção do Motel-sabá
para realizar as fantasias sexuais mais extravagantes.
E três dias depois (3 nov./2002), na casa
de campo dos pais falecidos, Você-sabe-quem
oferece um churrasco para os mais íntimos.
Comemora seu nascimento para o parricídio
e matricídio. Para o sucesso dos bastões,
dos porretes, e do aniquilamento e da morte. Parabéns
pra vocês!
Cara-de-anjo
(Você-sabe-quem) atualmente deu para imitar
São Francisco de Assis, toda esgalhada de
pássaros, inclusive abutres e aves de rapina.
Sempre ambígua, nós a vimos usando
camiseta-Minnie-cor-de-rosa, pantufas-coelhinho-frágil;
tendo os cabelos pré-adolescentes salpicados
de prendedorezinhos. Linda, muito linda! Em frente
às câmaras, olhava assim... de lado,
na obliqüidade de sua frieza sinistra e dissimulação
trigueira. Seus olhos pareciam emitir um clarão
estranho do qual ela própria teria medo.
No presídio continuará isolada pelo
horror que causará às colegas de cela.
Opsis! Será condenada ou terá julgamento
eternizado? Entretanto não lhe faltará
fã-clube para incorporar sua imagem, mandar-lhe
e-mails e defender ardentemente essa celebridade
demoníaca.
Ah!
Acrescente-se ainda que, no final do sabá,
as cédulas da maleta esfacelaram-se em folhas
secas nas asas do vento. O cavalo voador de 1.100
cilindradas que conduzia os irmãos Cravinhos
deu bandeira e transformou-se em morcego juntamente
com seus ocupantes. Cara-de-anjo, também
e com certa regularidade, metamorfoseia-se em fêmea
desse quiróptero sob a profecia que, depois
de morta, os cupins e as formigas se recusarão
a comer seu cadáver.
Post
scriptum: Não me espanta porém
se, em breve, a história dessa bruxinha loira
encabeçar a lista dos livros mais vendidos
no Brasil; ou, quem sabe, concorrer, no cinema,
com o filme 2Filhos de Francisco.
2ª Redação: Caldas
Novas, 6 de junho de 2006.
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