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A
soleira vulnerável da partida
"Natura non
facit saltus."
(Leibniz)
Tempo
zero. No início nada. Não havia forma
nem tempo. E nem palavra. Mas um fogo essencial,
uma energia e uma explosão cósmica
conceberam, no recém-fundado côncavo,
o útero das águas primordiais. E o
primeiro relâmpago iluminou o projeto das
primeiras células da matéria viva.
E
agora, eu esfera quase invisível , eu alga
verde-azulada; eu verme, peixe ou réptil;
eu barata ou escorpião, ainda embrionária,
viajo numa sopa orgânica. Eu bactéria,
imersa no líquido do oceano materno, multiplico-me,
transformo-me e atravesso milênios fora dessas
águas abissais.
Saio
do caos e da criação com dez aberturas.
Sete no rosto. Goiás e o mundo me entram
pelos olhos, ouvidos e narinas. Pela boca eu devoro
o universo e na outra extremidade eu o excreto.
Aqui não considero os poros cujo suor é
resultado de grandes amores ou de grandes fadigas.
Trago
nas costas um medo réptil horizontal, escondido
na rigidez vertical de minhas vértebras.
Pois sei que cobra flácida é cobra
morta, escorrendo na vara de quem a matou. Mas será
que tal ofídio teria morrido mesmo? Cobras
e monstros renascem com mais de cem cabeças
no crepúsculo, na escuridão, na profundidade
marinha de meu inconsciente. E, estão incorporados
em mim, em nós, desde os tempos primordiais.
Gradual, lenta e interligadamente, porque "a
Naturaza não dá saltos."
A
roda gigante do ir contínuo e do vir a ser
cíclico rodou e rodou até que os homens,
no parque do mundo, pensaram em escalar o céu
para ameaçarem os deuses.
Então
Zeus, furioso com nosso nariz arrebitado, cortou-nos
ao meio, no sentido do comprimento, para nos lembrar
de que somos vulneráveis na frente, na barriga
que enxergamos. Porém temos costas muito
fortes, fora do alcance de nossos olhos. Você
sabe para quê? Para serrem surradas por línguas
adversárias, sem que soframos tanto.
Se
Apolo, deus grego de natureza ambivalente (sol e
noite; ameaça e salvação; peste
e música) não tivesse a idéia
de virar o rosto da humanidade para o lado do corte,
do umbigo que ele próprio amarrara na frente
frágil, por certo teríamos os olhos
virados para nossas costas quentes de soberba. No
Brasil, especificamente, teríamos nossos
olhos voltados para a bunda avantajada de nossa
arrogância de mulher brasileira.
Talvez,
porque Zeus dividiu nossos corpos andróginos
e arredondados ao meio, sejamos perseguidos por
aquela idéia de amor apaixonado. Aquele amor
que busca incansavelmente a outra metade que lhe
fora cortada. A outra metade da laranja, não
é Fábio Júnior? Não
é Aristófanes? Até quando?
Enquanto durar o encantamento pela totalidade e
pela fidelidade – como sonetou Vinicius.
Ainda
posso ouvir hoje a voz dos deuses de ontem, através
do vento, no limiar desta porta de partida, entrando
por meus ouvidos, avolumando em meus pensamentos
e saindo por minha boca: “Você tem agora
a palavra... palavra, lavra... lavra...” O
eco desse grito se repete retroativamente no corpo
de todos os meus ancestrais, até chegar à
sopa orgânica e aquática inicial. E
progressivamente retorna a mim, na soleira desta
porta em que parto para a vida e para a primeira
página do livro.
Então
avanço e recuo. Me informo e refaço
o caminho, no limite da linha e do tempo de estar
aqui. Passo a passo. Palavra após palavra.
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