| Ghost-writer
ou escritor fantasma
Ercília Macedo-Eckel
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ML, redator
do Senador, cujo nome preservo por razões
compreensíveis, autor de belos discursos,
lidos por vários senadores, me confessa
ao ouvido, enquanto ouve um: “Eu sou
como La Fontaine: faço os animais falarem”.
(Millôr, Veja, 12 ago./09,
p. 33) |
Desde
meus tempos de estudante esse assunto me atrai.
Mas naquela época ainda não havia
nome ou rótulo para a barriga de aluguel
da obra intelectual ou artística. Se tinha
eu não sabia.
Então,
depois de passarmos pelos gêneros literários
e periodização literária, caímos,
inicialmente, no trovadorismo lírico português
da época medieval (século XII –
XV: 1189 – 1434). Foi aí que eu ouvi
e li pela primeira vez sobre alguns reis e nobres,
decaídos ou não, que se faziam de
autores, trovadores, para ganhar suas amadas, ou
condecorar seus castelos com a fidalgia de homens
letrados, acima do povo e, talvez, do clero. Eram
oficialmente poetas.
Muito
antes disso, porém, Teodorico o Grande, rei
dos godos e depois dos italianos durante 33 anos,
pediu a Cassiadoro, seu conselheiro e secretário,
que escrevesse para ele uma obra enaltecendo os
godos, sua antiguidade, nobreza e capacidade para
governar. Enfim, que desse um passado glorioso à
classe dominante gótica da época.
Essa obra manuscrita (12 vol.) se intitulou Libri
XII De Rebus Gestis Gothorum. Quando o rei Teodorico
faleceu em 526, Cassiadoro continuou ghost-writer
dos sucessores. Faleceu em 540. Rico.
Em
551, Jordanes fez um resumo fictício daqueles
manuscritos que haviam se perdido. Chama-se Getica
e ficou como a obra que inicia a história
dos godos.
Faz
tempo, então, que é moda e muito natural
o político, ou o poder, se utilizar da competência
de um oculto. Tanto que Clement Atlee (1881 –
1967) disse a respeito de seu adversário
Winston Churchill: “Era um político
tão medíocre que escrevia os próprios
discursos”. O ghost-writer do presidente Jonh
Kennedy era Ted Sorensen, autor da celebre frase
do discurso de posse: “Não pergunte
o que seu país pode fazer por você,
mas o que você pode fazer pelo seu país”.
No Canadá o escritor oculto é quase
oficial é reconhecido por The Writers Union
of Canada. Nos Estados Unidos os escritores de discurso
têm até nome. São os speechwriters.
Hábito que vem da Antiguidade, exercitado
até entre familiares: Já foi dito
que Aspásia de Mileto, a bela mulher de Péricles
(Séc. V a.C.), era quem escrevia os pronunciamentos
do marido, apelidado de Olímpico de Atenas
pela sua eloquência e inteligência.
Mais
recentemente Nilson Souza no blog Tripo G (V), 26/09/06,
fala-nos sobre um suposto ghost-writer do papa,
que para dar um lustre de cultura no discurso de
Sua Santidade, numa universidade da Alemanha (12/09/06),
desenterrou a citação de um imperador
católico bizantino do século XIV (1391)
sobre Maomé, provocando mal-estar e furor
no mundo islâmico. A frase é a seguinte:
“Mostre-me tudo o que Maomé trouxe
de novidade, e encontrarás apenas coisas
más e desumanas (…)”.
Há
filmes em que o oculto é protagonista, como
em O escritor fantasma, onde Jhon Vandermark (Alan
Cumming) é um compositor fracassado e Sebastian
St. Germain (David Boreanaz) é um charmoso
escritor, que gosta de agitação cultural.
Jhon simpatiza com ele e quer ajudá-lo em
tudo. Mas acaba tendo ciúmes da popularidade
do jovem escritor com as mulheres e se torna agressivo.
Sebastian morre acidentalmente, Jhon encontra seus
manuscritos e resolve publicá-los como criação
própria, chamando para si os créditos
de autoria da obra. De repente o falecido volta
para atormentá-lo. Realmente esse era um
escritor fantasma.
***
O
trabalho de escritor fantasma é muito flexível.
Veja alguns casos: O cliente pode entregar esboço,
dados completos, algumas idéias, ou nada.
Nesse último caso a obra é de total
responsabilidade e produção do fantasma
profissional. Pode acontecer de o cliente o querer
apenas como consultor, assessor, revisor de texto,
ou acompanhante até a editora. O escritor
fantasma bem qualificado poderá, ainda, produzir
obras sobre “celebridades” que vendem,
escrever livros de autoajuda, ou best-sellers para
escritores renomados, ou para editoras que usam
o nome desses escritores, com a aquiescência
deles. O fantasma vale também para compositores
musicais, artistas plásticos, estilista e
outros.
Um
bom ghost-writer ou escritor oculto tem cuidado
em adequar o texto ao nível e estilo do cliente.
Nos discursos, evita termos difíceis e palavras
proparoxítonas para os menos letrados. Mas
põe citações filosóficas
e palavras estrangeiras na boca do culto, que saberá
pronunciá-las corretamente. Entretanto é
recomendável que o cliente leia, estude o
texto antes do pronunciamento. Que marque as pausas,
o olhar para o público, a cadência
das frases, sabendo o significado de todas elas
no contexto, no conjunto das ideias expostas. Quando
uma autoridade maior se imagina semideus e, de repente,
sai do script para o improviso, nós conhecemos
o estrago que pode causar, pelas besteiras que diz
dentro ou fora do país.
Para
todos esses serviços e orientações
o ghost-writer é bem pago, mediante contrato
registrado em cartório, com os compromissos
de sigilo total e de não receber os créditos
de autoria. No caso das obras de responsabilidade
plena, os exemplares estarão prontinhos no
prazo determinado, com sua foto, copyright em seu
nome… E na Bienal do Livro você desfilará
com o crachá de Autor, dará autógrafos,
entrevistas, etc.
Querido
leitor, Márcio Lima pergunta na Revista paradoxo
(18/04/06): “Será que seu autor preferido
é mesmo escritor?”
No
Brasil correm vários boatos de escritor fantasma.
Alguns confirmados, outros deixam poucas dúvidas.
Consta que Chalaça (Francisco Gomes da Silva)
era o redator dos discursos e textos pronunciados
ou publicados por D. Pedro I, no Primeiro Reinado.
Incluindo aqui os artigos do imperador sobre a Constituição
de 1824. Autran Dourado era o ghost-writer de Juscelino
Kubitscheck: “Eu era apenas a mão que
escrevia.” O escritor Mello Cançado
era responsável pelos textos e pronunciamentos
de Aureliano Chave, então Governador de Minas.
E
fatos mais próximos de nossos dias também
devem ser mencionados nos serviços dos escritores
ocultos. A morte trágica de Ayrton Senna
(01/05/94), por exemplo abalou todos os brasileiros
e, em especial,a então modelo Adriane Galisteu
(21) sempre relegada pela família do falecido,
e que rivalizava com a apresentadora Xuxa o título
de viúva do piloto. Sobre esse acidente e
incidente foi editado, ainda em 1994, Caminho das
borboletas. Meus 405 dias ao lado de Ayrton Senna.
Assinado por Adriane Galisteu. Com 270.000 exemplares
vendidos. A obra se apoiou em trinta horas de depoimentos
da autora, gravadas em Sintra, Portugal. Mais cartas,
bilhetes, álbuns, recortes. Correu notícia
na época que o texto teve produtor oculto
(mas nem tanto): “Como editor tentei ser absolutamente
fiel a sua narrativa (…) repassando as fitas
das entrevistas, percebi que Adriane Galisteu se
refere a seu namorado no presente (…).”
O editor ou ghost-writer Nirlando Beirão
seria o verdadeiro autor de Caminho das borboletas?
Já
O doce veneno do escorpião: O diário
de uma garota de programa, best-seller de Bruna
Surfistinha (2005), não é segredo,
nem oculto a ninguém. O nome do real autor
é Jorge Tarquini, que escreveu a obra a partir
do blog de Bruna.
Na
ficção também o tema pode ser
abordado amplamente, como no romance Budapeste (2003)
de Chico Buarque através do protagonista
José Costa, duplamente ghost-writer (Brasil
e Hungria), duplamente marido (Vanda e Kriska) com
dupla língua. Dormia treinando e falando
húngaro, “a única língua
que o diabo respeita” (p.6). Vivia entre Rio
de Janeiro e Budapeste (Zsoze Kósta, o duplo),
sem muito apego afetivo, mas carregado de conflitos
existenciais.
No
final da narrativa, o leitor e o protagonista se
surpreendem. O ex-marido de Kriska convida Costa
no Rio para uma surpresa na Hungria. Talvez quisesse
se vingar do ghost-writer, agora mais húngaro
que brasileiro, por ser um anônimo melhor
que ele. Então José Costa pode ver
o lado de seus clientes: Budapeste, romance publicado
em seu nome, com palavras alheias e muito estranhas
às suas. E glórias no parlamento,
no palácio, na universidade, com título
de doutor – “… agradeci com um
discurso empolado surgido no meu bolso não
sei como” (p.171).
Costa
era tão profissional que participava de encontros
anuais de escritores anônimos, os escritores
fantasmas.
No
âmbito da política o boato mais recente
sobre ghost-writer que li veio do blog de Bruno
Kazuhiro (4 nov. 2009), o Perspectiva política:
Dilma pode contratar escritor fantasma para redigir
sua própria biografia às vésperas
da eleição. Ali o colunista Ilimar
Franco afirma:
“Dois
nomes de peso se recusaram a escrever a biografia
da ministra Dilma Rousseff. Acharam o prazo para
entregar o trabalho, fevereiro/2010 muito curto.
O PT está agora atrás de um escritor
fantasma. A obra será assinada pela ministra”.
Eh!
De meus tempos de estudante até hoje esse
assunto fica cada dia mais interessante e atual.
Voltarei a ele para falar dos espíritos e
profissionais dos trabalhos escolares e acadêmicos.
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