| A
morte do poeta
23
anos sem Carlos Drummond de Andrade
São
17 de agosto de 1987, 23:45. Estou lendo um pouco,
antes de dormir. Televisão ligada. De repente:
“A seguir, a morte de Carlos Drummond de Andrade.”
Meus ouvidos parecem sirenes. Saio em direção
ao aparelho, pego este livro (A rosa do povo) na
estante e faço nele as seguintes anotações
e intertextualizações (atualizadas
hoje):
Clínica
Pró-Cardíaco, Rio de Janeiro. Poeta
recomendou evitar ostentação e ofícios
religiosos...
Parece premunição. Passou a Mangueira
sambando no reino de suas palavras no carnaval daquele
ano. E, há poucos meses de sua morte, ele
publicou seu último poema Elegia a um
tucano morto, e eu ouvi dizer que esse poeta
do tempo individual e coletivo estava escrevendo
um testamento e adeus. Despedida, à moda
inglesa (Farewell), com aquele sorriso
maroto de sempre, como na crônica Ciao
(1984), em que se despede agradecendo os leitores
de sua página semanal no Jornal do Brasil.
Tinha
que ser em agosto... O povo e a rosa sabem: mês
do desgosto. Chorei. Morreu meu poeta querido. Enigmático,
discreto, contido. "Estou de luto. Amanhã
de manhã não trabalharei. E, no escuro
da noite, gritarei para todos ouvirem: O poeta não
morreu, deixou de existir!" Perdemos o maior
poeta contemporâneo e mais amado de nossa
literatura. O nosso Fernando Pessoa. Poeta não
tem mesmo existência real. Poeta é
um fingidor mágico da palavra.
Durante
o tempo que passou conosco, esse pássaro
gigante exibiu sua alma criadora no combate às
serpentes para estar livre, bem livre mesmo. Acima
do tempo, dos amores tardios de carne envelhecida;
acima das sete faces do humano e do anjo torto.
Meu
coração é pequeno, não
cabe as emoções de seus poemas. Mas
as ruas de nossas cidades continuam enormes (como
você deixou), vomitando tédio e os
crimes do mundo. Os jornais soletram uma Pasárgada
de safadezas sem fim e regurgitam a revolta do povo,
por enquanto sem armas, a não ser as do humor.
Então evoco o espírito do poeta. Flores
não precisam de lei nem de CPI para nascer.
Podem até ser plantadas por dedos sujos.
Florestas de dedos! Quando uma flor, embora feia,
brotará do asfalto para nos salvar dessa
náusea? Desse enjoo em tempo de fezes e mijos?
De muros pichados e surdos ao bom gosto?
É
tempo de partido, homens partidos, em carne viva,
sangrando, mas arquivando sem-vergonhice e mandando
engolir o verbo, a náusea, o riso sem boca.
As lições de infância foram
realmente desaprendidas na idade madurada, poeta?
É tempo da muleta e da mutreta que conduzem
o aleijado de caráter para longe das celas.
É tempo da árvore que regressa em
fatias e da mesa que foge com suas gavetas de papéis
escuros, cheios de segredos. Não é,
poeta? Nada mudou. Sinto que é hora de varrer,
com vassoura elétrica, a noite do oficial
administrativo, como aconteceu em sua Noite
na repartição. O texto, a poesia
são como cachaça, fazendo-nos lutar
com e contra as palavras, para sair do labirinto.
Luta vã, não é poeta? Luta
de inseto em parlamento de maioria.
Não
houve jeito, poeta, busco versos sobre acontecimentos.
Porém está confirmado: não
há criação sem morte perante
sua poesia. Nem envelhecimento sem adjetivos.
Saia
às janelas do céu de Itabira, de onde
você verá tudo, mas ninguém
o verá. Meu coração subirá
com você, pois tudo e nada, nada são.
A poesia acordará os homens, à procura
de seu chapéu branco, e adormecerá
as crianças e os passarinhos.
Será
a hora em que o sino tocará, embora você
não esteja na igreja. É tão
bom ouvir os badalos assim... de longe, não
é, poeta? Da morte você nunca teve
medo. É noite, você é noite,
eu sou noite, nós somos noite e em noite
nos dissolveremos. Não foi morte, foi apenas
noite na poesia do Brasil, em 17 de agosto de 1987.
De
tudo fica um pouco. Ficou um pouco de sua filha
única no gemido de suas vísceras inconformadas.
Há doze dias falecida, dela ficou um vazio
em seu peito. Então você foi, mágico
da palavra, encontrá-la no céu e preencher
esse vazio, pai, poesia, poeta maior, com seu critério
moral. Deus o entenderá sempre!
De ternura ficou um pouco.
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