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Boitatá
(Queimadas)

 

Ercília Macedo-Eckel

 


            Agosto ou setembro. Qualquer hora do dia ou da noite. Da macega, às margens do caminho, estrada ou rodovia, ergue-se a fumaceira e rastejam as chamas engolindo a seca vegetação. Você já sabe: é o fogo mandando, mundiando, seduzindo-nos para a caldeira borbulhante, para as profundas, para a geena. E´ a cobra-de-fogo que serpenteia ao lado dos carros e animais, tirando o sossego do cerrado. Aqui e agora aparecem línguas loucas, luminosas, com penachos azulados e velozes, bailando sobre arbustos e gramíneas, assombrado até curupiras. Mais adiante tais línguas se transformam em galhos cor de brasa e, como almas-penadas de fachos cintilantes e esquivos, tomam o rumo das águas para defender a natureza contra os desavisados e piromaníacos que ateiam fogo sem se comprometer com a lei.
            Do nada, de um toco de cigarro, de uma faisquinha sádica, brota a cobra-que-corre, com sua língua dardejante. Tímida inicialmente. Mas, atiçada pelo vento que indica o percurso do funeral, ganha volume, alastra-se, cresce consumindo o solo, seus viventes e nutrientes. E, quanto maior o clarão e mais comprida essa cobra, maior o estrago que causa. De sua boca imensa, surgem línguas partidas em duas ou três, pulando e dançando nas moitas verdes, como um cabrito faminto e atrevido. Jatobá, sucupira, barbatimão, pau-de-óleo, pimenta-de-macaco, ipês roxos e amarelos crepitam planalto adentro.
            Boitatá é uma cobra teimosa e traiçoeira. De decisões e faíscas súbitas, é impossível prever o espaço e o tempo de suas golfadas de fogo: se você enfrentá-la, abafar seus estalos e assobios, ela se torce, troca de pele e investe pelos lados, abocanhando seu calcanhar ou o capinzal vizinho. E cada ramo e vara utilizados nesse combate podem transformar-se em outra cobra-de-fogo numa linha infinita, escorrendo por entre fendas, subindo encostas, sufocando preás, engolindo urutaus, digerindo sapos, vencendo fauna e flora. Bandeiras, tatus, quatis, sariemas, quero-queros, juritis se erguem da fumaça como que saíssem do inferno.
            Tal serpente mias parece uma Naja africana: cospe veneno contra os ignícolas para que, cegos, jamais possam ver o arco-íris, as flores e comer novamente os frutos da terra. E, feito um dragão alado, vai à frente vomitando fogo e rindo da precariedade dos homens. Para trás ficam os resíduos do poder inimigo: cinza e carvão.
            O sol sumiu. As estrelas não aparecem. A lua não aparece. De repente um vento feroz redemoinha e vacas leiteiras e carros pesados ganham as alturas e caem bem longe, como se fossem brinquedos de criança. As águas cobrem a terra. Boitatá tudo vê, com seu brilho ofuscante. Então começa a comer os olhos esbugalhados dos homens e animais que boiam nas enchentes. Agitada, a cobra continua sua trilha de cobra-que-corre, com o ventre pegando fogo, podendo transformar-se em monstro incandescente e entrar pela boca da noite.
            No momento cobra-que-corre dorme enroscada no oco quente de uma paineira. Mas, quem garante que amanhã, ao levantar o sol, boitatá não se espreguice no borralho e, rangendo os dentes, desembeste serra acima? Cobra danada, sobe furiosa e desce lentamente, dias a fio e ao sabor do vento, até que encontre um rio ou desabe do céu a imensidão das lágrimas de Deus.


Ercília Macedo-Eckel é membro da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, sócia da União Brasileira de Escritores – GO e da Academia Petropolitana de Letras – RJ. Mestra em Letras pela UFG.


 

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