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escritoraercilia@hotmail.com

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Do crepúsculo ao amanhecer
(nova versão)

Ercília Macedo-Eckel

________________________________________________________________________________

De: eduardodesmodo@clea.com.br
Para: stepheniemeyer@hotbook.com
Assunto: Crepúsculo 1,2,3 e 4 – na lista dos mais vendidos no Brasil. Nova versão.
Enviado em: 11/11/2009, às 11:00 h
Anexos: anexo-1 | anexo-2 | anexo-3 | anexo-4
________________________________________________________________________________

          Sou Eduardo Desmodo, seu personagem goiano e brasileiro, narrando na primeira pessoa. Tomei a palavra de Bela. Minha intenção era escrever-lhe cartas tradicionais, de papel, e enviá-las pelo correio. Mas pareceu-me antiquado, diante da modernidade e do triunfo da tecnologia, exibindo-nos telefax, e-mail com anexos, site, chat, msn, orkut, blog, twitter, webcan... Um dilema, porque o sangue de meus ancestrais ainda me faz pensar manuscrita ou datilograficamente. Motivo pelo qual resisto aos e-mails, e também pela enormidade de meus textos. Penso em arquivar algum material no pen drive, ou quem sabe colaborar aqui no Brasil com uma versão reduzida, água-com-açúcar, quase simplória, de sua grande obra, como se pode verificar nos quatro anexos que agora seguem, juntamente com.


Meu abraço bem humano:
Eduardo Desmodo.

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Anexo-1

          Entrava crepúsculo e findava crepúsculo. A faixa azul do horizonte foi novamente substituída pelo alaranjado poente. O sol morreu. Capotou no espaço para o outro lado do mundo. Mas novo sol e novo tempo virão e trarão nova lua. Porém essa marcha para o Oeste sempre foi tenebrosa. Tive amnésia nos meus primeiros anos de vida. Sofri muita tensão sexual, muita luta interna na adolescência. Depois das 23:00 h, costumava assistir aos programas do tipo “Tenha essa garota em seu celular 24 horas por dia.” Meu punho direito ficou grosso de tanto treino de mão fechada. E até hoje prevejo o Crepúsculo dos deuses, o fim do mundo para breve. Um breve que nunca chega. Desde antes do sermão profético no Monte das Oliveiras.
          Completei 20 anos, gosto muito de ler. Por isso pensam que sou erudito. Por vezes me vejo na Idade Média, com mais de 600 anos, copiando livros antigos, como um frade copista, encerrado em um convento-castelo. Dali a pouco, sinto que tenho todas as idades e que não tenho idade nenhuma. De repente me apercebo de minha idade real. E me lembro de que conheci Bela das Neves na aula prática de Anatomia Humana, no Hospital das Clínicas da UFG. De que no laboratório (Biologia), verificamos os diversos tipos sanguíneos e descobrimos que o meu é do grupo AB, receptor universal, e que o de Bela é do grupo O–, doador universal.
          Bela é uma garota tímida, filha de pais separados, vinda do interior para Goiânia, a fim de cursar Medicina e, parece-me, viver emoções desconhecidas. Alugou um apartamento no Setor Universitário, dividindo-o com duas colegas de sala. E logo ficou sabendo que existia o sinistro de prédio. Trata-se de um cão negro e peludo que fora enterrado na base da ala norte, na época da construção do edifício. Acabou a mesmice de meus dias. Apesar do cheiro forte que exala de seu corpo, encantei-me com sua pele clara e com seu pescoço esguio de veias aparentes. Me vieram sentimentos estranhos; sofri muito para não mordê-la, quando estávamos juntos. Então comecei a me esquivar, até que um dia ela me abordou, com seu jaleco branco de doer os olhos:
          – Você me evita, por quê?
          – Não quero deixar você chateada, mas sinto um cheiro muito forte de alho, vindo de sua boca, de seu corpo...
          – Você é descendente de grego? Dizem que esse povo tem horror a alho. Ou é folclore? Eu adoro alho. Em Santa Bárbara, onde morava, eu assava alho na fogueira de São João para comer com milho no espeto. E hoje, no café da manhã, salpiquei molho de alho e alho desidratado e torrado sobre dois ovos fritos. Uma delícia!
          – Prefiro bife mal passado e chouriço mouro, feito com sangue de galinha caipira, que só minha mãe sabe fazer.
          Eu disse isso puxando Bela para o restaurante universitário. Mas ela recusou, ainda não tinha fome. Mal entramos em meu carro, o detector de emoções (gadget) instalado nele percebeu alterações nos batimentos cardíacos, muito suor e sensação de náusea vindos do corpo de minha colega e disparou o alarme com monitor explicativo. Bela desmaiou em meus braços. Minha boca procurou a dela. E desceu mordiscando seu pescoço lindo. Gritei: Cordeiro de Deus, tirai os demônios do mundo!
          Tive medo de mim mesmo, daquele meu outro eu. Pensei: Preciso ter cuidado com as palavras. Principalmente com aquelas palavras (e frases) compridas feito veias. Seria eu um bicho, ou um homem? E se Bela descobrir minha fosforescência e transformação repentina no crepúsculo, quando o sol tombar no horizonte novamente?

Direi mais nada!

Anexo-2

          Dia 18 de outubro tivemos lua nova. O começo dos ciclos lunares. E logo naquela data Bela me lembrou: Cheguei à minha maior idade, 18 anos. Eu sou a carta da lua no baralho do tarô. 18º arcano. Pensei comigo: Ela é lua inconsciente, luz refletida, cheia de imaginação e devaneios. À noite, depois das 22:00 h, levei-a, juntamente com alguns colegas de faculdade e amigos comuns, para “apagar as velinhas” nas pistas da Atrium Hall.
          Nos movimentos da música eletrônica e por descuido, Bela espetou o dedo no broche da blusa. O sangue começou a correr arroxeado sob a luz azulada dos refletores. Um cheiro forte do Além bateu no nariz de todos, principalmente no de Jaime Cigano que investiu contra Bela, com olhos fulminantes, dando a impressão de querer bebê-la toda. O odor lhe era familiar. Isso porque, numa de suas andanças pelo interior, teria bebido (Eu disse bebido) a mãe da moça e gostado do elixir. Porém eu, Eduardo Desmodo, e minha Gangue de Sanguessugas, chegada de Brasília, levamos Jaime ao perene esquecimento do cheiro e do gosto daquela poção. Voltei para cuidar de Bela, chupei o sangue de seu dedo por algum tempo, coloquei nele uma gota de Povidine e a cicatrização foi imediata. Nem sinal ficou.
          Jaime levou tanta pancada que desapareceu. Vitória, sua companheira, não se cansa de procurá-lo nos hospitais e delegacias. Inutilmente, sabemos.
          Nesse encontro de aniversário Jacó Lobo cruzou meu caminho e aprofundou amizade com Bela das Neves. Deu com a língua nos dentes: Contou-lhe que eu tenho a mania de deixar hematomas no pescoço das garotas. Sabe o que aconteceu? Bela ficou doidinha para me conhecer melhor. Parece se excitar com situações e sentimentos perigosos. Saímos várias vezes. Porém ela continuou se insinuando para Jacó, cuidado dos cabelos compridos dele e dizendo: Comigo você não vai cortar cabelo nenhum, meu Sansão. De vez em quando, ele aparece desgrenhado, esguedelhado, pela manhã, como se morcegos tivessem se divertido em suas madeixas à noite. E das Neves lhe faz mais cafunés durante o dia.
          Esse enrabicho de Bela por Jacó me deixa com vontade de morrer, sumir no mundo. No próximo final de semana vou para o Rio Araguaia e terei coragem de pegar sol ao lado de jacarés. Minha vida não está valendo nada mesmo. Eu fosforescente, brilhando e desejando que um macho de verdade me porreteie e me bata estaca, até me matar. E Bela? Nem aí. Deverá juntar-se com minha irmã Alice, ir para as baladas no Setor Bueno e Marista... Depois, ainda terá a ousadia de me telefonar dando relatório com fotos. Pode acreditar.
          Porém sei os riscos que das Neves corre ao lado de Jacó Lobo e seu bando. Tive um sonho em que ela estava numa batalha entre Lobo e Desmodo. E esse último dominava a espécie humana comum, a qual Bela pertence, até o momento. Por isso não posso deixá-la livre em aventuras perigosas, como pular do cânion, em Alto Paraíso. E, depois, é certo: Jacó vai rastar papo de a haver ressuscitado do meio dos morcegos com a ajuda do sogro dr. Isaque, pai dele.
          Pensando bem, eu amo Bela de verdade. Vou atrás dela agora. Custe o que custar. Encontrei-a ainda em seu apartamento, com um vestido-frente-única meio cinza:
          – Bela, eu amo você, querida. Sempre te amei.
          Disse vários segredos no ouvido dela. Nossas salivas se misturaram, línguas se entrelaçaram, friccionando terminações nervosas para lá e para cá. Saí para sua testa, pálpebras, bochechas. Desci para o pescoço...
          – Querido, tenho uma crise de arrepios e tremor. Não sei se é doença, frio ou medo. Estou mole-mole.

Cordeiro de Deus!


Anexo-3


          A escuridão foi chegando devagar. Começou a engolir o sol ao meio dia. Ergui a cortina. Não havia sinal de chuva ou tempestade, mas o ar estava entre chumbo e azul-marinho. Achei estranho. A mídia eletrônica e impressa não divulgou nada. Consultei o calendário: nenhuma previsão de eclipse.
          Bela sempre correu perigo nesse jogo de xadrez, nesse combate entre claro e escuro. Cada um no seu quadrado de surpresa. Ou no redondo de seu tempo? A lâmpada de 100 W estava acesa mais à frente. Olhei para das Neves em seu quarto, pensando que estudava Anatomia, e a vi concentrada nO manual do bruxo, no mundo mágico de Harry Potter, escrito por Allan e Elizabeth KRONZEK. Especificamente no verbete vampiro, página 288, e que abrira sozinha, segundo ela. Pensei comigo: Bela está perdendo as defesas contra os Desmodos. Quando ponho meus olhos bem fundo nos dela, vejo que é apaixonada por mim e que posso controlar suas ações.
          Não obstante, Jacó Lobo vive no meu calcanhar e anuncia aos quatro ventos que ele é o escolhido, porém Bela parece não ter muita certeza disso e não lhe promete nada. Apesar de ser tão fascinada por homem peludo que chega a salivar, quando vê seus braços, os primeiros botões de sua camisa fora das casas, ou quando varre e recolhe uma pá cheia de seus pelos. De pelos dele! Preciso mostrar meus poderes sobre esses sentimentos tão ameaçadores e que me matam de ciúme.
          Imagine você que há aproximadamente vinte dias Jacó me veio com a história de uma visão, na qual Bela lhe servia de travesseiro fofo para seu sono e que depois se transformara em escada para que ele atingisse o paraíso. Não resisti à provocação. Dei-lhe tantos sopapos que ele caiu num amontoado de pedras. E não se levantou. Plateia bateu palmas. Deixei-o sangrando e segui com a boca em frangalhos para o pronto-socorro das Clínicas. Jacó sumiu sete dias. Dizem que pediu proteção divina, depois de haver deslocado o osso da coxa, na luta contra um desconhecido no Setor Novo Mundo. Soube, também, que se ligou a um grupo de mancos.
          Alice acaba de chegar do cursinho, comenta sobre a escuridão que tomou conta da cidade em pleno dia e, enquanto lancha, me faz outras observações:
          – Olha, mano, depois do desaparecimento de Jaime Cigano você notou que Vitória passou a vestir preto e quase não aparece em público? Em festas, nem pensar. Também não se separa daquele véu de casamento. Quer ser enterrada com ele, para se defender de alguma luz ofuscante. E vive dizendo por aí que vai vingar a morte do companheiro em Bela para atingir você. Tem mais: uma pulguinha me contou ontem à noite que essa viúva está criando 22 anõezinhos vindos do Egito para promover a maior suruba em Goiânia. Será que ela está lelé-da-cuca, Edu? Ao que lhe respondi:
          – Temo pela vida de Bela e pelo que Vitória poderá nos fazer com a ajuda desses anões. A gente está sempre sob ataque ou ameaça de morte, vindos de fora ou de dentro de nós mesmos! Há muitos vampiros e monstros interiores.
          De repente, os sinos das igrejas, há muito desativados, voltaram a repicar doidamente: “Os vivos chamamos, os mortos pranteamos, os relâmpagos orientamos.” Teria morrido alguém importante ao meio-dia? Teriam confundido a hora do Angelus? Ou querem quebrar as forças do mal?
          Vultos brancos brotam de todos os cemitérios e se espalham pela cidade e circunvizinhança, carregando enormes cruzes cintilantes com os nomes de pessoas mortas por estupro, assassinato ou acidente. Sucuris que vieram nas últimas enchentes aparecem nas torres das igrejas com olhos de farol para iluminar as trevas, e com línguas de Lilith – mulher criada antes de Eva – para disseminar o ódio contra e entre casais e filhos. Muitos habitantes cheios de superstições acendem velas, dependuram terços no pescoço, desenham cruzes nas soleiras das portas, ou espalham sal nas calçadas em volta das casas.
          E-mails e SMS’s só têm uma mensagem: “Os vivos chamamos, os mortos pranteamos, os relâmpagos orientamos.”
          Meus olhos fazem flashes em todas as direções. Vejo o invisível. O pelotão de anõezinhos recém-formado por Vitória marcha na 5º Avenida, bate os borzeguins no asfalto, exibe 22 pistolas Mauser 712 para o alto e para os lados e entoa Os vampiros, de Zeca Afonso, com voz de macho, bem macho:


(...)
A toda parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios, poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas.
(...)

          Quando esses anõezinhos chegam em frente ao edifício onde está o apartamento de Bela, Vitória ordena: Fora de forma, marchem! E entrega um alto-falante ao chefe deles que anuncia:
          – Vimos do mundo subterrâneo, das grutas, cavernas e pés de serra do Egito. Ordenamos que desça, Bela. Ordenamos que desça, Bela.
          A voz era tão poderosa que fez tremer janelas, bases e estruturas do prédio. Enquanto isso 21 anões atiram tresloucadamente nos veículos que passam e nos transeuntes e curiosos das calçadas. Desorientadas as universitárias que dividem residência com das Neves ligam para mim e para Jacó, mas nós já estamos chegando ao local da confusão. No desespero, ambos esquecemos diferenças, estranhamentos antigos e recentes e vimos defender quem amamos. Também convocamos auxiliares. Eu trouxe, além de Alice, minha tribo Sanguessugas de Brasília, que está em Goiânia a fim de fazer o curso Aprenda a organizar shows para os seres das trevas. Jacó, por sua vez, chega escoltando a Gangue dos Mancos com seus bastões, em cujas pontas é facultativo o encaixe de ferrão de arraia. Vitória e os anões ocupam a esquerda do prédio. Eu, Alice e minha turma de sanguessugas, bem como Jacó e seu grupo, ficamos à direita. Estou me sentido pesado como um morcego sugador em voo noturno e rasante. Papo cheio. Não sei se sou homem, bicho ou homem-bicho.
          Ouço o coro novamente: Ordenamos que desça, Bela. Ordenamos que desça, Bela. As estruturas do prédio balançam. Vejo um cão negro e peludo, olhos de fogo, dando três voltas em torno de Vitória e de seus filhos de criação. Então Bela aparece com macacão cor chumbo e gola lilás na sacada do apartamento, também com alto-falante, mas voltado para a esquerda, sentencia: Eu lhes envio os sete flagelos do Apocalipse em minha trombeta de ferro e lhes fulmino com meu sopro-relâmpago, através deste poderoso holofote, para que vocês voltem, agora mesmo, ao mundo subterrâneo de onde vieram.
          Na dúvida, Bela ainda ligou sobre eles uma mangueira com jatos fortes de água benta. Tombaram todos incontinenti: Os anões, um monte de brita; Vitória, apesar do nome, cinzas envoltas no véu da vingança e das trevas.
          Bela vira o alto-falante para a direita do edifício e acrescenta: Dou gargalhadas por mim e por vocês Eduardo, Jacó e famílias de ambos, mais aliados. Eu me salvei de mim mesma e de meus inimigos. Serei dona de meu destino. Viverei as consequências de minhas escolhas. Ninguém me colocará numa jaula. Ninguém me levará à força a lugar nenhum. Ainda que a cidade desapareça, eu canto de alegria, que tenho a mim e a todos vocês, espero.
          Então eu berrei: Estou orgulhoso de você, querida. Você é o sol, tem luz própria. Case comigo! E ela respondeu na frente da multidão que sim. Que nos casaremos logo que terminar o semestre letivo. Nem olhei para a cara de Jacó.
          Minha felicidade era tanta que não percebi a chegada do Corpo de Bombeiros, dos repórteres dos principais jornais e canais de tevê e da polícia dessa jurisdição, inquirindo testemunhas, recolhendo feridos, cadáveres em cinzas ou petrificados.
          É chegada a noite real. Logo, logo seremos personagens dos noticiários.

Cordeiro de Deus, tende piedade de nós.

 


Anexo-4

          Advertência: Escrevi esse anexo aos poucos, quase como um relatório do que foi ou do que será.


          Querida autora Stephenie Meyer, Bela e eu nos casamos no dia 18 de dezembro de 2009. Passamos por muitas peripécias, motivos bastantes para que esse anexo siga com tamanho atraso. Espero que me compreenda.
          Nosso casamento foi simples, de manhã. No final da cerimônia, o religioso anunciou: Os noivos vos convidam para um brinde no salão ao lado. Na rápida recepção foi servido Bolo com champanha de boa qualidade e doces requintados, ao som de CD’s com as músicas de nossas vidas. Brindamos apenas com parentes, padrinhos e amigos mais próximos. Os pais de Bela que são como cabelo de freira – a gente sabe que existe mas não vê – também compareceram, para surpresa de todos. Minha sogra mostrou que é sogra mesmo, quando me disse:
          – Ver uma filha casar tão rápido e tão nova é pior que ver tucano devorando filhote de sabiá-laranjeira, logo que o bichinho rompe a casca.
          Na sexta-feira mesmo, depois do meio dia, seguimos para Pirenópolis. Bela ainda não conhecia essa cidade histórica, fundada em 1727 pelos Bandeirantes, e tão perto de Goiânia. Cerca de 130 km. Hospedamo-nos no Hotel Cantares de Salomão. E descansamos até aproximadamente às 17:00 h.
          O sol se põe tarde nesse horário de verão. Assim decidimos dar uma volta pelo Centro Histórico, visitar algumas igrejas e museus do século XVIII, bem como lojinhas de artesanatos. São muitas. No percurso de aclives/declives e calçamento irregular, Bela ia me falando de seus desejos para logo mais e dias seguintes:
          – Jardim fechado sou eu e fonte selada. Machuque-me bastante. Não tenha medo. Não gritarei para assustar os outros hóspedes. Nem vou perceber se você me quebrar ao meio. Eu quero que você tire isso de mim, devagarinho. Mas tire, por favor! Estou cansada de tanto ouvir você dizer: Vou tentar. E se eu fizer algo errado? E se eu machucar você? E se…
          Pensei comigo: É, Edu, você é mesmo um bundão. Cuidado, que essa virgem acabará te estuprando, hem? Às éguas dos carros de Faraó eu a comparo. Garota fogosa. Ela inteira, eu em parte. Na dúvida. Talvez sim. Mas, nada rapidinho, que esse é um momento sagrado, cheio de ritos, do qual ela deverá se lembrar ao logo de sua existência…
          – Que rumo tomaram os pensamentos de meu amado?
          Silêncio de mil palavras.
          Bela manuseou panfletos, alguns artesanatos em várias lojas e acabou se decidindo por uma casinha de pedra, uma bolsa de palha e uma máscara de cavalhada. Também desejou conhecer, no domingo, a feira de artesanato, na Praça do Coreto. No entanto, de dez em dez minutos, cochichava em um de meus ouvidos:
          – Vamos para Cantares de Salomão. Machuque-me bastante. Devagarinho. Tire-me logo isso, apressemo-nos, amado meu.
Respondia-lhe:
          – Apascenta esses cabritos que pulam dentro de ti, amada minha.
          Já era noite, quando chegamos ao Hotel. Bela se deitou em diagonal na cama, me olhando firme, decidida. Desavergonhadamente nua, sem controle. Me perguntei: Como pode uma virgem ter atitudes explícitas de garota de programa vulgar? Dei-lhe um sorriso torto. E meus olhos galgaram montes e vales de seu corpo. Deitei-me ao seu lado e ela me cobriu com flexibilidade de serpente. Os cabelos de Bela desceram ondulantes como fios de prata sobre mim. Tive medo e desejo ao mesmo tempo. Pensei que chegaria à loucura.

***

          Ao amanhecer, percebi o lençol com manchas escarlates, avermelhadas como se forrado de púrpura do trono de Salomão:
          – Hímen ou Himeneu, ó Himeneu! Ó deus grego que preside ao casamento e à lua de mel!
          Então vi Bela acordando, com olhos de pomba assustada:
          – Ó amado meu, estou com catamênio desde ontem. As emoções da cerimônia de casamento fizeram o sangue mensal descer antes do previsto…
          Fui para cima dela, como um animal faminto vai à caça. Mas nesse momento minha amada entra no banheiro me dizendo que descobriu um local na cidade onde é servido chouriço de sangue cru temperado com especiarias. E acompanhado de castanha assada de caju, ou sementes de gergelim. Almoçamos mais cedo e nesse lugar.
          Por volta do meio dia, saímos para um passeio ecológico na Cachoeira do Paraíso. Depois de muitas diversões e andanças, deitamos debaixo de uma árvore. Os beijos de minha amada eram melhores do que o mel, do que o vinho. Olhei para Bela e a vi diferente. Seu corpo parecia envolto numa luz brilhante vinda daqueles filetes de sol que atravessavam os galhos da árvore. Seus olhos de amêndoa continuavam cerrados, cheios de segredos e sombras. Mas seu rosto irradiava doçura e cintilava como diamante.
          Ficamos em Pirenópolis quinze dias. Visitamos várias cachoeiras, a Serra dos Pireneus, Vaga Fogo, Fazenda Babilônia e percorremos trilhas, cercadas de mata e cerrado sobre rochas. Porém a noite inteira e todas as noites, fizemos nossa festa erótica. Cântico dos cânticos de Salomão. Quando eu parava, Bela reclamava. Será que ela me vê como uma máquina de… fazer amor e que não para nunca?
          Nessa cidade histórica, passei a enxergar Bela como uma veela, melhor, como uma ninfa do cerrado com pele de porcelana, dentes de fazer inveja às atrizes da Globo, me induzindo a expandir em proezas. Afinal, tornara-se uma Desmodo e encantadora como sempre. Pés leves. Por vezes ela dançava no terraço do Hotel, sob a face obscura da lua de verão.
          Eu também dancei e dancei duas semanas. Em algumas ocasiões, na corda bamba. Perdi completamente a razão, os sentidos e a noção do tempo. Fiquei entorpecido. Me esquecia de comer, beber e dormir. Ali, no quarto com ela, dançando a dança do ventre, até quase morrer de exaustão. Sem quebrar promessa, nem contrariar minha amada. Mesmo quando eu tinha que engolir lembranças de Jacó. Bela sempre evoca sua presença em várias situações e percepções do cotidiano. Nunca consegui compreender exatamente por quê.
          Logo que retornamos a Goiânia, nos preocupamos em procurar trabalho, das Neves e eu, pois as mesadas que recebemos de nossos pais não bastam para atingir o padrão de vida que desejamos nesse momento. E a coisa parece que vai se complicar, porque ouvi (sem querer) Bela falando com Alice no telefone mais ou menos isso:
          – Estou me sentido diferente, boca salivando, enjoada, querendo vomitar. Não suporto mais o cheiro de alho e de café que eu adoro tanto. Será gravidez? Vou fazer o teste de farmácia com a primeira urina, amanhã. Se der positivo, devo ir a meu ginecologista para outros exames. Só depois conto para Edu. Por que eu não iniciei o uso de anticoncepcional dois meses antes do casamento?

***

          Jacó, que andou sumido, voltou a frequentar nossa casa agora, em maio de 2010, e se espantou com o tamanho da barriga de Bela e com a quantidade de hematomas nas partes visíveis de seu corpo. Principalmente no pescoço. Das Neves definha na mesma proporção que a gravidez avançada. Muitos familiares sugerem que ela deve abortar. Minha mãe Rosa, doida por um netinho ou netinha, afasta essa gente de nossa casa e dá a maior assistência à Bela. Mas o crescimento uterino continua maior do que o esperado e minha querida está muito anêmica. Tem carência de ácido fólico, por mais que coma folhas verde-escuras. E, mesmo não sendo diabética, Bela apresenta resistência à insulina, daí alta glicemia, feto superalimentado e enorme.
          Temos empurrado o curso de Medicina com a barriga. Bela passa quase todos os finais de semana internada no Hospital das Clinicas da UFG, para receber transfusão de sangue e outros cuidados médicos. Jacó, quando sabe, vai visitá-la:
          – Se precisar de sangue, querida, venho amanhã em jejum…
          – Obrigada, você é mesmo um grande amigo.
          Sempre que aparece uma chance, Lobo coloca o ouvido na barriga de Bela, para auscultar o coração do feto e alisa carinhosamente a protuberância abdominal de minha mulher. Não larga de nosso pé esse cara-de-pau.

***

          Internação vai, internação vem, e nessa última, 3 de setembro de 2010, a gestação de aproximadamente 250 dias deu os primeiros sinais de trabalho de parto. Bela esperava que a via-sacra continuasse até 266/270 dias, a partir da fecundação. Me telefonou assustada e pediu que avisasse também minha mãe e Alice. Elas foram na frente. Eu cheguei logo mais com a malinha previamente preparada, trazendo todos os petrechos de uma recém-nascida.
          Bela não resistiria ao parto normal. Tive permissão para seguir com os médicos para a sala de cirurgia. Porém, antes que o anestesista aplicasse a peridural, o vigoroso feto coroou, mostrou o cocuruto cabeludo e desceu lacerando o períneo e a si próprio. Teve lesões no ombro, devido ao tamanho. Quase seis quilos. Quando o obstetra lhe cortou o cordão umbilical, Mina viu os peitos da mãe e deu gargalhadas de estremecer os instrumentos médicos. Nesse momento, tive a sensação de estar suspenso do chão, flutuando. Vi a recém-nascida resplandescente, contornada de estrelas. Senti tontura, pensei que fosse desmaiar. E Mina, deste então, mama, dorme, cresce e se diverte.
          Há também um gigantismo intelectual em minha filha: pronunciou frases completas aos sete meses; leu Chapeuzinho vermelho com dois anos. E, antes dos três, dominava a internet. Internet: um perigo!

***

          Jacó ali, marcando presença. Pondo Mina no colo, dando bombons, bonecas, algodão doce, beijinhos. Alice, que agora no final desse ano de 2013 termina Psicologia, me chamou a atenção para o desvelo de Lobo com a criança desde o ventre da mãe.
          – Impressão sua. Respondi-lhe.
          Mas, dia desses pela manhã, Jacó levou-a para passear na vó Rosa e sumiu. Não chegou à casa de minha mãe. Meu pai Kalil retornou da fazenda e está se movimentado para saber o paradeiro de sua netinha querida. E eu pergunto:
          – Que será de minha Mina?
          – Estou aqui, papai. Peguei um táxi-mirim. Lobo não me comeu, nem comeu vozinha Rosa. Eu cortei aquele dedão dele no dente.
          – Mamãe, olha aqui, eu tenho dentes grandes. E orelhas pequenas.
          À noite, eu fiz uma surpresa para Bela, enquanto ela tomava banho. Cobri nossa cama com pétalas de rosas vermelhas. Quando ela entrou no quarto, ficou tão comovida que me abraçou chorando. E tudo que vivemos juntos se passou magicamente na lembrança de minha querida e ela foi carinhosamente debulhado essas emoções nos meus ouvidos (…).
          Até que percebemos um clarão no Oriente. Pássaros de várias espécies anunciavam a alvorada. Com o sol brota também a esperança de seguidos hematomas e amanheceres, colorindo nossas vidas.

Direi mais nada!


Ercília Macedo-Eckel é membro da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, sócia da União Brasileira de Escritores – GO e da Academia Petropolitana de Letras – RJ. Mestra em Letras pela UFG.


 

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