| Estelionatários
profissionais
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Ercília
Macedo-Eckel |
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Enquanto houver cavalo
e égua velha boa de pelo, São
Jorge não anda a pé. |
Minha
sobrinha e eu éramos atendidas no Itaú
da Av. 85, pouco acima do Bloco Marista, quando
chegou uma senhora de aproximadamente 75 anos. Tinha
boa presença, mas aparentava muito cansaço
e fragilidade. Dirigiu-se ao caixa prioritário,
rente de nós. E, como não havia ninguém
na fila, foi imediatamente atendida. Abriu a bolsa
e tirou seu cartão cinco estrelas, dizendo:
“Vim depositar aquele dinheiro de volta, juntamente
com outros saques feitos antes noutras agências.”
Levou novamente a mão na bolsa e retirou
um envelope grande do banco Itaú. E desse
envelope puxou uma espécie de bolsa de náilon
verde. Eu estava bem ao lado dela na fila e percebi
sua agitação para desatar uma corrente
plástica com cerca de vinte nós górdios
que prendiam o fecho do zíper. Tentei ajudá-la.
Finalmente abrimos um pedacinho. O suficiente para
vislumbrarmos um pacote de talões 6,5 x 14,0
cm.Todos com a seguinte página de abertura:
“Como se defender de estelionatários”
– Autor: Antônio Teodoro de Itaberaí.
Então
me lembrei do “Choro chorado”, de Billy
Blanco:
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O que dá pra rir
dá pra chorar,
questão só de preço e medida,
problema de hora e lugar.
Mas tudo são coisas da vida,
o que dá pra rir dá pra chorar. |
Vou
chamá-la de d. Regina. D. Regina riu amarelo
para a atendente do caixa e desmaiou por alguns
segundos, mas logo voltou a si. Um escrivão
aposentado que acabara de entrar na agência
orientou a vítima a procurar a Delegacia
do Estelionato, na Cidade Jardim, ao lado do Detran.
“Art. 171. Talvez lá a senhora identifique
os criminosos.” Alguém gritou: “Essa
delegacia não existe mais. Vai naquela ali,
olha! E a senhora teve sorte, pois disse que não
fez empréstimo forçada por eles.”
Porém
d. Regina me disse que era uma mulher muito conhecida
em Goiânia, procuradora aqui por 30 anos,
e que estava morrendo de vergonha de sua inocência.
Com raiva de seu bom coração. R$ 15.000,00!
Contar para a polícia, família e amigos?
Nem pensar! Então me apresentei como escritora,
com três livros já publicados e “Portais
da viagem” quase pronto. Não custaria
nada acrescentar mais um texto, e que esse texto
poderia sair antecipadamente no “Diário
da manhã” e na internet. Isso alertaria
alguns leitores para o fato em que “contos”
antigos, já esquecidos, foram repaginados
com parceria moderna, requintes de psicólogo,
lábia de mágico, e leve sugestibilidade
pré-hipnótica. Talvez contados por
salafrários com curso superior. É
a escuta do comando macio pela vítima predisposta
a ouvir esse comando e ter pouca ou nenhuma atenção
para os detalhes, não percebendo a falta
de lógica, ao executar as tarefas impostas
pelos estrategistas da ação criminosa.
_
Mas a senhora precisa me dizer tintim por tintim
o que aconteceu para eu redigir sua história.
_Tá
bem. Hoje, sexta. Dia 8 de janeiro, não é?
Programei comprar umas bobagens e passar o final
de semana com meus netos e bisnetos em Bonfinópolis
e sítio próximo. Como tenho boa saúde
e prática em andar a pé, apesar da
idade avançada, estacionei meu Corola prateado
antes da entrada para o Carrefour, naquela avenida
que dá para o viaduto, rumo ao Autódromo.
Eram aproximadamente 10:00h. No contorno interno
que se atravessa para o Flamboyant, fui abordada
por um matuto forte, estatura mediana, pele morena
(não escura), entre 32 e 37 anos:
_
A patroa me adesculpe d'eu estrová a senhora.
Maisi eu fiquei de pegá uma encomenda pro
meu patrão japonês qui tá viajano.
Maisi num consigo topá cum indereço
mode fazê isso. Ói esse papé.
Deu-me
um pedaço de folha de caderno, com dados
confusos, letra ruim, e referência a um prédio
verde, onde, disse-me, encontraria o senhor Jamil,
mascate na zona rural de Itaberaí. Respondi-lhe
que seria difícil alguém poder ajudá-lo
somente com aquelas informações. E
dei os primeiros passos para continuar meu caminho,
quando ouvi:
_Entonsi
tô quage perdido. O tassista da Rodoviar dexô
eu aqui. Num sei lê. E tô sem dicumento.
Perdi eis esses dia. Maisi minha graça é
Antoim Teodor e moro com minha mãezinha numa
greba de sete arquer, quebrano à esquerda
de Itaberaí.
_O
senhor quer que eu o leve para tirar a 2ª via
de seus documentos?
_
A certidão de nascimento meu é do
municipo de Araguari e também perdeu. Meu
falecido pai é de lá. Dexô uma
herancinha, maisi...
Nesse
momento aparece do outro lado do asfalto um senhor
claro, estatura mediana, bem vestido, de 30 a 35
anos. O matuto o chama com o papelzinho na mão
e tudo se repete, como foi comigo. Acrescido de
um telefonema feito pelo chegante a um órgão
público, pedindo informações
sobre o caso... Não sei se é verdadeiro
ou deliberado meu esquecimento da parte seguinte.
Talvez seja por vergonha de tamanha burrice, ou
desgosto pelo excesso de confiança na dupla.
Só me lembro de que recusei a recompensa
oferecida pelo roceiro, tão logo ele saísse
de suas dificuldades, com nossa ajuda. Aliás,
propus que ele ficasse apenas com o chegante, Alexandre,
que eu estava atrasada para a viagem. Mas... o matuto
fez questão de minha presença idosa
como testemunha dos andamentos. Recusei mais uma
vez a recompensa. Porém insisti que desejava
alfabetizá-lo algum dia.
_
Óia, dotô, a patroa qué fabetizá
eu só de bondade!
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Tem gente que ri da
desgraça,
duvido que ria da sua [própria].
Se alguém escorrega onde passa
tem riso do povo na rua. |
O
tal “Alexandre” tinha um imenso anel
de ouro na mão direita e na parte alta dele
a letra A. No punho esquerdo, uma vistosa e pesada
pulseira, também de ouro, com algumas letras
nos gomos. Maior destaque para a letra A. Mais aliança
de casado. Inicialmente mostrou-nos o prédio
onde mora, numa das ruas atrás do Wal-Mart
e do Itaú, entrando acima da praça
do relógio, no Jardim Goiás. De lá
trouxe uma maleta e uma pasta de executivo, dizendo
que elas lhe são muito úteis para
guardar os documentos de sua agência de carros.
Para onde seguirá logo mais. Exibiu também
uma carteira de funcionário público
do Meio Ambiente, com brasões do Poder e
letras douradas. Abriu-a para mim. Não peguei.
Nem olhei o que deveria.
Andaram
cinco horas comigo num carro preto (…), chaveiro
de peixinho tecido com delicados fios de metal branco.
Até uma oficina de reforma de veículos
antigos Alexandre nos mostrou ao passar: “Tem
máquina aqui de R$ 200.000,00.” Sua
“esposa” ligava de tempo em tempo para
reclamar o atraso do agente para o almoço.
As respostas agora me parecem códigos de
andamento do “processo”. Eu ficando
cada vez mais longe do meu Corola. “Não
se preocupe, deixo a senhora lá, de volta.”
Das
10:00h às 15:00h ninguém comeu, bebeu
ou fumou. Nem eu. Apenas Antônio pediu para
“mijá”. Apesar de estar muito
estressada, eu diria que foi um sequestro ligth,
quase um autossequestro.
Porém
fiquei surpresa, quando Alexandre parou o carro
próximo ao Itaú, em rua de pouco movimento,
e abriu a maleta do início da história,
repleta de dólares. Mostrou o interior de
cada masso. Parece-me que U$ 10.000,00. Pôs
no meu colo uma nota de U$ 100,00, que devolvi imediatamente,
sem verificar se era falsa. Depois abriu a pasta
de executivo, também repleta, mas de cédulas
de real, meticulosamente organizadas. E folheadas
para demonstração. O matuto teve uma
dor de cabeça súbita: “A dotora
tem um comprimido mode dô de cabeça?”
Respondi-lhe: “Deve ser fome. Tantas horas
sem comer...” Então “Alexandre”,
o agente de carros, funcionário público
do Meio Ambiente e gentleman-coração-de-batida-lenta,
disse: “Acho que posso resolver sozinho os
problemas de nosso amigo Antônio Teodoro de
Itaberaí.” Assim, o roceiro abriu o
console ao meu lado e me entregou o envelope com
os pacotes de dinheiro que eu lhe havia emprestado.
Agradeceu muito, dizendo não carecer mais
de minha ajuda. Não me lembrei da volta ao
Corola, quando me dirigi ao banco próximo.
O
fim é previsível. Está no primeiro
parágrafo desse texto. E não pense
que você nunca cairá nessa. Problema
de hora e lugar. Levei d. Regina até
seu carro. Acredita que ele estava lá e ela
ainda seguiu viagem para Bonfinópolis?
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