No
Santuário de Cora Coralina
Ercília
Macedo-Eckel
No final
de 2001 José Mendonça Teles me autografou No
Santuário de Cora Coralina. Dias depois (11
de dez.), a Academia Feminina de Letras e Artes
de Goiás encerrou brilhante e saudosamente, nesse
mesmo santuário, suas atividades do ano. Na ocasião
lá estava o autor nos prestigiando, tanto na casa
de Goiandira do Couto, quanto nas homenagens _ aos
nossos 32 anos de fundação _ patrocinadas pelo prefeito
Boadyr Veloso, no Hotel Vila Boa. Magnífica festa!
Apresentamos coral, jogral, cantos e falas enaltecendo
a Antiga Capital e sua gente.
Protelei
e protelei um contato com José Mendonça para agradecer-lhe
a gentil oferta dessa 2.ª edição e descrever-lhe
meu coração emoldurado na saudade de minha infância
e juventude inebriadas de damas-da-noite e vividas
na rua em cuja esquina estava a casa de Octo Marques.
A sala de entrada do artista era um ateliê improvisado
e as paredes usadas como as telas que figuram no
livro em questão: burrinhos de carga e/ou urubus
coadjuvam os temas locais. De tempo em tempo o mendigo
de Deus renovava os painéis, pintando outros
sobre os anteriores. Do lado de fora da janela-Moreira
eu via tudo com olhos de menina curiosa, da Rua
Travessa. Via também a felicidade de Octo, recebendo
os congos na época de devoções populares. Encantava-me
o aparato daqueles homens: sua coroas, chapéus,
plumas; suas roupas coloridas e brilhantes; seus
colares, suas fitas. Os reco-recos das compridas
cabaças, os guizos dos pandeiros e sons rústicos
de origem negra misturavam-se ao queixume indígena,
indo e vindo sobre os mesmos passos:
Arirê,
cum! cum!
Arirê,
cum! cum!
............................
Ô
congo arirê!
E ouvia a simulação
guerreira na Dança
do congo:
Moça
goiana
chega
à janela.
Vem
ver o congo
que
vai pra guerra.
Eu
vai pra guerra.
Vai
guerreá ... á.
Se
não morrê ... ê
hei
de vortá ...
............................
Na pág. 115, vemos José
Mendonça com o braço no ombro de Consuelo Caiado.
Ah, Consuelo! Era diretora do Gabinete Literário.
Minha avó, muito enérgica, mandava-me tirar as dúvidas
das matérias do Liceu naquela Farmácia (do sobrado
cheio de jornais nacionais e franceses) e ponto
de encontro dos amigos. De quebra, aprendi que não
se dobra o canto das folhas do livro; exercitei-me
na leitura pequenininha das notas de rodapé no compêndio
de História Geral; pratiquei a pronúncia correta
de nomes franceses e a consulta ao glossário, para
o entendimento de palavras técnicas, específicas
_ ou em desuso_ de cada disciplina. Finalmente aprendi
que moça
não se senta e fica batendo um joelho contra o outro.
Nem vou dizer o que significa!
Conheci e ouvi Xará,
em frente à minha casa, cantando:
Encontrei
Maria
dentro
do jardim
tá
panhano frô
pra
jogá ni mim.
..........................
As modinhas goianas
mexem fundo no coração da gente. Parei!_com
saudade das ruas de pedra_eu
só, sem mais ninguém, quando José Mendonça matou
a vontade de escrever
alguma coisa sobre o toque genial de Maria Augusta
Calado nos acontecimentos artístico-culturais de
nosso Estado.
Quando vim da
fazenda, para cá da Colônia de Uvá, a fim de fazer
o primário, ouvi pela primeira vez Noites
goianas, no Cemitério São Miguel, ao som
de violinos. Fiquei fascinada. Os alunos
do Grupo Escolar Manuel Caiado e de outros estabelecimentos
tivemos que prestigiar o enterro de uma urna que
trazia os ossos de grande figura goiana. Creio que
do poeta Joaquim Bonifácio de Siqueira, autor da
letra desse hino
oficial (e não de Joaquim de Sant’Ana que o
musicara).
À medida que avançava
na leitura, mergulhava no tempo:
sentia o gosto dos quintais, o cheiro dos
casarões; tateava os musgos dos becos; re/via praças,
largos, chafarizes bebendo a lua; ouvia a Pinta
preta _ que eu tenho no lado direito do rosto
_ tantas vezes declamada pelo poeta Ygino Rodrigues,
no ouvido de sua enorme e tísica solidão.
Também ouvia as vozes
de meus antigos professores, postadas nas paredes
do velho Liceu, como numa torre de Babel entrecruzando
as matérias: Haydée Bastos (Hist.), João Perilo
(Ciências), Edla Pacheco/Dolcy Caiado (Mat.), Carlota
Jubé (Geog.), Goiandira do Couto (Des.), Laíla Amorim
(Francês), Maria Leite (Ed. Fís.) e muitos, muitos
outros mestres do giz e da palavra. Polivalentes!
Dolcy Caiado me iniciou na arte do discurso e da
declamação poética, no salão nobre daquele velho
Liceu.
De tanto as cigarras
chamarem chuva nos quintais de Goiás, o rio Vermelho,
avozinho de Cora, resolveu orquestrar uma sinfonia
tempestuosa (4.° movimento da n.°6, de Beethoven?)
e ofuscar os fogos de artifício no Réveillon/2002.
A enchente de 1839 retornou como um fantasma para
Luiz do Couto, querendo arrastar de volta para Catalão
a Cruz do Anhangüera. Rolinhas-fogo-pagô
não mais vêem a areia limpa do terreiro; lagartixas
balançam astutamente a cabecinha, do alto das mangueiras,
procurando pedras no muro para alugar; urubus emergem
das pontes e sobrevoam as águas ao anoitecer. A
cidade se dissolve humildemente num batismo coletivo.
Vejo Marlene Velasco,
Maria Veiga e outros amantes ardorosos dessa terra
limpando e carregando com cuidado os filhos e as
folhas da história, na madrugada do novo tempo.
Vejo, ainda, Marcelo Barra puxando serenata e seresteiros,
Goiandira acima, Rosário abaixo, parando na porta
de todas as idades, fazendo adivinhações, plantando
emoções no cais da cidade pastada, lanhada e lacerada.
E da cidade coralina, cheia de esperança, florida,
revestida de abril para o mundo inteiro. Um sarau
alegre chega ao antigo mercado e vai se dispersar
no Largo do Chafariz. Nesse concerto noturno estariam
Nice Monteiro, Sílvia Curado, Brasilete Caiado,
Augusta Faro, José Mendonça, Helinho Brito, Ana
Taveira, Marco Antônio Veiga, Maria Lucy, Iracema
Malheiros, Fernando Cupertino... Poder e povo. Muita
gente humilde dando e colhendo espigas de soliedariedade
para a reconstrução das pontes, sobrados, telhados,
paredes e muros verdes de avencas.
As vozes de Elder Camargo,
Ouvidinho, Ely Camargo, Bartira, Rita Ludovico e
dezenas de outra vozes soam na passarela das igrejas
e mosteiros e nos autos do passado. Márcio Alencastro
Veiga, ao violão, sola Rio
Vermelho e desce da solidão dos morros uma lava
boêmia, expelindo chispas de amor contra a fúria
das águas profanas que invadem a biquinha sob a
ponte. Sus Cristo! Cora arrasta chinelos desabusados
no assoalho do medo, levanta muletas sem preconceitos,
comanda a torre dos ventos sobre a qual essas águas
cavalgam e
toma a bênção das lavadeiras, na
manhã de um novo dia que começa. Goiás ressurgirá
purificada e regenerada. Tão linda como em minhas
retinas de criança.
Santuário seria
uma imagem cúltica usada por José Mendonça Teles
para a cidade de Cora Coralina e para sua casa (dela)
que, como a Arca, guarda tábuas, escritos e documentos
seculares da aliança e união entre os goianos, em
meio de grandes cerimônias e reformas, como as que
presenciamos agora.
Caldas
Novas, 13 jan./2002.
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