| Diálogo
macabro
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Ercília
Macedo- Eckel
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“O homem só se tornará
humano para com seu semelhante, quando o for
para com a natureza”.
(Fred Adams, astrofísico americano).
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Antes de digitar, tenho ainda o hábito fossilizado
de escrever à mão. A tecnologia parece
inibir minha composição, descarrilar
meu comboio de ideias. É nesse afã
de palavras que regularmente vem visitar-me um garrichinha
saltitante. Asas curtas e arredondadas, cauda diminuta.
Bico fino a pinçar insetos nas frestas do
telhado aqui no sítio, a vasculhar - como
se fosse um bom faxineiro - as gretas das prateleiras
e dos suportes das lâmpadas que guardam mariposas
de ontem. E eu a olhá-lo enternecida, a caneta
suspensa do papel, voando com ele, livre dos pesos
do dia-a-dia. Garrincha fala comigo e eu falo com
ele, para lá e para cá, nas alturas
e nos pisos instáveis dos sonhos.
Mas
garrinchinha não veio hoje, tal qual a formiguinha
de Godofredo Rangel, em Vida ociosa. Essa
formiguinha aparecia regularmente à noite,
na hora em que o narrador (1ª pessoa) escrevia.
Desse modo ele sentiu muito, quando a doceira-noturna
sumiu de vez: Um dia ... ela não veio
mais. Esperei-a uma noite, muitas noites. Nada!
Nunca mais voltou...
Assim
foi com meu garrichinha. Nunca mais voltou. Que
horas são em seu celular, Eunice?
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Nove e vinte.
-
Mal esperei você se levantar e já começo
a chorar as pitangas ...
Na
mesa te aguardam, aqui ao meu lado, pães
de queijo ainda mornos e uma pamonha de sal com
linguiça.
-
Ah! obrigada, Ester. Quanto ao garrichinha sumido,
acho que tenho uma explicação macabra
para lhe dar.
-
Eunice, qual?
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Vim aqui por cima, por Santa Cruz. Percorri grandes
plantações de soja, cana, milho, eucalipto.
(-
Esse percurso pode ser falso. Eunice não
gosta de caguetar ninguém).
-
Está me ouvindo, Ester? Parece conversar
consigo mesma.
-
Não, não! Aguardo curiosa sua explicação
macabra.
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Vim beirando o rio Muqueca, até chegar ao
cruzamento com o rio dos Bois. Adivinha o que eu
vi? Sem querer ver, mas vendo, na espreita, de dentro
da Nissan Frontier: Quatro agricultores em fila
indiana. Os três últimos conduziam
nas costas (cada qual) um saco para 50 kg. Na frente
vinha o primeiro homem trazendo enxadão,
boca-de-égua e abrindo buracos não
muito pequenos. O segundo homem despejou na primeira
cova: sabiás, sanhaços, garrichinhas,
tiês, pardais, pássaros-pretos, joãos-de-barro,
coleirinhas, canários, papagaios, periquitos-do-reino,
araras, beija-flores, inhambus, juritis, bem-te-vis,
rolinhas, tico-ticos, guachos...
-
Como você conseguiu identificar tudo isso
num rápido esvaziar de saco?
-
Quando eles se retiraram, fui investigar as três
covas, juntamente com o peão José
Carlos, que parece saber tudo sobre pássaros.
Havia lhe dado carona até à entrada
para as terras dos Amaral. Você sabe, por
aqui as estradas são imprevisíveis
e a gente deve ter sempre na carroceria um enxadão
e outros apetrechos para emergências. E, se
aparecer um trabalhador braçal para fazer
companhia e adjutorar, melhor ainda.
Tem
mais, Ester. Esse foi o primeiro saco. O homem do
segundo saco entornou quero-queros, saracuras, tucanos,
sariemas, codornas, perdizes, gralhas, jacus, mutuns...
na segunda cova. E o agricultor da frente a fechou
de imediato, seguindo para a abertura do terceiro
buraco.
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Eunice, você se lembra de Passaredo,
música de Francis Hime e Chico Buarque?
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Te esconde cilibri (...)
Bico calado, toma cuidado
Que o homem vem aí (...)
Voa, sanhaço
Vai, juriti (...)
Que o homem vem aí (...) |
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Ester, ainda não falei do terceiro saco.
Dele chegou até nós o mau cheiro de
sapos, rãs, pererequinhas grimpadoras, tatus,
teius, coelhos, preás, quatis, cutias ...
E,
já chegando aqui, encontrei-me com sua vizinha,
a Socorro, que levava queijos para vender na feira.
Mostrei a ela minha preocupação com
o que vi e ela me acrescentou acerca dos cadáveres
de tamanduás-bandeira, onças, gatos-do-mato
e capivaras à mercê da fome de cachorros
e urubus da vizinhança, os quais, mal começavam
o banquete, saíam se contorcendo para cair
logo adiante. Esses foram os primeiros a ser enterrados
lá mesmo na Fazenda Baal-Zebube, juntamente
com as embalagens de Furadan. Afora os desmaios
dos peões, quando manuseavam o produto, o
atendimento nos prontos-socorros e as reses que
tombaram onde pastaram os brotos da terra por elas
invadida.
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Meu Deus! Furadan, Eunice! Levado pelo vento ou
pelas águas esse agrotóxico causa
um grande estrago ao meio ambiente. Falando nisso,
lembro-me, agora, de um episódio que nunca
lhe contei e que, diluído e ampliado em vários
parágrafos, daria um conto:
Há
alguns quilômetros daqui, os bezerros recém-nascidos
quase sempre têm os olhos e os umbigos comidos
por urubus. Seu Marcolino foi se irritando com tantas
crias perdidas. Até que pegou o último
bezerro morto, arrastou-o para bem longe, um pasto
sem gado, picou-o em sete pedaços e polvilhou
as peças com um pacote de Furadan (Há
uma versão de que com sete tubos de chumbinho).
Em seguida, depositou cada pedaço em sete
localidades estrategicamente escolhidas naquele
pasto. Você pode imaginar as consequências
em terra e água? Agravadas por uma chuva
que faria descer vários filetes de enxurrada
ribeirão abaixo? Mas ninguém abre
a boca. Vira e mexe morre um aqui. Picado com podão.
Esquartejado que nem bicho de açougue.
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Ester, essa conversa está me deixando deprimida.
Vamos pegar uma cor no rio do Peixe e colher pequi
na volta, para nosso almoço?
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