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Corpolatria, narcisismo
e um pouco de história

 

 
Ercília Macedo-Eckel
 

 

Sou linda e gostosa, sim. Se eu fosse feia, talvez nada disso tivesse acontecido. Geisy Arruda.
Libera (essa bruxa, essa Jezabel) para nós. Gritou a massa da Uniban aos policiais. (22/10/09).

 


          É sabido que herdamos dos gregos da Antiguidade a devoção pelo corpo, sua glorificação diante dos aspectos atléticos (Jogos Olímpicos), sua relação com a boa saúde e fertilidade. Mas a Idade Média chegou e trouxe consigo a preocupação exacerbada com o pecado e, consequentemente, com o dever de cuidar da alma, pois o espírito deve predominar sobre a matéria. Os Jogos Olímpicos foram abolidos para salvar o corpo pecador que precisava ser purificado, flagelado, lacerado, apedrejado, executado ou queimado em praça pública. Que destino tiveram os corpos das bruxas da Inquisição e dos criminosos contra a fé católica? Em contrapartida surgiu o Renascimento (séculos XV e XVI), propondo negações espirituais, dizendo que o homem se basta a si mesmo e que é o centro de tudo. Foi a volta aos valores da Grécia antiga e aos Jogos Olímpicos. Foi o retorno aos valores do corpo que começa a ser estudado anatomicamente, como o fizeram Leonardo da Vinci e Durer, em sua tela “Adão e Eva”. O humanismo letrado divulgou preceitos e valores anticlericais, “universalmente humanos”, e contrários à ideologia espiritual da Idade Média.
          O corpo, principalmente o feminino, sempre esteve submetido aos desígnios divinos. E seu conceito mais antigo já o considerava instrumento da alma. Só que a alma passou pelo mito da queda e do pecado. Lúcifer caiu do céu e o primeiro casal humano caiu fora do jardim do Éden, ao comer o fruto e perceber a nudez de seus corpos. Assim, a Igreja e o convento educavam as mulheres para a procriação e para Deus e as casas de política educavam os homens para o poder e para a guerra. É fácil compreender hoje porque, “valorizando” o aparelho reprodutor feminino, temos as mulheres-fruta e para destacar a virilidade masculina conhecemos os armários e os homens-tronco.
          Modernamente o corpo passou a ser idolatrado, adorado, cultuado, exposto. É a corpolatria atual. Dessa forma o corpo se mercantiliza, torna-se um valor, um produto fashion, objeto de consumo. Mas ser magra, alta, ter cabelos lisos, traços delicados e quadril de mulher francesa é um desafio hercúleo para a nossa mestiçagem brasileira. E, se você tiver manequim acima de 42, como eu, vai passar apuros no provador até encontrar número maior de verdade. É preciso estar dentro do padrão de beleza, retocar a pele com laser, usar botox, ter boca de Angelina Jolie, metamorfosear-se constantemente. Envelhecer jamais. Morte e velhice são palavras inaceitáveis, assombrosas. Se Deus quiser, serei bela e jovem até os 80. Dizem muitas, para atender à moda, à mídia de consumo ou à vaidade pessoal. Gosto um pouco disso, mas não do exagero que desemboca para o patológico.
          Há uma socialização e institucionalização do culto ao corpo. Seus adeptos nem se lixam para os problemas sociais e culturais de seu tempo. Assim, centros de cirurgias estéticas, academias de ginástica, spas para todas as idades, pesos e medidas se multiplicam até nas periferias. Modernizou-se a percepção do próprio corpo, o qual passou do mecânico ao digital. E, com máquinas fotográficas, a tecnologia do século XX e o incremento da cultura de massa, esse corpo saiu da pintura e da escultura e ganhou reprodução em fotos, cinema, televisão, vídeos, internet e celular. Surgiram, então, os termos “paparazzi” e “celebridade”; esse último não no sentido heroico ou de grandeza intelectual. “Celebridades” se admiram mais que os cidadãos comuns. Sofrem do delírio de grandeza estelar, fazem exigências absurdas nos hotéis, precisam dos aplausos constantes de seus súditos e admiradores.
          No entanto essa obsessão pela própria imagem emprega muita gente e comercializa bilhões de produtos. Surgem novas mulheres nas páginas das revistas e na televisão como ícones dessa febre do culto ao corpo, com novo design. Nariz empinado, seios transbordantes, barriga de tanquinho, braços e coxas bem definidos. Tudo transformado, esculpido com bisturi e prótese de silicone. Os homens também aderiram a essa milionária indústria de beleza: Cirurgias, academias, clínicas de emagrecimento, dietas alimentares muitas vezes duvidosas, cosméticos, roupas colantes sobre o corpo depilado, lipoaspirado, anabolizado, e tratado com hormônios de crescimento. Adônis exibe sua nudez sarada em público e nas telas. Mas homem desnudo, usando cremes, brincos, pintando unhas e cabelos não era coisa de boiola? Não era somente a mulher que deveria se expor para consumo? Era. Hoje há uma acoplagem de gêneros no que se refere à estética e exibição corporais.
          O sucesso pessoal está ligado ao investimento no corpo, em sua reconstrução, lapidação e metamorfose. Dessa forma ele, corpo, poderá se transformar até em um painel ilustrativo com nomes, frases e desenhos eternizados na pele, pois não são fáceis de ser removidos. A tatuagem e os piercings também se tornaram um comércio lucrativo em nome de um corpo “personalizado”.
          A venda ilegal de remédios, falsificados ou não na internet, promete corpo de deus grego, emagrecimento, ganho de músculos e muito mais. Os criminosos estão saindo “do tráfico de drogas para o de medicamentos piratas”, diz a alemã Sabine Kopp.
          Garotos ignoram os riscos na busca do corpo ideal, modelado. Usam “bombas” ou esteroides anabolizantes, de origem sintética, similares à testosterona, para aumentar a massa muscular. E muitos desses produtos são de uso veterinário e podem matar na primeira aplicação. Meninas, crianças que nem abandonaram a chupeta, vão ao salão de beleza, tiram sobrancelhas, pintam unhas e cabelos, fazem apliques. Usam saltinhos e plataformas como adultas.
          Chegará o tempo em que injeções de células-tronco nos farão eternamente jovens, produtivos por 300 anos e com mais de 30 casamentos. Nanorobôs limparão artérias, destruirão vírus, bactérias, células cancerígenas e muito mais. Desde 1930 os cientistas descobriram que passar (um pouco de) fome faz viver mais. E prometem para breve “fome em pílulas”, à venda nas farmácias. É o resveratrol, provindo de alguns tipos de uva. Não haverá expectativa de vida. O tempo será indefinido. Produzirão moldes para a criação artificial de qualquer órgão, a partir da célula do paciente.
          Por falar em “fome em pílulas”, o que vai passar hoje no Corujão? Quero atacar a geladeira. Também não precisamos cair no outro extremo, o “fat pride” ou “orgulho de ser gordo”. Acredita que suas protagonistas já têm apoio da moda e de alguns seguimentos da medicina? Veja o sucesso da atriz americana Joy Nash no You Tube. E Fluvia Lacerda, brasileira, manequim 48 é a “Gisele Bündchen plus size.” São as adeptas da gordura sem neurose, como Renata Poskus Vaz, jornalista e defensora do padrão GG.
          Percebo que meu valor pessoal não deve depender da fita métrica e da balança. Nem meu corpo estar acima de minha vida intelectual, profissional, espiritual, familiar, social, econômica ou política. O universo é um conjunto amplo, vai muito além do corpo alienado. Há muita coisa importante no mundo, além da auto-imagem, da auto-exibição ou do egocentrismo e narcisismo. É só desviarmos os olhos do espelho que veremos a natureza e a humanidade, ouviremos outras vozes além da nossa e da “grife” ideal: Sua imagem de pessoa vale mais que você mesmo ou mesma? Vale mais do que seu eu real? Seu corpo é a segunda página de seu curriculum? Ou seria a primeira?


Ercilia Macedo-Eckel é profª. aposentada e escritora.
www.erciliamacedo.com.br (Portais da viagem).


 

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