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E-mails
de Pero Vaz de Caminha
ao Presidente de Portugal – nos 500 anos de Brasil
“Psicografados” por
Ercília Macedo-Eckel
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Excelência:
Sei que o Capitão deste navio e outros
dignitários já lhe telefonaram, mandaram-lhe fax e enviaram-lhe
e-mails comentando nossos feitos nesta viagem. Também
eu, apesar de ser o pior de todos, atrevo-me a digitar-lhe
algumas miudezas. Alongar-me-ei bastante nas notícias
e informações. Por isso darei conta do que nesta terra
vi através de e-mails numerados, como se capítulos fossem,
conforme os fatos ocorreram e ainda ocorrerão. Para maior
clareza, evito abreviar as palavras, como é hábito
na comunicação eletrônica.
1 Na
chegada, soubemos de uma réplica da nau do Achamento
e que não conseguiu zarpar para a festa dos 500 anos.
Assim, seguimos de longo, até lançarmos âncoras defronte
à boca suja de um rio (22 abr., sábado-de-aleluia). O lugar parecia deserto. Mas logo percebemos
a aproximação de homens e mulheres em grupos de dois,
de três, até chegarem dezoito ou vinte pessoas com pouca
coisa cobrindo-lhes as vergonhas. Não por falta de pano;
creio que por opção ou por orgulho exacerbado de exibir
suas partes pudicas.
Dia vai, noite vem e de engodo em
engodo, de troca em troca de gentilezas, o Capitão e seus
subordinados conseguiram angariar a simpatia, a curiosidade
e a colaboração de aproximadamente setenta homens ali,
na praia. Inclusive dos catadores de caranguejo no mangue
mais abaixo.
Um nativo, descendente
de pataxó, veio mais perto e
fixou o olhar no celular do Piloto que estava a bordo
e acenou para seu próprio celular, com câmara e música
digitais, querendo dizer que também conhece tecnologia
avançada de branco e nela se acha inserido. Logo em seguida
aproximou-se outro nativo e apontou para o laptop e para
a filmadora que estavam entre mim e Nicolau Coelho e falou
em mau português, como se fosse um japonês há pouco chegado
em São Paulo: “Nós viu já.
Nós conhece esses coisa de Japon,
de China _ lá de Ásia. Toda banda aqui. Meu filho na universidade.
Muntcho bom no computador. Cota
de governo ajuda nós”.
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Ainda hoje, sábado 22, aqueles descendentes de pataxós
e vários outros, inclusive mulheres e crianças, provavelmente
da mesma aldeia, chegaram em
barcos a motor, com os corpos pintados, munidos de carabinas,
arcos e flexas. Falavam nervosos
entre si. Nicolau dirigiu-se até eles, fez sinal de calma
e que se assentassem na areia, ao que aquiesceram. Porém,
logo se levantaram e começaram a tocar buzinas, saltando
e dançando. Alguns tinham miquinhos nos ombros ou no alto da cabeça.
Os tripulantes do navio ofereceram-lhes
vinho e cachaça. Os nativos correram para cima das bebidas
com entusiasmo, quase atropelando uns aos outros. Bebiam,
bochechavam, deixavam cair um pouco de líquido no chão,
dizendo que era para os deuses deles. Suponho que por
gratidão alguns índios enfeitaram o Capitão com colares
e pulseiras feitos com sementes das árvores que aqui ainda
restam.
Nisto saiu Bartolomeu Dias com os
olhos voltados para o céu, à procura de papagaios. Mais
adiante se encontrou com um guia turístico rural de quem
recebeu a seguinte informação:
Os papagaios que mais voam neste país são
aqueles de criança, presos por cordel; ou notas promissórias
nas quais há promessa de pagar dívidas. Não se sabe quando!
E talvez quem as liquide seja o avalista. Papagaios!
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Excelência, creia que nada
lhe digitarei para impressioná-lo, além do que vejo e
ouço. Das várias espécies de laranja existentes nesta
terra não darei conta aqui. Porém uma me chama a atenção
em particular por não ser fruta. Trata-se de uma pessoa
ingênua ou insignificante usada por corruptos ou endinheirados para esconder falcatruas.
Então orientamos nossos degredados e gente chã
da tripulação para ficarem atentos. E não darem valia
às piadinhas a respeito de nossa inteligência.
Ao amanhecer hoje, domingo de Páscoa (23),
ninguém pôde ir muito longe por terra, porque a praia
estava apinhada de gente de todas as cores. E os marinheiros
que arriscaram lançar rede no mar, puxaram-na de volta
com quase nada de peixe _ coisa miúda. Mesmo assim um
arrastão de famintos tomou-lhes a rede, os peixinhos,
os relógios de pulso e saiu em debandada carreira, até
ganhar as ruas de Porto Seguro.
Este incidente me fez lembrar pirataria
(apátrida – não corso que tem pátria), porque aqui os
membros do arrastão se comportam como inimigos dos conterrâneos
e de pessoas de qualquer país que aqui chegam. Os mais
elitizados, Excelência, reproduzem programações
eletrônicas, filmes, DVDs,
brinquedos, remédios e grifes
famosas a baixos preços – a ponto de ofuscar o comércio
das mercadorias originais.
Desde nossa chegada, nossos carpinteiros
têm providenciado uma grande cruz, com a ajuda de motosserras
dos nativos. Erguemos também um altar. E agora pela manhã
o Capitão arrebanhou índios, tripulantes do navio, demais
autoridades, sacerdotes e habitantes dessa terra. Houve
vasta cobertura televisiva. E microfones demais para uma
só boca. Padre Marcelo Rossi, muito popular aqui no Brasil
e especialmente convidado para dizer a missa, conduzia
a cerimônia com músicas de seus CDs, com gestos dramáticos
e muita alegria. De repente um helicóptero desce defronte
à praia. Dele saem o missionário R. R.
Soares, o rabino de gorro ou quipá
vermelho ou branco e sotaque americano, Henry Sobel, mais
o pai de santo José. Passaram-me um cartão identificando-os
desta forma. Cada um trouxe sua mensagem de paz e muito
proveitosas falas contra a violência e agressão ao meio
ambiente que é a nossa casa. Ecumenicamente exclamavam
com as mãos dadas: Viva Deus!
Viva Cristo! Viva
Jeová! Viva Tupã! Viva
Oxum, Oxossi e todos os Orixás! E que venham os
mortos pela mediunidade! Viva também Alá! Viva Alá! E viva
o profeta Maomé!
Despedimo-nos, lavamos as mãos, e
fomos comer.
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No mesmo dia (23), à noite, havia uma multidão fantasiada,
corpos esculturais pintados e brilhantes. Na curva da
praia, além, dançavam e pulavam _ “tiravam os pés do chão”
_ por mais de uma semana. Dizem que é carnaval fora de
época.
De
um lado do bloco, fumacinha
Cannabis levantava lentamente em espiral. As bocas secas
dos dançantes pediam líquido bem docinho. Mais doce que
água de coco anão. Do outro lado, narizes cheiravam e
cafungavam euforicamente o pó.
Na balada a ária tinha muitas vozes e na cantata tomavam
comprimidos brancos e coloridos até não se sentirem mais
estagiários do pânico ou da viagem lírica. Vôo de pássaro
de arribação, talvez sem volta. Então o Capitão fez que
quatro serviçais tomassem os mais excêntricos ao colo,
atravessassem a curva da praia, e os colocassem dentro
de táxis para suas casas.
Somente
hoje (até agora) não tivemos notícia de assaltos, tiroteios
e balas perdidas, motivo constante de desgraça nesta terra.
Próximo
de nós, sob as luminárias, vimos garotos correndo
atrás de uma bola feita com carapuças de lã. O Capitão
mandou Afonso Ribeiro observá-los por bom tempo. Disseram-lhe
treinar com afinco na esperança de que, mais adiante,
caso um tal Felipão
chegue a técnico da seleção de Portugal, terão uma chance
em terra lusitana.
No
dia seguinte, à tarde, depois de zarparmos trinta quilômetros,
descobrimos, na entrada de uma propriedade, um agrupamento
com vinte ou trinta ranchos. Alguns cobertos com plástico
preto. Havia uma bandeira vermelha com a sigla MST
_ alçada em aproximadamente dez metros do chão, na ponta
de uma taboca-gigante. Em quase todos esses ranchos (como
nas aldeias indígenas) há antenas parabólicas e tevês
ligadas em noticiários e naquelas novelas tão apreciadas
por nós aí na Europa.
Ouvi
dizer que os filhos desses “sem terra” têm aulas de música,
com maestro, e ensino fundamental dentro do acampamento.
Não aceitam freqüentar a escola rural da região porque
sua cartilha é diferente. E ouvi dizer também
que obterão cotas do governo para ingresso em faculdades. Afora
o Movimento receber gorda verba federal. Que acha disso,
Excelência?
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Meu e-mail conclusivo:
Os
habitantes originais desta terra são hoje pardos e mestiços.
Têm no pescoço dentes de animais atados a um fio de palmeira
bem trançado, ou colares urdidos com penas coloridas como
de papagaios. Não me pareceram convertidos, beijando crucifixos
pendentes no peito, como era desejo de D. Manuel I. Muitos
usam sandálias havaianas, bermudas ou calças jeans, camisetas
de malha, com inscrições em inglês e têm nos pulsos relógios
de Manaus, da China, ou do Paraguai.
Alguns
se enfeitam a caráter, como se índios primitivos fossem,
para irem a Brasília ou a Porto Seguro, reivindicarem
suas terras, seus direitos, ou se mostrarem diante das
câmaras de televisão. Trazem nas mãos arcos e flechas
para atingirem o relógio dos 500 anos e ameaçarem o rosto
do Poder por não serem incluídos nestas festas. Também
reclamam que em suas terras há muito gado, muita soja
transgênica, garimpos que devoram
a Natureza e vomitam mercúrio. E muitas fazendas com campo
de pouso para aviões. Além de madeireiras.
Olhando
do mar, Excelência, nesta terra não há mais a exuberante
Mata Atlântica. Os arvoredos encolheram. Os animais, pássaros
e frutos silvestres minguaram. Tenho certeza de que pau-brasil,
ouro, prata e outras riquezas outrora existentes mudaram
de país. E a Amazônia vai e vai,
guinchada e queimada aos poucos.
Porém,
a terra em si é de muito bons ares, bom clima. Querendo
melhor distribuí-la e aproveitá-la (é só plantar), aqui
tudo dá. As águas são muitas, não infinitas, posto que
diversos leitos de rios são usados
como esgoto e depósito de lixo de toda espécie. Poços
artesianos e irrigação resolverão o problema do Nordeste,
basta vontade política.
Contudo,
o maior feito das Excelências locais me parece (que) seria
salvar essa boa gente do desemprego, das balas perdidas,
da violência urbana, da corrupção explícita e negada.
E também salvar esse povo do mau atendimento à saúde,
da escola inadequada, da carência de moradia e pão.
Desta
maneira, Presidente de Portugal, dou
aqui por miúdo conta e meu relato do que nesta terra vi,
500 anos depois de Cabral.
E
desta cidade de Caldas Novas, a capital do turismo em
Goiás, hoje, segunda-feira, 1º de maio de 2000, este último
e-mail digitei _ como os quatro anteriores _ sob a ação
do espírito de:
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